TAMIFLU: R$100. MOSQUITEIRO: R$21

Quantas vezes você já teve sintomas de febre, dor no corpo, tosse e dor de cabeça este ano?

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Créditos: http://infosurhoy.com

Ela surgiu no México e em poucos meses vários países entraram em “estado de segurança epidemiológica”, inclusive o Brasil. Enquanto os telejornais, as revistas e todos os outros meios de comunicação massivos alardeavam a notícia com ares de apreensão e terror, a população desnorteada entrava em situação de pânico geral. Os ministros de centenas de Estados iam aos meios de comunicação com maior difusão, como a televisão, a fim de pedir calma e orientar os cidadãos para os possíveis desastres que a Influenza H1N1 – popularmente difundida como Gripe Suína – poderia causar em períodos breves. A espera dos presidentes e dos ministros representava a expectativa de que algum laboratório encontrasse logo uma droga capaz de controlar a epidemia que em junho de 2009 tornava-se pandemia, segundo a Organização Mundial da Saúde. Surpreendentemente, o gigante suíço do ramo de medicamentos Roche, fabricava há anos o único medicamento capaz de combater a gripe: o Tamiflu.

Sem uma real explicação de autoridades no episódio, ao menos por um ano a população do Brasil e dos vários países que contabilizavam casos decidia a plenos poderes fechar, literalmente, milhares de serviços públicos e espaços de tráfego de multidões para assegurar ao máximo o controle na transmissão da gripe que matava diariamente centenas de pessoas.

Enquanto a gripe matava centenas, os números de câncer de pulmão que levava mais de dezenas de milhares de brasileiros a óbito nem era citado ou lembrado. Enquanto a gripe vinha pelos ares e matava pessoas que não tinham consciência dos porquês da própria morte, os fumantes sabiam sobre o risco atribuível do tabagismo como agente causador do câncer de pulmão há anos. A obesidade, uma forte pré-disposição à imunodeficiência, doenças cardíacas (congênitas ou coronárias) e o diabetes, eram notícia só quando os estadunidenses passavam do ponto dentro das casas de fast-food.

Doenças como a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida- SIDA, tuberculose, malária e doença de Chagas matam mais de 12 milhões de pessoas todos os anos. São 35 mil mortes por dia. Só a malária mata 3 milhões de pessoas por ano. A gripe A matou 18 mil no auge da pandemia. Já as doenças cardiovasculares, que representam a principal causa de mortalidade no Brasil desde os anos 60, não são fanfarreadas pela mídia talvez desde a mesma década. O importante é a notícia aqui e agora, seja ela um soco nos telespectadores ou não.

No mundo, a cada ano morrem três milhões de pessoas vítimas da malária. Homens e mulheres são afetados pela doença há 50.000 anos. É uma doença caracterizada por órgãos mundiais como “negligenciada”. Seus principais sintomas inicias são dores de cabeça, fadiga, febre, calafrios e náuseas.

Por que a malária é negligenciada e a mídia não divulga os números de mortos por dia?

A malária é uma doença que afeta regiões quentes do planeta, potencialmente propícias à existência do mosquito Anopheles, o que inclui todas as regiões tropicais e muitas subtropicais, ou seja, onde atualmente encontram-se os povos mais pobres do mundo. Tais regiões podem ser pontos estratégicos para países ricos num futuro bem próximo. Além disso, tais regiões não consomem mercadorias, o que não contribui na expansão das riquezas dos 1% mais ricos do mundo. A malária não é “interessante’ aos cofres dos laboratórios e dos governos abastados.

Uma das principais formas de prevenção seria um simples mosquiteiro. Já a “ajuda” da mídia na construção social de medo fez as vendas mundiais do Tamiflu aumentarem 203% no primeiro semestre de 2009, fazendo o Roche arrecadar em apenas seis meses um bilhão de francos suíços (US$ 938 milhões). Excluindo itens excepcionais, como a aquisição da norte-americana Genentech por US$ 47 bilhões, o lucro operacional da Roche aumentou 20%, para oito bilhões de francos suíços entre janeiro e junho. Nas lojas brasileiras de produtos para cama, mesa e banho é possível encontrar mosquiteiros por R$21,00.

O Ministro e o Mosquiteiro: Alexandre Padilha durante anuncio dos dados epidemiológicos da malária na região Amazônica. Foto: Elza Fiúza/ABr

Agora, as mesmas autoridades asseguram que a nova gripe tem baixa letalidade e, assim como a gripe comum, a qual milhões de pessoas adquirem diariamente, as mortes são geralmente associadas a outras doenças ou a fragilidades da pessoa infectada. Hoje já se sabe que centenas de pessoas tratadas à base do elixir popular na época, o Tamiflu, tinham apenas adquirido a gripe popular. Os números de possíveis contaminados divulgados pela mídia em 2009 cresciam vertiginosamente, amedrontando a população e fazendo da Gripe A um magnífico colaborador no aumento da audiência dos programas. Os enfermos montavam filas nas portas de hospitais, amedrontados. Um simples resfriado em meio à desordem causada parecia completar exatamente os sintomas difundidos em gráficos televisionados para “saber se você está com a gripe ou não”.

A gripe H1N1 ainda não perdeu o grau de pandemia, segundo a OMS, e vários casos da contaminação seguem neste momento mundo a fora. Contudo, a gripe não parece ser mais motivo de notícia. Em agosto de 2011, o Centro Estadual de Vigilância em Saúde (CEVS) do estado do Rio Grande do Sul contabilizava a 13ª morte por influência da gripe. Até aquele momento 1.201 casos suspeitos de H1N1 haviam sido registrados e 94 foram confirmados. Virou notícia no jornal da manhã, da tarde e da noite? Não. O vírus que causou o surto global de uma variante da gripe normal continua presente entre a sociedade. O que sumiu foram as notificações públicas. O Boletim Epidemiológico sobre a situação da Influenza no Rio Grande do Sul, divulgado pelo próprio governo, mostra que de 48 casos registrados de Influenza H1N1, a porcentagem de falecimentos registra 14,6%. Já entre a gripe sazonal, a mais popular, em 115 casos registrados, a média de falecimentos fica em 7%. Especialistas expõem que a gripe sazonal ataca uma média extremamente maior de indivíduos e estes não pertencem aos chamados grupos de risco. Os anticorpos de uma pessoa sadia na casa dos 30 anos são evidentemente maiores frente à imunidade de uma pessoa idosa que já concentra um histórico de diagnósticos com outros vários males concomitantes, como imunodepressão, pneumopatias e diabetes mellitus. O boletim ainda esclarece: “Em relação aos óbitos, a maioria (85,8%) relatava algum fator de risco”.

Quanto à idade, o Boletim do Estado observou ocorrência em todas as faixas etárias, mas em relação aos óbitos, o comportamento é semelhante aos vírus de influenza sazonal, com concentração nos menores de um ano ou nos mais velhos. Estes dados não se diferenciam dos dados de outras doenças comuns. É oportuno lembrar que crianças muito jovens e idosos acometidos por várias outras falências salutares sempre foram, no andar da carruagem normal da vida, as principais vítimas de enfermidades, já que suas defesas imunológicas estão menos potentes em relação a outros cidadãos de faixas etárias diferentes.

Em 2009 a mídia sustentava de minuto a minuto informes sobre a doença, até mesmo mostrando à população como seriam tratadas as primeiras pessoas que apresentassem algum sintoma da nova doença: quartos hospitalares especiais, com proteção tecnológica contra transmissão bacteriana e viral e servidores hospitalares vestidos com roupas especiais que lembravam astronautas. Além disso, o sistema de saúde e os noticiários encontravam uma perspectiva estranha pela frente e foi impossível não instituir uma onda subjetiva que separava seres sãos de enfermos como em filmes futuristas de ficção científica. As pessoas contaminadas eram isoladas e mantidas em quarentena, enquanto seus nomes rolavam em listas negras sem qualquer resguardo público. Até mesmo fotografias das pessoas enfermas abrolhavam nos telejornais. Por meses o brasileiro viveu a situação do indicativo desumano dos afetados e dos sadios. E os difusores de notícias alertavam: você pode ser o próximo. Uma maneira miserável e inumana de tratar um assunto ligado a vidas. No meio da tal crise, os brasileiros perderam seus nomes e viraram números, dados a serem computados. O México, país onde a gripe teria surgido, recebeu um empréstimo de US$ 205 milhões do Banco Mundial em caráter emergencial, logo quando o país enfrentava uma crise econômica. A Surgical Face Masks, empresa britânica fabricante de máscaras cirúrgicas beirava a falência desde 2008. Em 2009, máscaras cirúrgicas sumiam das prateleiras e dos estoques das farmácias da Inglaterra ao mundo inteiro. A empresa se reergueu. O jornal Folha de São Paulo largou a manchete “Gripe pode afetar até 67 milhões no Brasil em até oito semanas” no dia 19/07/2009. O laboratório estadunidense GlaxoSmithKline, considerado o segundo maior fabricante de medicamentos do mundo, lucrou só em 2009 o que não havia lucrado em vários anos.

Resta uma pergunta: Quantas vezes você já teve sintomas de febre, dor no corpo, tosse e dor de cabeça este ano?

TAMIFLU: R$100. MOSQUITEIRO: R$21, pelo viés de Bibiano Girard.

@bibsgirard

bibianogirard@revistaovies.com

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