ENTRE ONTEM E AMANHÃ

Ah, sim, era Natal. Tempo de renovação. Acho que me renovei como em qualquer outro dia. Pelo viés de Gianlluca Simi

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Já faz tempo que o Natal nada tem a ver com Jesus Cristo, pelo menos para mim. Assim também o vejo por toda a parte: decorações, presentes, mensagens de ‘renovação’. Cá e lá, Jesus é mencionado, o deus cristão vem à tona para embalar um sermão. Faz tempo que o Natal não é sobre Jesus Cristo, tampouco o era na sua marcação como data festiva. De início, celebrava, entre os pagãos no hemisfério Norte, a passagem entre outono e inverno, pois este era a época da morte, precisavam praticar rituais para que a vida voltasse à terra, em forma de comida, depois que o frio e a neve passassem. É, parece que o dia 25 de dezembro foi mais um dos ajustes que a Igreja Católica fez no calendário pagão para mais facilmente (obrigar a) converter as almas perdidas.

Natal é negócio, é business, dos mais lucrativos: compramos presentes mais por obrigação do que por gosto – não, claro, que não gostemos de recebê-los. Natal é commodity, vira valor-notícia, indicador econômico, mote para campanhas sociais. Os veículos de comunicação mais poderosos (no mau sentido) não cansam de relembrar – eles, sim – que lá vem o dia de Jesus Cristo. Capas inteiras de jornais, edições maçantes de ‘telejornais’ cujo motivo do dia são as belezas do sorrisos das crianças que veem o Papai Noel. Façamos algo novo? Vamos vestir um de nossos apresentadores ou algum ator da nossa rede de Papai Noel e levá-lo a uma comunidade carente. Só a MasterCard entende: não tem preço! Ah, isso não tem! Os sorrisos? A felicidade das crianças? Isso sempre há de ser muito belo, mas não é a isso que me refiro como sem preço. Não tem preço a aura virulenta de bondade que esses veículos de comunicação criam em torno de si. Já ouviram falar em ‘lobo em pele de cordeiro’?

Porém não é para criticar a mídia hegemônica que quis escrever sobre o Natal. Minha tia, Renita, ainda muito cristã (e praticante), sempre fala em ‘tempo de renovação’. Natal, nascimento, cidade natal. A ela vim, à minha cidade natal. A mim, parece-me irônico que justo donde sempre quis sair seja, pela visão da minha tia, o lugar onde tenho as maiores chances de me renovar. Ela sempre propõe que o Natal seja isso, o jornal e a tevê ratificam…opa! chega de crítica à mídia, já disse. Ganhei presentes de Natal – da minha mãe o que escolhi; do meu pai, nem sabia que ganharia. E as criancinhas carentes? Elas têm as boas ONGs, que, de feriado em feriado, levam marmitas e chocolates em forma de Papai Noel de gosto tenebroso para aqueles que vivem embaixo da riqueza da presidente da ONG – não é machismo, mas é percepção de que, pelo menos na minha cidade natal, as mulheres ainda se veem como primeiras-damas das causas sociais.

Meu lindo presente de Natal me dá a minha cidade. Ainda na semana passada conversava com um amigo e a ele contava de como não sou lá muito chegado nas pessoas daqui da minha cidade, mas de como sinto falto, às vezes, das tardes de inverno que aqui passava quando o mundo lá fora ainda me era só mistérios e sonhos-de-ir. Domingos, tardes de chuva fraca, céu cinza, frio, muito frio. No sábado, quando aqui cheguei, fui presenteado por uma queda de mais de 20 graus na temperatura. A chuva caia e o céu estava cinza. Um vento gostoso, frio. Ele não corta, mais me conforta e me embala em seu sopro entre os cinturões de eucalipto que cercam a cidade. No campo de futebol Alto da Bronze, há uns pinheiros bem grandes e, por eles, o vento passa e conversa com a gente, assim como acho que um avô conversa, muito serenamente, com seu neto sobre as coisas da vida.

A cidade parece morta, Seu Lobato. Se não há ninguém na praça, algo não vai bem. Deve ser o frio! No mercado da esquina – esquina da praça obviamente -, compro maionese, cenouras e queijo. Minha mãe quer fazer tea sandwuiches para levar à ceia na casa da minha vó. Tea sandwiches são muito famosos na Inglaterra, são aqueles sanduíches que, historicamente, aprendi serem sanduíches que as amigas da minha vó faziam para os encontros da igreja – são aqueles, sem casca, cortados na diagonal. Quantas letras só para os sanduíches…enfim! No mercado da esquina – esquina da praça obviamente -, encontrei as pessoas que por aqui ainda moram e outras que, como eu, aqui voltam certas vezes. Um ‘oi’ aqui e ali. Uma me pergunta que faculdade estou fazendo. Quando respondo, ela me mostra que vê no jornalismo algo que eu mesmo, estudante da área, demorei um pouco para ver. “É legal! Dá para tu fazer muita coisa nessa área”. Não poderia ser mais verdade; ouso dizer que, no jornalismo, podemos fazer tanta coisa que, às vezes, nem parece jornalismo, mas continua o sendo.

Meu outro presente de Natal foi rever uma ex-colega de colégio. Na época de quinta série, em 2001, ela ia mal na escola e tinha muita dificuldade. Eu era um nerde, daqueles das notas mais altas. Uma vez, a professora de português disse que eu e ela faríamos um trabalho juntos e eu protestei – nem precisei dizer que foi por achar que ela era muito ‘burra’ e que eu teria que fazer o trabalho sozinho. Que vergonha! Quanta estupidez! E o mais engraçado foi que eu pensi nela mesma na semana passada e a encontrei no mercado no sábado. “Oi! Tudo bem?”, ela respondeu num tom de quem me reconheceu. Caso não tenha ficado claro, esse foi meu pedido de desculpas!

Que dia é hoje mesmo? Ah, sim, é Natal! Já desisti de ver tevê ou ler o jornal. Perambulo entre o pé-de-ameixa carregado no arvoredo da vó e a casa da minha outra vó. Incomodo meu tio, pergunto da minha afilhada, converso com minha prima, que é mais minha irmã. À noite, ceiamos e conversamos. À meia-noite, meu tio abre nossas garrafas de Gotas de Cristal…é o rosinha aquele! Como é barato e nada elaborado – adoro Gotas de Cristal! Já tenho vinte anos, bebo livremente.

“Tem boate hoje no clube”. Nem me perguntam mais se eu lá vou – nunca fui. Minha prima, que é mais irmã, está de castigo e, como comprovado no dia seguinte, não foi à boate. Um canhão de luz anunciou a noite inteira onde seria a festa. Como se ninguém soubesse onde fica o Vicentino!

[…]

A chuva parou no domingo. Churrasco e um gosto do friozinho que vai embora. Fica, frio! Fica para sempre! A natureza é mais importante do que meu asco ao calor de 30, 40 graus. Uma pêra, nozes, castanhas, manga, melão e vários bombons que vêm naquelas caixas. Foi o que mais comi – além, claro, da torta fria que a minha tia trouxe. Ô, maravilha gastronômica essa tal de torta fria!

Minha prima quer ir a casa dum amigo. Eu a levo. Paramos na praça porque quero tirar umas fotos da rua vazia. Bem antes de apertar o botão, passou um carro! Justo agora? Esperei. A fotografia não é um reflexo da realidade, ela reflete o que eu vi.

Em casa, assisto a dois filmes. ‘Capitão América’ e ‘A Legião Perdida’…nada como não ter que pensar sobre a dor humana por algumas horas. Todos os atores ficaram muitos musculosos para esses filmes. Já li que, quando isso é preciso, eles baseiam sua dieta em nozes e afins. Meu lanche da tarde é uma pêra, dois litros d’água e algumas nozes. Pequenos deslizes hipodérmicos, perdoem-me os críticos. Hora de dar tchau para o tio e para a tia. Não vi minha afilhada. Conheci uma mulher que já morou aqui, hoje mora em Fortaleza e foi visitar minha vó. “Tchau, tio! Tchau, tia!” A Maninha voltou para o centro. Minha vó foi para casa. Fui correr no Alto da Bronze. Conheci um cachorro e quase caí de tanto não enxergar o chão. Vou para casa. Assisto a ‘Persona’. Durmo. Acordo.

Que dia mesmo foi ontem? Ah, sim, era Natal. Tempo de renovação. Natal, nascimento. Acho que sou o mesmo, ou melhor, acho que me renovei como em qualquer outro dia. Mais um domingo na minha cidade. Que dia mesmo? Natal! Ah, é! Não parece. Nada de novo entre Nazaré e Belém. 

ENTRE ONTEM E AMANHÃ, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com

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