REVOLUÇÃO NO EGITO: FATOS E COINCIDÊNCIAS

Movimentos orquestrados ou meras coincidências. Não é de hoje que a revolução em um país afeta toda a região à sua volta.

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As revoltas pelo mundo nas últimas décadas sempre levam a novas revoltas em países próximos. Quem mais cairá no Oriente Médio a partir de agora?

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Em 1989 o número de países com regimes ditos socialistas passava dos vinte – um grande bloco de países satélites no Leste Europeu e outro grupo de países na África e na Ásia se declaravam socialistas, com governos quase sempre unipartidários e com grandes desafios para o desenvolvimento de um sistema igualitário atrelado ao desenvolvimento da nação. Em 1993, cinco anos depois, 18 dos 23 governos haviam caído.

Das cicatrizes deixadas, a maior teve lugar na Iugoslávia, destruída pela Guerra da Bósnia. Dos movimentos pró-democracia, a queda do Muro de Berlim permanece como o maior símbolo. É claro que outras grandes questões envolvem o fim destes regimes em tantos países, mas pode-se dizer que sempre há a faísca, o momento histórico em que um tiro num arquiduque pode declarar uma guerra ou que jovens destruindo um muro podem acabar com o Comunismo.

No fim dos regimes socialistas europeus, o que mais se fez recordar foi a queda do Muro em Berlim, por sua força simbólica – a queda de um muro sempre será marcante simbolicamente. Na Alemanha Oriental, porém, o fim do comunismo já vinha se tornando realidade muito antes. A rebeldia juvenil de derrubar o muro marcou a história, mas não foi ponto chave para o fim do regime naquele país.

Em outros países a transição também ocorreu de forma ordenada, como na Tchecoslováquia, que passou por uma revolução chamada de ‘Revolução de Veludo’ por ser totalmente pacífica. Já em outros países o fim do socialismo foi sangrento. No Leste Europeu a única grande batalha pelo fim de um regime aconteceu na Romênia de Ceauşescu. Mas não foi a Revolução Romena que entrou para a história.

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Na situação que vemos pelos nossos próprios olhos hoje, o momento registrado não vem do Egito, país com maior importância política na região, mas da Tunísia. Lá um homem desempregado, descontente e humilhado ateou fogo no próprio corpo. A história provavelmente mostrará que aquele homem não ateou fogo apenas em si próprio, mas foi, com o perdão da metáfora, a faísca de um incêndio que não parece ter data para ter fim.

Hoje esse incêndio toma grandes proporções, e um dos focos que realimentam as revoluções no Norte da África e Oriente Médio são os avanços tecnológicos. A internet, meio de comunicação muito mais democrático que as TVs estatais ou os jornais e rádios aliados ao regime, mostra sua força como fator de impulso para grandes feitos. Foi por meio de redes sociais como Facebook e Twitter, inofensivos nas mãos da maioria, que REVOLUÇÕES foram organizadas. E isso não é pouco.

Usando como comparação, novamente, a Revolução na Romênia, vemos que notícias desencontradas e a informação que corria lentamente nos Meios de Comunicação fizeram com que centenas de pessoas perdessem a vida lutando por muito mais tempo para que aquela revolução ocorresse. Hoje, um fato em lugar tão longínquo como o Egito já está no mundo em segundos pelas mãos de pessoas comuns nas redes sociais, em minutos nos sites de notícia e em algumas horas em telejornais. Isso foi o que forçou o governo a, mesmo que insistisse em cercear o uso da internet para coibir novos protestos, não agir com demasiada força contra as manifestações depois que elas se tornaram notícia no mundo – nos primeiros dias a polícia, fiel ao presidente, chegou a matar dezenas de manifestantes, mas depois, com a imprensa internacional e com o mundo cibernético conectado aos manifestantes, o governo recuou, retirando os policiais da rua – o que diminui drasticamente o número de vítimas durante os protestos.

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Ontem foi Mubarak que caiu, no mês passado foi Zine al-Abidine Ben Ali na Tunísia. Quem mais cairá? O descontentamento popular lança as bases. A revolução tecnológica, o contato por mídias sociais como Facebook e Twitter, são o meio. O fim das ditaduras nos países vizinhos dá a força necessária para seguir em frente protestando em diversos países ainda sob regimes ditatoriais.

Restam muitos outros protestando: Iêmen, Argélia, Sudão… E já há aqueles que “protestam contra os protestos”. No Brasil a revista Veja considerou, em matéria sobre a situação no Egito, que a ditadura de Mubarak era um “mal necessário”, afinal sem ela a “estabilidade” na região estaria ameaçada, movimentos “fundamentalistas” islâmicos poderiam tomar o poder.  O que nos leva ao depois. O que haverá agora, após a queda do presidente?

Ontem, com a queda de Mubarak, um movimento organizado pelo próprio governo do presidente e pelas forças armadas do país passou o poder de decisão sobre o governo para uma “junta militar” egípcia. A história mostra que juntas militares tendem a alongar seus períodos pelo máximo de tempo (na Birmânia, por exemplo, uma Junta Militar comanda o país há quase 50 anos). Isto se deveria ao fato de os militares crerem, na maioria das vezes, que governos civis seriam muito mais corruptíveis e por acreditarem que civis são despreparados para assumirem as rédeas do poder.

A história mostra também que quando a “maior democracia do mundo” está em um lado da disputa, disposta a vencer a qualquer preço, o lado oposto, seja ele de “fundamentalistas” ou os “comunistas” de outras épocas, tem pouquíssimas chances de prevalecer – mesmo que estes momentos sejam tão célebres, como a derrota no Vietnã ou a Revolução no Irã.

A verdade é que, com a fortuna que os Estados Unidos investem nas forças armadas egípcias, não será absurdo se a democracia for deixada de lado para que a “estabilidade” prevaleça novamente. As chances de uma “revolução fundamentalista islâmica” são, assim, raras.

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As relações feitas anteriormente entre o Egito e a Romênia de Ceauşescu não foram por acaso. A proximidade das situações vividas por Ceauşescu e por Mubarak é curiosa. Agarrados ao poder, os dois acreditaram que por fim o povo se cansaria de protestar e seus governos prevaleceriam. Mas já é história a força do povo quando está realmente em fúria, na Romênia, no Egito ou na distante Rússia czarista.

Ceauşescu, um dia antes de sair correndo do palácio governamental, foi à TV dizer que a situação voltaria ao controle e que ele não deixaria o governo. No dia seguinte deixava o poder e tentava sair do país. Até aqui um script semelhante ao vivido por Mubarak.

Na Romênia Ceauşescu foi preso e executado dias depois. Mubarak sobreviverá?

REVOLUÇÃO NO EGITO: FATOS E COINCIDÊNCIAS, pelo viés de João Victor Moura

joaovictormoura@revistaovies.com

Para ler mais crônicas acesse nosso Acervo.

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