A noite nos tempos da Catacumba

Nas memórias de Atilio Alencar, a saudosa Catacumba, o lugar de tempos perigosos vividos naquelas insalubres dependências.

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Arte: Bibiano Girard.

Houve um tempo na Santa Maria da Boca do Monte em que as opções de lazer, cultura e convívio na noite eram, definitivamente, plurais. Nem se trata de apelar para a nostalgia da inocência perdida: é que realmente, para quem gosta de flanar pela noite, os circuitos de bares e casas noturnas compunham num passado recente um desenho mais ramificado e diverso pelas ruas da cidade.

Claro, há de se conceder que a eleição deste ou daquele período como a época de ouro para a boemia é bastante subjetivo; e, não raro, tendemos a tomar uma fase pessoal de maior intensidade noctívaga como medida para recortar o marco supostamente histórico dos ‘tempos bons que não voltam nunca mais’.

Natural que seja assim. Se nem cientistas da exatidão alcançam a objetividade no rigor dos seus laboratórios, não seria no álbum de recordações noturnas – aquele dos registros mais embriagados das nossas vidas – que encontraríamos o bom senso para divisar memória e delírio.

Da minha parte, teria mil e um motivos para falar de mil e uma noites das duas décadas passadas. Mas meu pensamento acaba voltando, quando divago os passos em sonho pelas calçadas da Santa Maria em que desembarquei aos vinte e poucos anos, para a famigerada escadaria da Catacumba do DCE.

Espaço marginal e acessório à Boate do DCE UFSM, a Catacumba era mais do que um apêndice de casa noturna: era a afirmação de um estilo de vida, uma opção política tanto quanto estética, a evidência pulsante de que a nossa revolta produzia ambientes libertários, campos minados para o bom-mocismo e a assepsia cultural burguesa.

Bom, ao menos era assim que víamos a coisa.

Arte: Bibiano Girard.

A Catacumba era o lugar dos porres homéricos, acompanhados dos devaneios e discussões acaloradas que flutuavam na densa fumaça dos cigarros e assemelhados. Diferente da Boate do DCE, onde o previsível percurso entre o bar lotado, os cortejos da pista e o chão mijado dos banheiros deixava tudo com cara de círculo vicioso, a Catacumba possuía uma cenografia muito mais complexa, que parecia renovada à cada sexta-feira em que pisávamos nossos pés no velho porão.

Até os romances efêmeros da Catacumba expressavam o modo subversivo de se fazer festa no lugar: nada tinham a ver com os arroubos eróticos de bailinho universitário, com seus jogadores dispostos para a coreografia tradicional. Lá, os beijos ocasionais nasciam do conflito, da provocação, de uma certa urgência punk pela destruição de todas as obras de arte do mundo. Cada gesto, um manifesto.

Muita gente boa teve sua iniciação boêmia naquelas escadarias laterais da Catacumba, ali em frente ao Quarto Menos Um da Casa do Estudante – espécie de cubículo siberiano para onde eram enviados os indesejáveis da casa. Muita rima inspirada, panfleto anarquista e sarau improvisado tiveram lugar nas rodas de cânhamo instaladas sobre os degraus da escadaria. E muito dejeto foi jogado pelos moradores mais conservadores da CEU, indignados com as afrontas costumeiras à moral e aos bons costumes ali praticadas.

Segundo um antigo desafeto, que quando bêbado se convertia num fiel comparsa de noitadas na Catacumba, aquele charmoso e decadente reduto era o único lugar onde “as pessoas dançavam até ao som de um tumor sendo extraído do útero de uma vaca”. Um exemplo do lirismo corrente nos subterrâneos da Boate do DCE.

O convívio com as diferenças era elemento constitutivo das noites na Catacumba. Punks, manos, hippies, poetas fronhistas, profetas do caos, existencialistas e universitários jubilados compunham a fauna incorrigível daquele antro.

Arte: Bibiano Girard.

Lembro com vaga clareza do final de algumas noites épicas, com o dia amanhecendo na Rua Professor Braga. A balbúrdia difusa dos amores frustrados, da sede insaciável, daquela coisa inquieta a comunicar o peito que a noite é sem fim – tudo compondo um inventário afetivo das experiências vividas no poço úmido da Catacumba.

Ainda em 2001, recém-ingresso no curso de História da UFSM, discotequei pela primeira vez por lá. A temática, em plena era de ofensiva norte-americana contra o Oriente Médio, fundia nas imagens psicodélicas do cartaz a exuberância do surto dos cogumelos com o espetáculo terrível de uma explosão atômica. Estranhei que o público estivesse em êxtase, mesmo durante as trilhas sonoras mais calmas: parecia viver uma simbiose porosa com as paredes mofadas da Catacumba. Só mais tarde, por intermédio de um conhecido diretamente envolvido com o abastecimento ilegal daquela noite, descobri que o líquido que passava de mão em mão em copos descartáveis era uma infusão de cogumelos alucinógenos.

Anos mais tarde, não sei bem em qual ocasião, voltei a Catacumba. Devia ser por volta do ano de 2007. Era então um lugar completamente distinto do que eu lembrava. Domesticado, neutralizado e assimilado, agora sim, como um inofensivo porãozinho da Boate do DCE.

O que ficou da Catacumba em minha memória, assim como de outros lugares que frequentei na época e um tempo depois, foram os tempos perigosos que vivemos naquelas insalubres dependências. Saudavelmente perigosos. Irrepetivelmente perigosos.

Naquele tempo, a maior tragédia cogitável numa noite era voltar sozinho para casa.

Arte: Bibiano Girard.

 

A noite nos tempos da Catacumba, pelo viés de Atilio Alencar, colunista da revista o Viés.

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