É CONTÊINER PRA CÁ, É CONTÊINER PRA LÁ

Não há vagas para todos no lixo. Pelo viés de Bibiano Girard

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Foto: Liana Coll

 

E isso que Santa Maria está bem longe do mar para ser uma cidade portuária. Porto seco? Também não. Santa Maria vive a “crônica para uma solução não anunciada”. Ainda. Os contêineres estão por toda parte, nas ruas, nas praças, nas avenidas. Como forma de recolhimento e tratamento das 150 toneladas de lixo produzidas por dia na cidade, o plano era mágico. Recolher o lixo guardado em caixas de material seguro, fora do alcance de animais e sem exalar odores fétidos não bem-quistos pela população transeunte. Uma maravilha. Levá-lo até cooperativas de ex-catadores que se tornariam sócios na hora de separar o orgânico do seco para depois enviar os tipos diferentes de material para cada forma de reciclagem? Aplausos. Seria uma organização urbana por excelência, digna de premiações e modelo para qualquer cidade do mundo. Mas isso ficou só no sonho. Sonhar não custa nada, diria o samba-enredo da Mocidade em 1992. Mas sonhar por muito tempo sem ver o sonho se concretizar cansa.

“Adotamos um sistema que nos aproxima dos grandes centros de primeiro mundo”, propagandeia a prefeitura. Decerto no primeiro mundo contêineres são pontos de encontro de catadores que estacionam seus carrinhos para um drive-in. Diz ainda a prefeitura que o sistema esplêndido do novo estilo de recolhimento funcionaria da seguinte forma: o caminhão recolheria quando um sistema de sensores avisasse que o contêiner estivesse 80% cheio. Portanto, não haveria horários pré-determinados. Há sim. O caminhão passa sempre no mesmo horário e os sensores devem ter sido programados com um dígito a mais que oito dezenas. “Esses resíduos, quando não gerenciados tecnicamente, passam a ser uma ameaça à saúde pública”, afirma o geógrafo Gerson Schirmer. Sim, o lixo fica pelas calçadas e o chorume poluente, de cor escura e odor nauseante, escorre pelo meio-fio.

“Infelizmente os catadores não sabem exatamente o destino do lixo recolhido”, disse o moço agora há pouco na calçada. “É melhor correr e buscar aqui do que depois ter que ir longe. Eu moro longe do centro, se tiver que ir mais longe eu sumo”, disse o rapaz exausto de carregar um carrinho cheio de latas, garrafas pet e papelão pelas subidas e descidas da cidade. O lixo recolhido pelos caminhões é levado à Central de Tratamento de Resíduos da Caturrita, uma área de 24,7ha, localizada junto à estrada para a Boca do Monte, a 8,7km do centro da cidade. O aterro recebe resíduos de 23 municípios da região. São empregados no local, em média, 170 funcionários. Entre eles, vários ex-catadores e carroceiros, acostumados com o manuseio e a separação do lixo. O local de trabalho dos selecionadores de material reciclável é coberto. Além disso, os funcionários têm carteira assinada. Contudo, em uma cidade de 300 mil habitantes, baseada no sistema capitalista de gerenciamento sócio-econômico, o número de vagas para emprego na Central é menor, obviamente, daquele necessário para atender a demanda dos ainda catadores ambulantes.

 

Foto: Liana Coll

A situação não ocorre como o planejado, mas se há pelo menos dois anos vivemos nesta situação e nada mudou, quem sabe, ano que vem, na hora de “lotar” as urnas, alguns candidatos lembrem-se de re-esquematizar as condições do detrito municipal.

Superlotação e a inoperância de alguns contêineres também são motivos de reclamação. Em alguns, a alavanca para abrir a tampa não funciona. Em outros, sem alavanca, também não há alças manuais. Só em 2011, vários casos de superlotação, recolhimento atrasado e contêineres estragados fizeram o Secretário Municipal de Proteção Ambiental, Luiz Alberto Carvalho Junior, montar uma “ação de enfrentamento” quanto o caso. Ainda sobre os contêineres depredados, o secretário afirmou: “O custo de um contêiner está em R$ 654,82. E além daqueles problemas pontuais que surgem, ainda temos de lidar com o vandalismo”. Ninguém na prefeitura, e também muitos santa-marienses, não pararam para pensar que os casos de “depredação” dos contêineres podem não ser apenas vandalismo?

Mas o maior problema não é físico, não é material. Em muitos casos, abrir o contêiner é motivo de lembrar os deprimidos versos de Manuel Bandeira. Além de baratas, ratos e outros tipos de animais naturais de espaços imundos das grandes cidades, por vezes nos deparamos com homens, crianças, mulheres: “e o bicho, meu Deus, era um homem”. Não estão ali para se alimentarem, na maioria das vezes. Já estamos erroneamente habituados, ao percorrer as ruas da cidade, em ver pedaços de madeira a segurar as tampas das caixas verdes. Dentro, crianças e adultos a chacoalhar sacolas em busca do material seco que lhes garanta o sustento, ínfimo, do final do mês. E ao voltar para casa, tristemente mordaz, muitos vão dormir dentro de caixas de lata, já que suas moradias também são contêineres.

Clique sobre a imagem e leia sobre as "casas" contêineres. Foto: Tiago Miotto

É CONTÊINER PRA CÁ, É CONTÊINER PRA LÁ, pelo viés de Bibiano Girard

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  • http://poesiaputana.blogspot.com/ Demetrio

    Mais um grande texto, Bibiano.

    Abração!

  • Maria Ivonete

    Puxa! Vivi alguns meses em Porto Alegre e uma das coisas que calou-me mais forte foi ver diariamente, no centro, essa procissão de humanos, alguns ainda bebês, “requebrando” o pranto, os sacos pretos, as sacas brancas e, esses poços-sem-fundo: contêineres das obsolescências nossas.
    Diferentemente das religiosas, é uma procissão silenciosa, tão silenciosa que nos ensurdece; de tão apagada – humanos-sombras – arde os olhos. Como pudemos inventar (e permanecer) isso: o capitalismo como forma de vida?
    Parabéns pelo(s) texto (s)!