RATZINGER: MARX ESTÁ FORA DE MODA

Afinal, qual é a bandeira do Estado do Vaticano? Pelo viés de Bibiano Girard.

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O Papa “Bento” XVI, a ponta da pirâmide hierárquica da religião católica, antes de sua visita a Cuba, em pronunciamento, pediu uma renovação no sistema da ilha e classificou a ideologia marxista como ultrapassada. Fidel, com seu humor refinado de supino intelectual, perguntou diretamente ao Papa: “Mas me diga, o que faz um Papa?”. Bem, parece que Ratzinger foi ironizado. Antes, zombou da política castrista de equidade entre seus pertencentes, da educação de qualidade, da saúde que mostra índices abissais de condições benéficas à população, como o 0% de desnutrição infantil confirmado por uma instituição criada pelos países centrais, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Ratzinger acha tudo isso ultrapassado.

“Mas me diga, o que faz um papa?” deixa em aberto muitas questões. Entre um guerrilheiro socialista que lutou pela queda de um governo sinistro e submisso aos interesses das potências capitalistas e um padre eleito para assumir o poder de um país-convento com território doado por Mussolini parece haver grandes diferenças. Para que e para quem serviu Fidel, o mundo e a mídia [desvirtuando conceitos] nunca esqueceram: para o socialismo e para o povo de Cuba. Fidel Castro assumiu o governo em 1959, enquanto a ilha ainda era movida pelos dólares do turismo, da prostituição desencadeada pela fome e pela pobreza extrema de grande parte da população, e da exportação de cana-de-açúcar.

Mas para que e para quem serve um papa?

A história do Vaticano, por exemplo, elucida bons exemplos a fim de responder a questão. A cidade-estado avaliada como o menor Estado do mundo, com aproximadamente 800 habitantes e um percentual de muito ouro por cidadão, tem íntima relação com regimes e governos fascistas e impiedosos da contemporaneidade e do passado. Jamais deixou de ter.

Decerto Ratzinger prefere o adiantado plano neoliberal dos países-irmãos afundados em repressão aos mais pobres, dissimulação dos bens comuns de suas comunidades, devassas atrozes por lucro, intimidação soturna dos trabalhadores etc. Bento XVI se mostra mais perdido e ingênuo que seus próprios colegas liberais chefes de Estados, pois seus olhos de bom homem solidário às massas famintas as quais conclama a “rezarem e rezarem e rezarem até morrerem de fome pois Deus é quem sabe qual castigo merecem”, se nega a enxergar a bancarrota a qual passam os irmãos de ouro. Na Grécia um [midiatizado] suicida, na Espanha milhões nas ruas, nos Estados Unidos fila de sopa, e no Vaticano missas sob o dourado divino.

A Igreja de Bento sempre esteve em sua grande maioria ao lado dos poderosos, e não há mais por onde esconder tudo isto. Os homens estão cada vez mais próximos de saber, se assim for de interesse, as obscuridades da Igreja Católica Romana e de seus líderes, os papas. Contudo, o poder cegante da religião consegue alucinar os desprovidos e desesperados, crentes nas portas divinas, os quais se afastam das soluções mais humanas e cabíveis ao nosso poder, como a transformação política da existência em conjunto.

Bendita seja uma religião, que derrama no amargo cálice da humanidade sofredora algumas doces e soporíferas gotas de ópio espiritual, algumas gotas de amor, fé e esperança”, escreveu Heinrich Heine.

Já para Karl Marx, esse teórico que não deve mais ser respeitado, “A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o ânimo de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. A religião é o ópio do povo”.

O Vaticano foi presente de Mussolini, o líder do Partido Fascista, aos religiosos de Roma para que se calassem perante o novo regime que se implantava na Itália de 1922. Criada pelo então ditador com o pretexto de abraçar a igreja à causa fascista e ofuscar, como era necessário, qualquer ato antifascista da época, a Igreja ganhou seu terreno e apoiou o sanguinário Mussolini, conclamado comoSua Excelência Benito Mussolini, Chefe de Governo, Duce do Facismo, e Fundador do Império”. A Igreja rescindiu grande parte de sua própria base, como o Partido Popular de Sturzo, o grupo político popular italiano criado pelo padre Luigi Sturzo, que em 1925 viria ser declarado ilegal pelo regime fascista. Após um racha, o partido teria seus integrantes divididos entre aqueles que aceitaram a imposição de Mussolini e aqueles que desintegrados partiram para outros grupos políticos, desmembrando-se em inúmeras formações. Estava acertado: Vaticano e Mussolini, bons amigos. E depois de assinada a concordata “Patti Lateranensi”, o papa correspondeu ao ato grandioso e caridoso do assassino Duce, classificando-o como “O homem da providência”. Em 1932 Mussolini receberia a Ordem da Espora de Ouro, a mais alta distinção concedida pelo Vaticano.

O Papa também sabe fazer discursos de sua janela em várias línguas para alertar os católicos contra um modelo diabólico de planeta, sem Deus, onde a camisinha é permitida e as crianças, fruto do amor entre homem e mulher, são proibidas de nascer, mesmo em famílias onde a fome mata a mãe de família aos 40 anos. O Papa também cuida de uma instituição que tem uma biblioteca ao contrário, com milhares de exemplares proibidos de serem lidos, e da história que não deve ser contada, como os mortos na fogueira em nome de Deus. Ele também tem que saber administrar bilhões de dólares de uma das mais formidáveis acumuladoras de riquezas da Terra.

O Museu do Vaticano, onde a entrada custa mais de 30 euros e o onde chão, teto e paredes são adornados com muito ouro. Foto: José Alessandro.

Para uma instituição como a de Ratzinger, a ideologia marxista está defasada.

Há de se deixar claro que uma característica importante do pensamento de Karl Marx enquanto intelectual é que seus escritos e discursos estavam em completo sincronismo com o momento histórico em que ia sendo organizado. Marx falava de burguesia e proletariado frente às transformações da sociedade europeia, inglesa, principalmente, nas relações de trabalho e composição de um novo formato de existência, abalizada nas travações empregatícias, no afloramento da divisão entre classes, na categorização de quem era a imensa mão de obra e quem eram os raros e contaminados patrões de um púbere mundo industrial, onde a concepção de ser humano transformava-se como nunca. A geração do lucro e a opressão dos obreiros.

Esta última frase incita-se arcaica para Ratzinger? A ideologia marxista, a realidade concreta dos explorados e a situação calamitosa determinante para o levante de uma sociedade amarrada sutilmente aos fatores homem/tempo/labuta não parece atual para o Pontífice.

“Mas me diga, o que faz um Papa?”, merece complementação. A resposta para a questão é que os papas servem como ícone em carne do que representa o lado mais belo de um ópio. É tudo claro, limpo, os discursos são amenos e seu piscar lento dos olhos remete aos ocidentais a ideia beatificada de anjo. O Papa é o representante de Deus na Terra. Mas o Papa também serve como o traficante do ópio. Ele quer a “renovação e a esperança” para Cuba e não enxerga o atraso e a desesperança do suicida da Grécia ou dos famintos da Espanha. Isso se falarmos apenas dos países centrais e emergentes, pois sobre o mundo o representante de Deus pede também que a camisinha não seja usada, mesmo com a atrocidade provocada pela AIDS na África, e ignora a existência da família que não a formada por esposo, esposa e filhos. Ainda, o Papa ignora que dentre os moradores de seu pequeno país das maravilhas estejam criaturas dignas de abominação por crimes como estupro e pedofilia.

A queda de dois mil anos de fama. O conservadorismo também não é mais pop.

Ao contrário, Karl Marx não se detinha à visão superficial dos fatos, marco este que faz de sua obra ainda mais atual. Marx ultrapassou as barreiras da realidade cotidiana para buscar a raiz, a origem dos problemas, com o propósito de desvendar as aberturas sociais e lógicas do homem frente aos percalços do mundo do lucro e da mais-valia, do patrão déspota e dos milhões de labutadores. O mundo palpável e o homem real compunham sua matéria prima e o objeto de sua filosofia, a qual é eterna enquanto necessária. Frente ao mundo contemporâneo, se Ratzinger anda bem informado, ou pelo menos informado, Marx jamais foi dispensável. Pelo contrário, presentemente é em tal teórico que os homens podem reler as saídas para tanto desengano e insensatez.

RATZINGER: MARX ESTÁ FORA DE MODA, pelo viés de Bibiano Girard.

bibianogirard@revistaovies.com

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  • Demetrio

    Muito bom.