OS BÁRBAROS ESTÃO ATACANDO

Não há pior bárbaro do que aquele que vê só no outro a bárbarie que mantém em si mesmo. Pelo viés de Gianlluca Simi

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Hoje é dia 11 de setembro. Lembro-me que, há dez anos, eu chegava à minha casa depois de mais uma manhã de aula na quinta série. Liguei a televisão e, enquanto esperava o almoço ficar pronto, via aquelas imagens dum edifício muito grande, em chamas. Pensei que fosse um filme, mas não àquela hora, realizei-me. Os jornalistas anunciavam: fora um ataque terrorista contra o World Trade Center. Do alto dos meus dez anos, confundi o WTC, de Nova Iorque, com o obelisco de Washington. Daí o porquê d’eu não entender a razão de tamanho furor – “não deveria haver pessoas num obelisco”. Quanta inocência! Não era assim tão simples e os próximos anos desde então haveriam de m’ensinar que havia mais naquela história do que o horror das 2.983 pessoas que morreram nos ataques de 11 de setembro de 2001.

Já lá se vão algumas semanas que a maioria dos veículos de comunicação anunciam programas especiais para hoje. Documentários, reportagens, cobertura especial das homenagens em Nova Iorque. O discurso não é mais explicitamente anti-muçulmano nem anti-árabe como era há dez anos, mas ainda podemos ver o preconceito embutido em tudo isso que se está passando hoje na televisão e por toda parte. Da baixeza dos meus vinte anos, agora me pergunto: quem são os bárbaros?

Tzvetan Todorov, um filósofo franco-búlgaro, lançou em 2008 um livro que se chama O Medo dos Bárbaros: para além do choque de civilizações, em qu’ele trata dos usos e das consequentes construções sociais do significado de bárbaro, de incivilizado. Para ele, não há pior bárbaro do que aquele que nega a humanidade do outro e a este-cá ataca para, já de pronto, defender-se do qu’ele poderia fazer àqueles-lá. Esta ideia ficou comigo, a de que o pior bárbaro é aquele que nega a humanidade alheia. Quem há de dizer que as respostas aos ataques de 11 de setembro não castigaram só aqueles envolvidos nos acontecimentos mas também aqueles, que por razões de religião, de língua, de origem ou de feições se assemelhavam aos que, de fato, foram responsáveis? O Ocidente, como instituição ideológica liderada pela política dos Estados Unidos, certamente cegou-se à humanidade dos árabes e dos muçulmanos que nada tiveram a ver com a situação. O Ocidente escolheu negar qu’eles também são gente. As guerras que seguiram, do Afeganistão e do Iraque, deram forma à barbaridade com que queria se defender dos [outros] bárbaros.

Charge de Carlos Latuff

Zapeava de canal em canal e via a enorme preocupação dos veículos brasileiros em acompanhar as homenagens pelas vítimas daquele dia. Enojado pelo exagerado sentimentalismo barato posto em cima da dor de tantas famílias para defender um alinhamento ideológico com a política estadunidense, troquei para a National Geographic Channel. Eis que o narrador anuncia que o próximo programa se chama 11/9 e o sonho americano [sic]. “Taí”, pensei, “finalmente um programa que falará do passado imperialista dos EUA qu’enraiveceu muitos pelo mundo afora”. O prisma era outro: o documentário contava a história de várias famílias, de partes diferentes do mundo, que perderam entes naquele dia (Estados Unidos, Austrália, Canadá, Equador, França, Reino Unido, Japão, Malásia e Ucrânia). Num mundo em que o ódio já está encrustado nas sociedades, esse programa propunha que o mundo inteiro sofrera com o 11 de setembro. A ordem é odiar os bárbaros! A ordem da mídia é pessoalizar ao máximo as vítimas daquele dia sozinho e massificar, comprimir qualquer outro que se disvirtue dessa regra.

Vejamos, não ouso negar que os ataques foram bárbaros, que mataram inocentes e que foram d’extrema covardia – tudo isso, duma maneira, também alimentado por visões de mundo. Todavia, ouso clamar aqui que deixemos de culpar povos inteiros pelos erros de indivíduos. E, quando digo isso, me refiro tanto à estigmatização de árabes quanto à d’estadunidenses. Os culpados são alguns, que tomam para si o poder de reivindicar quem devem ser os inimigos de sua sociedade; quem são os bárbaros. No fim, não há pior bárbaro do que aquele que vê só no outro a bárbarie que mantém em si mesmo.

Charge de Carlos Latuff

Ficam cá minhas condolências às vítimas do 11 de setembro, às vítimas das covardes e interesseiras guerras do Afeganistão e do Iraque e a todas as vítimas que, todos os dias, enfrentam o seu próprio – e ignorado – 11/09 por razões de fome, de intolerância eou de ganância.

OS BÁRBAROS ESTÃO ATACANDO, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com

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