JOGO DA FORC(Ç)A

A Segunda Guerra Mundial acabou oficialmente em 15 de agosto de 1945 com a rendição do Japão, que, até então, era o único membro da Tríplice Aliança (Alemanha, Itália e Japão) a resistir na guerra. Já no mesmo ano, os quatro países vitoriosos (Estados Unidos, França, Reino Unido e União Soviética) se articularam numa série […]

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A Segunda Guerra Mundial acabou oficialmente em 15 de agosto de 1945 com a rendição do Japão, que, até então, era o único membro da Tríplice Aliança (Alemanha, Itália e Japão) a resistir na guerra. Já no mesmo ano, os quatro países vitoriosos (Estados Unidos, França, Reino Unido e União Soviética) se articularam numa série de julgamentos dos criminosos de guerra. Ocorridos entre 20 de novembro de 1945 e 1º de outubro de 1946, esses episódios ficaram conhecidos como os Julgamentos de Nuremberg.

 


Nuremberg é uma cidade do estado da Bavária, no sul da Alemanha. Entre 1933 e 1938, foi sede dos comícios do Partido Nazista, conhecidos como as Reuniões de Nuremberg. Persistem na cidade, até hoje, obras faraônicas inacabadas do arquiteto-chefe do Terceiro Reich Albert Speer. Por ter sido cenário do início do Terceiro Reich, o Palácio da Justiça de Nuremberg foi usado para os julgamentos. Como em toda guerra, não basta ganhar em campo, são necessários momentos de humilhação pública aos perdedores – nesse caso, julgar os líderes da Alemanha Nazista em seu próprio berço.

O primeiro dos julgamentos de Nuremberg começou no dia 18 de outubro de 1945. Foi o principal deles, pois nele foram julgados os membros de mais alta patente dentro da Alemanha Nazista e do Terceiro Reich. Dos 24 acusados, sete foram presos, quatro foram absolvidos, um se suicidou e os outros dez foram enforcados no dia 16 de outubro de 1946, há exatos 64 anos.

QUEM ERAM ELES?

 

 

Alfred Jodl (primeiro em cima) era general. Foi chefe de pessoal de operação do Alto-Comando das Forças Armadas (Oberkommando der Wehrmacht).

Alfred Rosenberg (segundo em cima) era escritor e político. Em 1930, lançou a obra “O mito do século XX” (Der Mythus des zwanzigsten Jahrhunderts), na qual defendia uma nova religião que iria substituir o cristianismo.

Arthur Seyss-Inquart (terceiro em cima) era advogado. Foi chanceler da Áustria e gauleiter (líder provincial) da Holanda.

Ernst Kaltenbrunner (quarto em cima) era um oficial da Alemanha Nazista. No Julgamento de Nuremberg, foi o acusado com a maior patente da SS (Schutzstaffel, Tropa de Proteção). Foi presidente da Interpol entre 1943 e 1945 e comandou o RSHA (Reichssicherheitshauptamt, Escritório Central de Segurança do Reich).

Fritz Sauckel (último em cima) era engenheiro. Foi o Plenipotenciário Geral para o Emprego de Trabalhadores do Terceiro Reich.

Hans Frank (primeiro embaixo) era advogado. Foi Governador-Geral da Polônia ocupada.

Joachim von Ribbentrop (segundo embaixo) era engenheiro e jornalista. Foi ministro das Relações Exteriores da Alemanha Nazista.

Julius Streicher (terceiro embaixo) era jornalista. Foi editor do periódico “Der Stürmer” (O Atacante) e gauleiter de Nuremberg.

Wilhelm Frick (quarto embaixo) era advogado. Foi Ministro do Interior do Terceiro Reich.

Wilhelm Keitel (último embaixo) era marechal-de-campo. Foi chefe do Alto-Comando das Forças Armadas.

 

 

O nazismo, além de um movimento externamente político, era uma ideologia que cada seguidor carregava consigo. Mais do que isso, era propriamente um sentimento. O lema da SS, por exemplo, era “mein Ehre heißt Treue” (minha honra se chama lealdade). Ser leal  aos ideais nazistas era o mote dos que acreditavam no Terceiro Reich.

Perder, portanto, não estava nos planos de nenhum deles. Muito menos render-se. Para muitos, a morte voluntária foi a solução, como para Magda Goebbels, que deu cianureto aos seus seis filhos, pois, na iminência da derrota, não queria que as crianças tivessem que viver num mundo sujo. Foi também a solução para Martin Bormann, um dos 24 acusados do primeiro julgamento em Nuremberg, e para o Führer em pessoa.

A noção de lealdade era extensa no entanto. Quantos nazistas, quando capturados, não se deixaram matar? “Você não pode esperar que eu divulgue informações que poriam vidas alemãs em perigo?”, indaga o sargento Werner Rachtam, personagem interpretada por Richard Sammel no filme Bastardos Inglórios, de 2009. Quando o tenente Aldo Raine, interpretado por Brad Pitt no mesmo filme, ordena que Rachtman aponte no mapa onde as tropas alemães estão, o sargento nazista reponde: “eu respeitosamente me recuso”. Rachtam foi morto a pauladas, mas, para ele, a morte, naquelas circunstâncias, era um regalo para o bem maior do Terceiro Reich – era sua contribuição para os mil anos de poder dos arianos.

Dez nazistas foram enforcados no mesmo dia. Dez nazistas! E daí? Daí que esses dez nazistas eram os nomes mais fortes do Terceiro Reich. Deles e de Adolf Hitler, vinham ordens que ditavam os rumos da guerra. Depois da rendição do Japão, o mundo assistiu à reorganização da ordem mundial. A Europa destruída, os Estados Unidos e a União Soviética fortalecidos e prestes a se enfrentar simbolicamente por décadas; muitos países africanos se tornariam independentes; os palestinos estavam prestes a ter suas terras arrancadas de suas mãos para serem dadas aos judeus (e como alguém se oporia a isso depois que 6 milhões deles foram mortos?).

De Jodl a Keitel, os dez foram enforcados por serem “criminosos de guerra”, mas, entre todos os envolvidos ativamente nela, quem não foi criminoso? Muito mais do que servir como tribunal da paz e espólio para criação da Organização das Nações Unidas (ONU), os Julgamentos de Nuremberg serviram de prévia de como as coisas seriam dali por diante. Estados Unidos, França, Reino Unido e União Soviética ditando as regras, decidindo quem deveria ser morto e quem seria absolvido. Quatro países a ditar as regras do jogo. Onde foram colocadas as nações eslavas, que viram seus habitantes incorporar a noção de “escravo”? Onde estava a Polônia, talvez a nação mais afetada pela guerra? E a Dinamarca, a Noruega, a República Tcheca, a antiga Ioguslávia, a Manchúria?

Hoje faz 64 anos que dez “criminosos de guerra” foram enforcados. Suas mortes foram uma decisão de quatro países, dois dos quais continuariam a decidir muitas outras coisas. Não nego aqui o papel desses dez condenados na Segunda Guerra, mas me pergunto quanta atrocidade é necessária para que se esmaguem certos escaravelhos?

 

 

Hans Frank comandava a Polônia ocupada, Julius Streicher usava seu jornal para incitar o ódio aos não-arianos. A crueldade dos nazistas foi intensa e intensiva. Em seis anos, viu-se muito. George Bush autorizou a guerra no Iraque, Nicolas Sarkozy quer que os franceses só se aposentem depois dos 70, José Serra quer construir muitas e muitas cadeias para proteger o cidadão “de bem”. Quão diluídas essas atrocidades têm que estar no cotidiano para que nós a aceitemos como naturais? Quando recordaremos os 64 anos da execução simbólica de muitos nomes do Reich contemporâneo?

JOGO DA FORC(Ç)A, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com

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