RARAMENTE O MACHISMO É VISTO COMO PROBLEMA SOCIAL

“A luta feminista é muito mais do que pressupõe grande parte da população”.

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No dia Dia Internacional da Mulher, 8 de março, a televisão cometeu inúmeros equívocos na tentativa de expressar a importância da data. Foram reproduzidas reportagens que falavam de maquiagem, peso, casamento, menopausa, ignorando a luta das mulheres ao longo da história.

Embora a propaganda midiática reforce aquilo que as feministas combatem, há diversos grupos atuando nas cidades para fortalecer as pautas do tema na sociedade. Segundo a Cientista Social e militante da Frente Feminista Giamare Pelotas, Daniele Rehling, é importante que se construam espaços para além de organizações de atos e marchas.

“Em apenas um dia, apesar de serem impactantes, atos e marchas não cumprem totalmente o papel que o feminismo busca trazer para todos os espaços. Nesse sentido, é também importante compreendermos que existem diversas tendências do feminismo e que as divergências são naturais e saudáveis. Apesar disso, cabe ao movimento feminista como um todo formular sínteses e tocar as pautas de extrema relevância conjuntamente. As Frentes Feministas cumprem papeis muito mais dialógicos e profundos sobre a conscientização da população, com atividades mais educativas/didáticas e formações políticas”, explica Daniele.

A televisão não reporta os principais motivos dos movimentos sociais que lutaram gradativamente por reivindicações de direitos e respeito. Inicialmente, lutava-se por direito ao trabalho, ao voto e à educação. Pautas articuladas nos séculos XVIII e XIX. Na década de 60, o aumento do uso de contraceptivos originou a luta pela liberação sexual. A luta por igualdade no trabalho veio a ganhar debate no fim dos anos 1970. As pautas de luta das mulheres sempre foram subestimadas. Acontece que vivemos em um sistema político e universal que carrega consigo, portanto, em todos os lugares do mundo, o racismo, o machismo, a homofobia e a exploração, o que dificulta o processo de adaptação da sociedade às transformações naturais, já que desconsidera desfazer-se do conservadorismo e, com a ajuda de instituições privadas e da mídia, perpetua o medo em admitir as mudanças culturais e adaptar-se a elas.

A propaganda, os programas de auditório, enfim, a hegemonia cultural, limitam-se direcionar a luta das mulheres para um único objetivo: os mesmos direitos dos homens. No entanto, a luta feminista é muito mais do que pressupõe grande parte da população, e tem muito mais história que devia ser contemplada nos livros didáticos. Diversas pesquisas provam que “cantadas” soam como assédio sexual, que os estereótipos criados pela publicidade causam problemas psicológicos em muitas mulheres, que as escolhas ficam limitadas entre a vontade da mulher e o quanto a roupa que irá vestir pode resultar em um estupro. Em relação ao estupro, há um grupo-alvo: as mulheres. E não interessa a roupa que vestem, o quanto pesam, o quanto estão maquiadas ou não, o quanto são jovens ou velhas. São mulheres e isso basta ao estuprador.

Foto: Gabriela Belnhak

Foto: Gabriela Belnhak

Na sociedade capitalista, tenta-se “combater” a opressão, incriminando o oprimido. Assim é com a “guerra às drogas”, com a “guerra à violência”. Poderia dizer: “e assim será com a ‘guerra ao machismo’”, mas acontece que raramente mencionam o machismo como um grande problema a ser combatido. A historiadora Cheron Moretti reforça: “Nos parece importante identificar que na ofensiva do capital sobre todos os âmbitos de nossas vidas vem o avanço conservador que pretende controlar nossos corpos e sexualidade. No Brasil, não apenas não conseguimos avançar na legislação que garanta o aborto legal e seguro, como tivemos os direitos já existentes ameaçados através da proposição do chamado estatuto do nascituro, acompanhado pela intensificação da criminalização das mulheres pela prática do aborto.”

A luta das mulheres é por uma sociedade em que ela não seja ofendida e discriminada por decidir o que fazer com o seu corpo, em que ela tenha espaço em qualquer profissão sem que rotulem o que é “de homem” e o que é “de mulher”. Onde ela exerça tarefas de liderança tanto quanto os homens e que receba como eles, pelas mesmas tarefas. A luta das mulheres é por respeito dos homens, da publicidade, das telenovelas, das músicas, da história. É para que olhem nos seus olhos enquanto falam, ao invés de sempre esperarem a resposta mais inteligente apenas do homem. Queremos uma sociedade libertadora (!), que se canse dos seus moralismos originários de violência física e psicológica e deixe de justificar todas as barbáries – seja fundamentada na opressão religiosa ou pela negação de conhecimento às mulheres.

Ao perguntar sobre a importância da intervenção do debate feminista nas escolas, Daniele afirma: “A escola é uma das instituições que mais propaga e ‘educa’ as crianças no modelo patriarcal machista. É o espaço de reprodução das ideias opressoras desde os primeiros contatos com a aprendizagem. Partindo dessa perspectiva, uma das prioridades do movimento feminista deveria ser atuação nas escolas. E nesse sentido, se faz necessário colocar os recortes existentes. Poderá haver entre o movimento feminista a percepção de que devemos centrar forças na atuação dentro das universidades e espaços pouco populares. Mas os bairros e as escolas da periferia são os locais onde as que mais necessitam desse debate não alcançam as informações. Por fim, a escola é uma instituição conservadora, e certamente não tratará de temas referente à sexualidade tanto das mulheres como dos homens, principalmente das mulheres da forma que deveria. Há uma cultura machista subjetiva sob tabus construídos para a manutenção dos privilégios masculinos”.

 A convergência midiática facilitou o acesso a informações, mas não se responsabiliza pelo modo de uso de cada indivíduo. O número exuberante de pseudointelectuais nas redes sociais favorece para confundir. Isso acarreta em pessoas se intitulando feministas, por exemplo, e defendendo pautas que não representam o movimento ou que, até mesmo, contradizem com as pautas feministas. Falta saber como utilizar as diversas plataformas de informação e encontrar nos meios alternativos argumentos para além do senso comum propagado pela televisão e pelas redes sociais. É difícil perceber os indícios do machismo nas falas e atitudes, pois estão banalizadas e nos parece inofensivo. Crescemos em uma sociedade pronta e sua cultura influencia para o que nos tornamos. No entanto, as contradições despertam questionamentos e cabe à quem alcança determinada percepção, transformar a cultura e acabar com as violências sociais.

Outro ponto importante de ressaltar é o recorte de classe. O machismo afeta todas as mulheres, sem dúvida. Mas é inegável que ele é mais violento às mulheres negras e às pobres, pois há uma ligação com outros tipos de opressão. “As mulheres burguesas sofrem tanto machismo quanto as mulheres da classe trabalhadora. No entanto, existem agravantes na opressão da classe mais baixa, porque essa está submetida a uma intensa exploração do trabalho. Ainda, a opressão é mais forte contra as mulheres negras, que na sua maioria já são exploradas e sofrem com o racismo. Nesse sentido, são elementos combinados, e intensificados com o capitalismo. Mas as mulheres enquanto gênero historicamente oprimido, sofrem muito com o machismo”, afirma Daniele.

O dia 8 de Março é apenas um símbolo para recordarmos a luta das mulheres. No entanto, a luta é constante, pois ainda temos muito que avançar. As opressões são interligadas e, infelizmente, estão fortes porque são suporte para um sistema político, ainda que em crise, que conta com aliados influentes na construção da cultura. Sim, o machismo é suporte para a exploração da mão de obra, para a manutenção da família conservadora, para a exploração do corpo da mulher, para a violência sexual. Desconsiderar a importância das intervenções feministas é ignorar as causas e, ainda assim, esperar por mudanças. Falar todo o dia sobre a opressão e exploração à mulher é mais do que importante, é fundamental para desconstruir um problema social banalizado e subestimado. Devemos admitir a importância de combater todo o moralismo imposto a nós (e dentro de nós) ao longo da vida na construção da percepção das relações sociais. O jeito de combater o senso comum que se coloca à nossa frente como única alternativa é questionando as contradições e buscando outras soluções, já que as postas não conseguem combater os problemas.

RARAMENTE O MACHISMO É VISTO COMO PROBLEMA SOCIAL, pelo viés de Maiara Marinho

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