A GAIOLA DE INFORMAÇÕES INESCRUPULOSAS

O jornalsimo de Rupert Murdoch: O jornalismo não sabe aonde pode parar. Na verdade, o jornalismo não sabe aonde deve parar.

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O jornalismo contemporâneo prestado pela mídia dos barões da verdade, surgido quando a imprensa tornou-se empresa, encaminha-se à falência intuída. Se não primeiramente a econômica, fundamentada na publicidade vazia que abocanha páginas inteiras ou pela queda vertiginosa de assinaturas, vendas e audiência motivadas pelo descrédito do leitor com a informação ali escrita ou falada, deparar-se-á com o colapso através da contraversão de valores. Valores de ética, de respeito e, sobretudo, de humanismo. A imprensa estúpida moderna dos jornalões e das grandes redes de televisão, rádio e sítios na internet, aposta ainda seduzir o espectador com o discurso arruinado de consistir-se como o Quarto Poder. Poder este que além de não existir na prática, muito menos existe no subjetivo social. A velha mídia crê regular os alicerces da integridade humana e da moral social.

Por meio desta autodenominação obsoleta (nem mais analisada pelas ciências sociais como autêntico poder social), que os conglomerados midiáticos, unidos à publicidade de caráter malicioso e ao interesse capital sobre os seres, terminam por ridicularizar o leitor e os atores sociais. A esfera que engloba o mundo do dinheiro (na qual se articulam as empresas que se cognominam imprensa) já desvendou sua habilidade de tirar proveito sobre situações extremas de insanidade amparada na fraqueza dos homens. O capital burguês desfruta da mão-de-obra do pobre sem dignidade. A mídia segue o balanço e surrupia dos sentimentos humanos sua força silenciosa. Homens como Rupert Murdoch aproveitam-se sem escrúpulos de uma gaiola de contatos a fim de obter popularidade e influência passando por cima do que for necessário. O jornalismo sórdido de Murdochs e Marinhos fala de uma varanda à platéia como os reis falavam aos plebeus. Jornalistas miseráveis de qualquer intento igualitário repassam a hierarquia vertical na qual confiam estar em postos mais altos do que a plebe.

Há muito tempo os repórteres malacafentos aprenderam o artifício do sensacionalismo barato para impetrar cenas e improvisar espetáculos midiáticos ao vivo, com lamúria legítima e depoimentos cheirando a pólvora. Enquanto as pessoas sofrem, a mídia quer “estar em primeiro lugar na sua telinha”. Em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o renomado jornalista e escritor Gay Talese afirmou: “Não creio que seja importante ser o primeiro, creio que importante é ser correto”. Mas a mídia do dinheiro a qualquer custo não se importa com o correto, ela quer pertencer aos integrantes do grau de autoridade, para do prestígio abocar confiança da publicidade e da publicidade arrancar dinheiro. Apenas. E de tanto repetir que nossa vida está na tela ou nos jornais, nossos ouvidos acabam driblados, fazendo uma massa crer, sem culpa, que o bom jornalismo é realmente este: junto do acontecimento, sujo de barro, de sangue, de cenas horrendas da desgraça humana sem questionar os porquês. Sim, os fatos devem ser divulgados, mas a mídia comumente esquece-se de perguntar aos atores envolvidos se apetece a estes compartilhar da arena vulgar da notícia leviana. E quem pode fazer pior do que isso?

Homens como Rupert Murdoch e sua companhia midiática, News Corp, um conglomerado no valor de 60 bilhões de dólares, proprietário da Dow Jones & Co. e do The Wall Street Journal, são os campeões manifestos, até o momento, no quesito “sujeira jornalística da pior espécie”. Murdoch usou seu dinheiro, sua influência e sua capacidade de amoralidade para bem fazer-se. Junto a nomes como Rebekah Brooks, ex-diretora da filial britânica de jornais do grupo do magnata, presa e solta neste domingo (17), e Les Hinton, que a precedeu na direção dos jornais britânicos do grupo, o jornalismo sem rédeas que cunhou uma rede de grampos telefônicos praticados em grande escala desde o começo dos anos 2000 é a manifestação mais circense do que é capaz de fazer a mídia pelo poder. No circo armado pela News Corp, o lugar dos palhaços é na plateia.

Les Hinton, responsável pela News International no período em que as acusações sobre os grampos telefônicos ilegais a partir do tablóide “News of the World” vieram à tona, demitiu-se no dia 15 de julho, última sexta. Atualmente, ele ocupava o cargo de executivo-chefe da Dow Jones & Co. Já Rebekah Brooks era a jornalista responsável pela redação do jornal enquanto os grampos telefônicos ocorreram.  Hinton já era investigado e depôs por duas vezes, em 2007 e em 2009, para um comitê parlamentar britânico de inquérito, onde afirmou que a própria empresa tinha certeza que apenas um de seus jornalistas estava envolvido no caso.

As escutas telefônicas podem ultrapassar a estimativa da polícia britânica de 3.000 telefones grampeados. Se for serviço de um único jornalista, é digno de surpresa.

Entre os casos grampeados está a cobertura do tablóide no caso do assassinato da adolescente Milly Dowller, de 13 anos. A caixa de mensagens do celular da jovem foi grampeada e recados foram apagados. Na época, a família e a polícia criam que Milly estivesse viva e monitorando suas mensagens. Na verdade, quem controlava a caixa de mensagens da jovem eram jornalistas do “News of the World”.

Nas palavras de Murdoch, sua empresa está intimamente arrependida pela dor causada às vítimas e que se culpa por não ter consertado os deslizes morais rapidamente. O grampo do celular da jovem ocorreu no ano do crime, 2002. As desculpas de Murdoch, em 2011. O tempo é mero coadjuvante. O péssimo desempenho dos “jornalistas” é que merece destaque no debate da sociedade. Até que ponto o jornalismo tem direito de invadir a privacidade de alguém? Não é nem pretexto discutir-se o que é público e o que é privado.  Neste episódio, o que se chama de jornalismo do “News of the World” ultrapassou a linha vultosa que assegura os homens de terem sua privacidade resguardada. Os grampos não abordaram apenas imoralidades políticas ou falhas de autoridades, crimes que partem do privado, mas que são de interesse público.

Escutas telefônicas teriam afetado a rainha Elizabeth e o ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown. Há também um forte indício de grampos telefônicos nos telefones das famílias das vítimas do 11 de setembro de Nova York. O trabalho sórdido destes que se dizem jornalistas atacou o íntimo de famílias desconsoladas e desrespeitou parte da sociedade que vive sob normas éticas mínimas de convivência.  Cerca de 3.000 vítimas de escutas ilegais. Milly Dowler, famílias de mortos nos atentados do World Trade Center, membros da família real, artistas, políticos, jogadores de futebol. Tudo pela informação em primeira mão. Assim, aos poucos, o jornalismo transformou-se nessa máquina de construir inconsciência, desrespeito, superficialidade. O jornalismo não sabe onde pode parar. Na verdade, o jornalismo não sabe onde deve parar.

A GAIOLA DE INFORMAÇÕES INESCRUPULÓSAS, pelo viés de Bibiano Girard

bibianogirard@revistaovies.com

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