LUZES NA PRAÇA, ESCURIDÃO NOS BAIRROS

No final de novembro, a população de Santa Maria assistiu a parte da programação de Natal da cidade. No sítio da Prefeitura, as notícias declaravam os enfeites e programações natalinas como parte de um Natal “ecológico, sustentável e inclusivo”. Mas enquanto 178 mil micro lâmpadas eram acesas em torno das árvores da praça Saldanha Marinho, nos arredores do centro comercial santa-mariense, muitos bairros da cidade continuavam improvisando seus “gatos” para terem acesso à energia elétrica.

A redação da revista o Viés, em diferentes matérias, tem tratado da questão da falta de estrutura básica de determinadas regiões da cidade, que foram acometidas por inúmeras promessas em campanhas eleitorais ou mesmo durante o mandato do atual prefeito. Elas, bombardeadas durante os discursos e panfletagens, e esquecidas após os dias de votação, acabam sofrendo em detrimento dos sucessivos investimentos que a administração da cidade realiza em torno do centro.

Mas o centro não é uma ilha, apesar de ser a parte mais visível para turistas e passantes, ou mesmo para a população flutuante de Santa Maria, que geralmente é aquela que desfruta das áreas de lazer e de comércio centrais. Entretanto, os moradores santa-marienses de outras áreas do município não se encantam em comer promessas, já diria Eduardo Galeano. Eles são, na verdade, os votantes de maior peso da cidade, já que, no centro, especificamente, está concentrada a maioria dos estudantes que vêm de outras cidades e que raramente transfere seus votos para cá. Estes, em grande parte dos casos, estão de passagem. Aqueles, por outra via, deveriam, assim, ocupar um papel importante no atendimento de suas demandas. Mas não é o que se tem observado.

Na Vila Brenner, os fios dos "gatos", expostos, em contato com o material metálico das "casas" contêineres e a água da chuva, oferecem risco aos moradores. Fotografia: Rafael Balbueno.

Em matéria recente sobre a ocupação da Gare (veja ÁREA NOBRE NÃO É LOCAL DE OCUPAÇÃO e POR TRÁS DA GARE), descobrimos que, em campanha para as eleições de 2008, o atual prefeito Cezar Schirmer e sua esposa, a primeira dama Fátima Schirmer, estiveram na área, dizendo que seria muito fácil regularizar a ocupação e iniciar os investimentos necessários para garantir condições dignas de vida às, aproximadamente, 140 famílias que vivem hoje lá. Existem fotos e uma gravação da promessa. Entretanto, chegando ao final da gestão Schirmer na cidade, nada foi feito. Pelo contrário, as autoridades municipais afirmam saber que os moradores recorrem aos famosos “gatos” para obter energia elétrica. Não fazendo nada, incentivam os moradores a se arriscar no improviso de postes e no emaranhado de fios que se torna a solução para poderam tomar o banho quente no inverno e para manter os alimentos sadios, por exemplo. Hoje, o projeto da prefeitura para a área da Gare, onde reside essa mais de uma centena de famílias, é de tranformá-la em um parque turístico. É área nobre, dizem eles, como se fosse justificativa.

Em matérias sobre as casas contêineres da Vila Brenner (veja ATÉ QUANDO ESPERAR? ,”CASAS” CONTÊINERES: UM NOVO CAPÍTULO e ILHADOS), que foram colocadas na área em caráter provisório para abrigar famílias que haviam perdido suas moradias em enchente, viu-se que o temporário tornou-se fixo. As famílias, nas casas de metal, enfrentam a variação de temperatura ocasionada pelo material da habitação. Torram no verão e congelam no inverno. E, além disso, também não possuem acesso à energia elétrica. Os “gatos” também são a solução. Entretanto, há um agravante nessa história: os fios improvisados, em contato com o material metálico das casas, conduzem a eletricidade de forma perigosa e expõem as famílias a grandes riscos, principalmente quando chove. A Prefeitura declarou oficialmente que cada casa contêiner seria substituída por uma de padrão PAC em 2010. Mas até hoje, adivinhem? Nada. Com documentos nas mãos, a única coisa que resta aos moradores é ler os acordos e promessas descumpridas em tom de ironia.

No dia de hoje, cinco de dezembro de 2011, o telespectador de Santa Maria ainda pôde assistir, no Jornal do Almoço local, a uma reportagem que parabenizava a Prefeitura pela decoração natalina. Nas imagens, famílias passeavam felizes, observando as luzes e comentando como haviam embelezado a cidade as piscadelas fosforescentes em torno das árvores e ruas do centro. Mas parece no mínimo contraditório que, enquanto é negada mínima condição de vida aos moradores de alguns bairros de Santa Maria, Cezar Schirmer se preocupe com o lazer de apenas uma parcela de habitantes. É triste, mas parece que a única coisa que o prefeito pôde oferecer à população no final de seu mandato foram anjos, guirlandas e luzes simbólicas (parece até deboche) negadas à população que outrora cobriu de promessas. Ao senhor prefeito e administradores, creio que a população gostaria de lembrá-los de que esperança não deve ser somente estimulada em época de Natal e que ela não se reduz a símbolos e colírios visuais aos olhos. E que, quando se faz esperar, a coerência manda que alguma atitude concreta  deve estar por vir.

Cezar Schirmer, na ocupação da gare em época de campanha eleitoral, quando afirmou aos moradores que iria regularizar a situação da ocupação, dá "tchauzinho" aos possíveis eleitores. Fotografia: anônimo

LUZES NA PRAÇA, ESCURIDÃO NOS BAIRROS, pelo viés de Liana Coll.

lianacoll@revistaovies.com



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