O PROBLEMA É DO BRASIL

O luto e a crítica pelas mortes nas montanhas do Rio de Janeiro.

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Então Zeus, com sua força inata, o maior dos maiores, o mais importante do Panteão, deus supremo do mundo, raivoso que estava jogou-lhes sobre suas cabeças os raios e trovões da fúria e destinou-lhes muita água, água demais para seus lugares, furioso por terem invadido o espaço que destinara à deusa Deméter. E com tanta água, raios e trovões, fez a terra desabar em minutos sobre milhares de mortais ingênuos e inábeis de salvação diante da fúria das águas que com força arrastavam árvores, casas e o que mais havia pela frente.

Da montanha veio o barro, do céu a água e do chão tudo o que havia sido construído há anos. O desastre foi desproporcional à força que os homens tinham de burlar a força do grande Zeus, o deus por excelência, e assim centenas ou milhares sumiram sobre as terras ou foram levados pelas águas na escuridão de Hades, o deus do inferno, do mundo subterrâneo.

Assim seria contada a história às crianças nascidas na Grécia Antiga se a região serrana do Rio de Janeiro de lá fizesse parte. O Brasil acordou assustado e lacrimoso. Tudo o que se via, ouvia-se ou lia-se era desesperançoso. As montanhas vieram contra nós, pequenos seres desprovidos de alguma força maior que a da natureza. Nossa única força é o saber, e esse, inúmeras vezes, desprezamos.

Morar sobre região montanhosa é saber que se está mais perto do céu e na iminência da queda. Quando o horizonte é declive, o próximo passo é o degrau. A física explica que todos os objetos sobre a terra sofrem a influência da gravidade que nos puxa sempre para o núcleo incandescente central do planeta. Mas nem todos escolhem morar em locais desapropriados. O mundo é feito de belezas naturais. E sabemos que tudo o que é natural, surgiu anteriormente a nós. Nós é que chegamos depois. Nós é que invadimos, nós é que subimos, aterramos, construímos, poluímos, destruímos. Nós. E todos nós.

Os noticiários estão cheios de “as pessoas”, “os moradores”, “as famílias”. Não. O certo seria dizer nós. O mundo é uma grande comunidade e quem colocou muita gente a morar em lugares inapropriados fomos nós e o nosso sistema de desunião, criado pela força irracional de apenas viver sem querer saber do outro. E não apenas pessoas humildes foram arrasadas pela chuva, nossas leis frágeis não funcionam. Muitos casarões e mansões construídos em terrenos impróprios, encostas florestais e de reservas. O pobre e o rico subiu o morro por desleixo da união do Estado. Será necessário uma enchente para morrerem as palafitas. Virá uma grande tempestade para varrer as casas de lata e papelão. Virá água em abundância para levar com ela quem dela se apropria sem amparo.

A Região Serrana do Rio está no chão. Os católicos acreditam que do barro surgiu Adão, o primeiro dos homens. É agora no barro que muitos Adãos estão enterrados, ao contrário do primeiro, para o fim de suas vidas. Decerto comeram da maçã.

Já são mais de 500 mortos e algumas autoridades calculam que o número pode se aproximar de mil. É estranho, esta é a palavra, estranheza, ver o sofrimento assim tão perto. O Haiti é longe, o Chile também, a Indonésia, então, nem se fala. Mas o Rio está ali, bem pertinho de nós, brasileiros. Pertinho do samba, da caipirinha e da mulata que os gringos vêm usar. A catástrofe agora é nossa.  Nós deixamos os dois corpos lá na porta da casa pra que quando vierem buscar saibam de casa pertenciam, diz a moça ao repórter. Eu tentei salvar ele também, mas não deu, ele foi pra Deus no meu lugar, pobrezinho, choraminga a senhora que não conseguira segurar o cão junto à corda a qual a içavam da correnteza. É o dó, a pena, aquela angústia que aperta nossos peitos, peitos de brasileiros.

Um caminhão baú serve de necrotério, os corpos são guardados em lugares seguros “pois prezamos pelo respeito aos familiares quando estes vierem procurar seus entes”, explica a funcionária do IML em frente há dezenas de caixas brancas contendo corpos.

Há corpos sobre a lama, há corpos descendo as ladeiras de pedra, há corpos enterrados em valas quaisquer. O sentimento de impotência passou. O sentimento de solidão, agora, é o que vai ficar na vida de muitos fluminenses.

A tragédia era anunciada. Um estudo encomendado pelo próprio Estado do Rio de Janeiro já alertava, desde novembro de 2008, sobre o risco de uma tragédia na região serrana fluminense. O que é necessário fazer em um país onde só a felicidade era cartão postal por si só? O Brasil está de luto, as mães estão desconcertadas em suas casas, na Bahia, no Rio Grande do Sul, em Cuiabá. Os pais do Brasil pensam nos filhos que não perderam. A dor. O choro das cenas que a mídia apenas quer mostrar e dos mortos que quer contar num cronômetro. A grande mídia agora quer achar um culpado, claro, pois o mundo positivista tem que ter respostas claras e palpáveis.

Há ricos e pobres descendo a ladeira, do outro lado do rio sem ponte, nas lajes que sobraram. Muita gente desrespeitou as encostas, porém outras milhares somente ali encontraram espaço para viver.

Repórteres chegam de helicóptero, filmam, gravam, entrevistam, mostram ao vivo os corpos tapados sob lonas. Mas o Brasil quer mais que isso. E em muitos casos a ajuda voluntária tem dado um alento e uma esperança aos que de longe assistem sem nada poder fazer. A diretora do Centro para a Pesquisa da Epidemiologia de Desastres e consultora externa da ONU, Debarati Guha-Sapir , afirmou: “O Brasil não é Bangladesh e não tem nenhuma desculpa para permitir, no século XXI, que pessoas morram em deslizamentos de terras causados por chuva”. É incabível imaginar-nos na situação de vítimas como as que sofrem em Bangladesh, mas o Brasil comprova a cada desastre que não está preparado.

Santa Catarina havia avisado há alguns anos. Em janeiro de 2010 uma pousada desapareceu sobre barro e entulho matando famílias. A presidente Dilma Rousseff uniu seus ministros e prometeu uma ajuda de 100 milhões de reais às cidades atingidas. Mas nós não queremos mais ajudas, nós queremos ações públicas cotidianas eficazes, nós queremos lares bem estruturados, pessoas longe do perigo. Nós não queremos continuar ajudando, nós queremos resolver. Não é mais do que obrigação de Dilma liberar dinheiro. É obrigação do Estado brasileiro anunciar que quer se tornar um país contemporâneo, moderno, onde as pessoas não precisem ser enterradas em valas públicas para depois serem lembradas em memoriais. Nós não queremos covas, nós queremos casas.

COMO AJUDAR:

Em Santa Maria:
Cruz Vermelha Brasileira pede Alimentos não-perecíveis, produtos de limpeza, roupas de cama e produtos de higiene pessoal
Rua Duque de Caxias, 2784. Bairro Medianeira. Santa Maria, RS.
Telefones: (55)3027-4510 (55)9109-1804 (55)9181-0916

Doações em dinheiro podem ser enviadas as prefeituras das cidades atingidas:

Prefeitura de Teresópolis:
“SOS Teresópolis – Donativos”

Banco: Banco do Brasil
Conta corrente: 110000-9
Agência: 0741-2

Banco: Caixa Econômica Federal
Conta corrente: 2011-1
Agência: 4146

O CNPJ da Prefeitura é 29.138.369/0001-47

Prefeitura de Nova Friburgo:

Banco: Banco do Brasil
Conta Corrente: 120.000-3
Agência: 0335-2

Defesa Civil do Rio de Janeiro:

Banco: Caixa Econômica Federal
Conta corrente: 2011-0
Agência: 0199

Operação: 006

Fundo Estadual de Assistência Social do Estado do Rio de Janeiro:

Banco: Itaú
Conta corrente: 00594-7
Agência: 5673

O CNPJ do órgão é 02932524/0001-46

Campanha SOS Sudeste:

Banco: Caixa Econômica Federal
Conta corrente: 1490-8
Agência: 1041

Operação: 003

Banco: Banco do Brasil
Conta corrente: 32.000-5
Agência: 3475-4

O PROBLEMA É DO BRASIL, pelo viés da redação da revista o Viés

ocorreio@revistaovies.com

Para ler mais crônicas acesse nosso Acervo.

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