CARTA DESDE ONDE ESTAREMOS

Uma carta escrita por duas mãos e falada por tantas bocas. Pelo viés de Gianlluca Simi.

A+ A-

Não quero falar das coisas boas que aprendi e fiz durante meu tempo em Nottingham. Tampouco escrevo aqui sobre a cidade e sobre aquilo que me levou até lá, pois a experiência em si, ou melhor, como ela me parece, só diz respeito a mim e terá pouco sentido às outras pessoas se dela eu falasse com palavras que só diriam algo a mim mesmo. Cada um de nós experiencia coisas de um modo diferente e, talvez, falar do processo de vivê-las se torne imcompreensível aos outros. Logo, o tempo depois e as consequências da minha(nossa) experiência me(nos) fazem querer compartilhar, de fato, o que mud(amos) e o que aprend(emos) em vez dos passos que tom(amos) ao fazê-lo.

Assim, poderia contar-lhes de todas as quinas banais que me levaram até lá e por lá me mantiveram: a parceria entre as universidades, as aulas, os trâmites de imigração, a comida, o apartamento. Como era a comida? Onde tu moravas? Como eram as aulas? Só que esses são meros detalhes, que constroem o palco para os atos do que se tornou digno de saudade. Dessa forma, tudo isso – ‘isso’, especificamente, é como me refiro ao conjunto de momentos que compuseram meus cinco meses na Inglaterra – poderia ter sido o resultado de um final de semana em família, de uma conversa entre amigos ou de uma simples visita a outro bairro na nossa própria cidade. Poderia ter acontecido em qualquer lugar e em qualquer momento, mas, para mim, aconteceu lá e com aquelas pessoas. Disso, já vivido, atrevo-me a contar-lhes.

Dizer que, de tudo, são as pessoas de quem mais me lembro é tão óbvio, parece-me, como dizer que aproveitei ver meu último desejo de todos atendido. Então, se tão simples fosse, não haveria razão alguma em bradar sempre que são elas, pessoas, que fazem as experiência válidas, mas é exatamente por ver a elas, pessoas, como o cerne de toda a vida que não posso – nem poderíamos – ignorar a constância em conhecer mais gente, pois gente é sempre diferente, sempre inconstante, sendo só isto o que nunca muda – a própria mudança.

Os moradores de Hazels, em sua foto de grupo, gritam 'stoop!' (o nome do degrau da entrada)

Perguntam-me se estou com problemas em me readaptar. Ao Brasil? Ao Rio Grande do Sul? A Santa Maria? A questão poderia ser geográfica. À minha comida? À minha rotina? À presença da minha família? Ou poderia ser mais pessoal. A minha resposta quer dizer que não sinto como se devesse me readaptar a nada, pois algo novo sempre existirá depois e junto ao que está sempre a se tornar velho. Destruí o mito de que um intercâmbio deva ser um divisor de águas entre antes e agora, fundidos num depois que sempre está por vir. Um dia de julho em Santa Maria é tão passível de estranhamento, adaptação e readaptação quanto um dia de maio em Nottingham ou uma manhã de sábado em não importa onde.

Logo, minha resposta à pergunta de antes é não! Não estou me readaptando porque já estou habituado à forma daquilo a que voltei. Um dia depois do outro, quando mudam as cores da forma, é quando me moldo ao que lá está, independente do lugar ond’estiver.

Mas, se tudo sempre se apresenta mudado, haveria eu de esquecer como as coisas foram e estaria eu sempre preso às noções de como elas vieram a ser? Daí usamos uma pedra chamada ‘saudade’ para demolir o passado em pequenos cacos, cujas bordas possamos destacar em meio a uma janela de vidro que parece toda lisa e transparente. São as nossas lembranças, pequenos fragmentos do todo, que só são fragmentos se acharmos necessário, que só são fragmentos se assim o fizermos.

Podemos falar que “toda cidade tem subidas e descidas”. Podemos falar da lista de canções que sempre nos farão lembrar momentos que se tornaram significativos. Podemos também pintar em branco papel os rostos daqueles de quem queremos nos lembrar. Podemos até mesmo fazer uma lista de coisas que sempre dizíamos. No entanto, as pequenas memórias que projetamos em letras, desenhos e palavras são só um meio para saudarmos o caminho até onde estamos, são um meio para sentirmos a falta da trajetória. Sempre que nos lembrarmos da paisagem de Nottingham e dos outros lugares em que estivemos, sempre que repetirmos algo que começamos a falar lá, sempre que cantarmos aquela canção, por-nos-emos a recordar e a viver de novo. É pura saudade, que não existe ruim.

Cyellen Nart desenhou os rostos de quem ela não quer s'esquecer.

A vista das nossas janelas, as noites de conversa à beira da porta (stoop), as refeições em grupo. Podemos citar agora muitos momentos que nos vêm à mente e, ao mesmo tempo, deixar de citar todos os outros de que não nos lembramos. Mas tudo, o que é lembrado e o que é, então, esquecido são partes do todo, da janela de vidro inteira; precisamos de pequenas grandes lembranças.

E o todo é tudo e cada um de nós se lembrará de algo diferente. Cruzamos todas as memórias e temos um grande vitral, uma janela porosa e opaca, como toda janela sempre foi. Nos entremeios do que não é lembrado, vemos como as coisas poderiam ter sido diferentes, as chances de terem sido outra coisa qualquer. E o que não foi é tão significativo quanto àquilo que foi, quanto àquilo de que nos lembramos ter sido. Se cada um de nós lembra de algo diferente, passamos a lembrar todos juntos, de esquinas diferentes de uma mesma figura.

O que foi e o que não foi sempre haverão de ser recordados só quando forem despertados. Não há passado sem presente. Relembrar é reviver e ver de novo e, mesmo que de novo, sempre será exatamente o que é agora.

Esta carta, pois, poderia ser escrita de um lugar qualquer onde ainda haveremos de estar, um futuro próximo ou distante, que, por mais incomum que cremos que parecerá, sempre terá pequenos fragmentos do que já conhecemos, pois estar lá é ter antes estado em outros lugares. Quem nos tornamos, quem somos é o resultado do que já fomos e viemos a ser, perdido entre as conexões daquilo que lembramos entre nós, daquilo que compartilhamos. A carta nunca contará veramente aos outros como mudamos, mas só de onde escrevemos a carta. Nas palavras, antes sepradas, que unimos a escrevê-la, a carta será sempre um mapa, desenhando os caminhos e as encruzilhadas, por onde acharemos uns aos outros novamente e por onde aprenderemos a chegar onde cada um de nós estará.

Por Henrike Möller, uma canção de adeus a Nottingham.

Assinado,
Todos Nós

CARTA DESDE ONDE ESTAREI, pelo viés de Gianlluca Simi desde tantas outras pessoas

gianllucasimi@revistaovies.com

___________________________

Agradeço a todos que, comigo, escrevem esta carta. Em especial, a Cyellen Nart, a Vicky Vleugels e a Henrike Möller, que dividiram suas memórias.

Lê este texto em inglês.

Para mais crônicas, acessa nosso Acervo.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone