REITORIA DA UFSM SEGUE OCUPADA

O processo na reitoria da UFSM é uma provação por parte de todos os envolvidos. Pelo viés de João Victor Moura.

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O início do mês de setembro marcou também o início da ocupação da reitoria da Universidade Federal de Santa Maria. A ocupação, que, pela sua duração, já é considerada a maior de todos os 50 anos da Universidade, foi marcada por muito vai-e-vem por parte dos estudantes e da Reitoria.

A movimentação de quinta-feira, 01, à domingo, 04, já foi relatada aqui, mas, os fatos mais relevantes ficaram guardados para o decorrer desta semana.

ESTUDANTES DECIDEM FECHAR A PORTA DA REITORIA

De quinta à domingo os estudantes ocupados permaneciam dentro da reitoria com a porta aberta, ou seja, controlada pela vigilância da Universidade e dando livre acesso a todos que desejassem. Na segunda, no entanto, os estudantes decidiram tomar uma decisão mais radical, visto que a Universidade não cooperava na resolução das pautas apresentadas.

A partir do início da tarde de segunda, com mais de 500 estudantes no saguão da reitoria, a porta foi fechada enquanto uma comissão formada pelos estudantes iniciava nova negociação. Nesta negociação os personagens centrais por parte da Reitoria também passavam a ser os membros de uma comissão, formada por uma série de pró-reitores da Universidade.

A negociação nesse dia pouco avançou para os estudantes e o documento de compromisso enviado pela reitoria foi desmembrado e considerado insuficiente em Assembleia da ocupação.

Com a porta ainda fechada a terça-feira foi um dia pouco movimentado para as negociações e para os funcionários da reitoria. A impossibilidade da entrada na porta da frente deixou muita gente pra fora do prédio. No mesmo dia um debate no Jornal do Almoço, da RBS TV local, marcou por dois motivos: a insistência explícita, mas pouco ouvida por parte da reitoria, de que os estudantes estavam ali para que as pautas tivessem respostas concretas; e também pela fala do reitor Felipe Müller, que lamentava o fechamento da reitoria por parte dos estudantes. O que o reitor pareceu esquecer foi a presença de uma porta lateral no prédio, que dá acesso à totalidade do edifício da reitoria. A verdade era que a reitoria parou de funcionar por pura politicagem, e não pela ação dos estudantes que nunca tiveram acesso à área dos fundos da reitoria nem tiveram em nenhum momento a posse total do prédio.

O vice-reitor, Dalvan Reinert, quando questionado pelos estudantes quanto à presença da porta lateral desconversou. Disse que os funcionários da reitoria não entrariam no prédio pela porta dos fundos, evocando à honra dos prestativos servidores técnicos administrativos em educação que, mesmo com a greve deflagrada pelo seu Sindicato, mantiveram sua honra de pé perante seus chefes, pró-reitores, vice-reitor e reitor.

A honra desses funcionários deveria permanecer intacta, mesmo que mais de uma centena de estudantes não tivesse laboratório em um curso aberto recentemente como Terapia Ocupacional, mesmo que os acadêmicos da Medicina exercessem funções que não são da alçada de um estudante, mesmo que a suspeita de funcionários fantasmas ronde o Hospital Universitário e que os estudantes que moram na Casa do Estudante II (CEU II) cheguem às suas aulas com sapatos e calças enlameados pela falta de pavimentação entre os prédios. Mesmo assim, deveria ser a honra dos técnicos que se submetiam a suas chefias e permaneciam trabalhando que era evocada por Reinert. As prioridades pelos olhos da reitoria pareciam, assim, invertidas.

A terça-feira passou, assim, marcada pelo descaso e pela falta de prioridade da reitoria entre honra de uns e reivindicações dos estudantes e pela presença massiva de mais um curso, Arquitetura e Urbanismo, que reivindica novas acomodações (hoje o curso permanece provisoriamente nos fundos da Biblioteca Central da Universidade), mais vagas por ano e mais professores.

O feriado de 7 de setembro chegou, mas a ocupação ainda permanecia lá. Por conta do feriado, a Universidade parou por mais um dia, mas a ocupação tinha que continuar e a quarta-feira foi marcada pela manifestação dos estudantes da Medicina no calçadão, no centro da cidade. Vestidos de jaleco e realizando atendimentos básicos de graça para a população, eles realizavam ato preliminar às manifestações de quinta-feira na Universidade.

Os estudantes se acomodam no saguão da reitoria.

ESTUDANTES ABRAÇAM A REITORIA, PORTA PRINCIPAL É REABERTA

A quinta-feira foi novo dia de mobilização. Começou cedo com manifestação dos estudantes da Medicina em frente do Hospital Universitário e depois no Centro de Ciências da Saúde. À tarde, em caminhada, estes estudantes, juntamente com os de outros cursos, chegaram à reitoria, mais que dobrando o número de presentes naquele momento. Enquanto isso, na reitoria, uma nova carta foi entregue aos estudantes. As propostas não sofriam grandes alterações, mas eram melhor descriminadas, com alterações em vermelho.

Com mais de 600 pessoas presentes, um abraço à reitoria foi feito enquanto eram ditas palavras de ordem. O trânsito foi interrompido por algum tempo e a mobilização seguiu para uma área descampada ao lado, onde o clima dos estudantes permanecia cheio de esperança.

No fim da tarde, o número de pessoas presentes foi diminuindo e uma Assembleia foi marcada. Sem a presença antes massiva da Medicina e da Terapia Ocupacional, cursos que podem ser considerados forças motrizes desde o começo da ocupação, a Assembleia se encaminhou para uma reabertura da porta com o boato de uma reintegração de posse a qualquer momento. O boato ganhava ares de verdade quando um homem permaneceu do lado de fora da reitoria junto aos pró-reitores da comissão de negociação durante a Assembleia.

A porta foi aberta no final da tarde de quinta-feira e permanecia assim até o fechamento desta edição. Na sexta-feira uma nova reunião da comissão foi realizada. Um grande avanço foi conquistado nessa reunião: as pautas que forem assumidas pela reitoria serão acompanhadas por comissões paritárias, ou seja divididas igualmente, entre técnicos da reitoria e estudantes. As pautas, no entanto, foram pouco discutidas. A justificativa da comissão da reitoria foi a falta de resposta dos estudantes quanto às alterações em vermelho do documento entregue na quinta de tarde.

O sábado tornou-se então um dia de mais atividades. Neste dia os grupos de debate dos estudantes teriam novo encontro. Os grupos, criados nos primeiros dias da ocupação, tinham a função de ir mais a fundo das pautas e das respostas da reitoria. A partir de sábado também teriam a missão de encaminhar medidas concretas que deveriam ser tomadas pela reitoria.

A segunda-feira marcará nova atividade da ocupação, a maior da história da Universidade e também a mais longa das ocupações de reitoria no último período de ocupações no Brasil. Às 6h30min uma panfletagem no Arco, na entrada da Universidade, está marcada, e o Conselho Universitário do mesmo dia, histórico por unir os três Conselhos da Universidade novamente (Conselho Universitário, Conselho de Curadores e Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão) também está marcado para as 10 horas no Auditório do Conselho Politécnico. Os estudantes deverão estar lá.

Os estudantes se organizam em mais uma assembleia.

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Nenhuma palavra escrita será capaz de descrever as dificuldades, as alegrias e o cansaço da ocupação. Todo o processo que ainda prossegue na reitoria da Universidade é uma provação por parte de todos os envolvidos. As poucas horas de sono, a falta de perspectivas com as respostas evasivas da Universidade, o frio e o calor, o tempo perdido de aulas, trabalhos e pesquisas. E, além de tudo, as divergências políticas, as disputas internas e a falta de bom-senso. A ocupação passou por crises e por momentos únicos que ficarão na memória de todos os envolvidos num processo em busca de uma melhor Universidade.

REITORIA DA UFSM SEGUE OCUPADA, pelo viés de João Victor Moura

joaovictormoura@revistaovies.com

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