DIÁRIOS DE KANGOO – PARTE I

O sonho e o sangue latino-americano em uma viagem de carro para o Uruguai.

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O espírito romântico do argentino Ernesto Guevara de La Serna, que lhe rendeu uma enorme viagem pela América Latina sem paradas ou destino definidos. Os versos do nordestino Belchior, que cantaram e seguem cantando o sangue e o sonho latino-americano. A prosa do uruguaio Eduardo Galeano, que discorreu por toda a colonização e miséria de nosso continente. Todos eles, e outros mais, nos uniram para uma viagem pelo litoral e interior uruguaio. De Santa Maria da Boca do Monte, centro geográfico do estado mais ao sul do Brasil, até o Uruguai, e até Santa Maria de novo, foram mais de 2000 km em cinco dias.

A Kangoo cinza foi à estrada no final da tarde de quinta-feira. Nosso espírito metropolitano, dos últimos dias passados na quinta maior cidade do estado, logo seria substituído pelo bucolismo de milhas e milhas de campos, vacas, preás e asfalto. A expectativa do primeiro trecho de uma viagem sempre a faz mais demorada. Uma parada para esquentar a água do mate. Outra para usar o banheiro. Logo cai a noite e Pelotas ainda se encontra distante. Passamos por bolichos e vilas já dormentes. No fim do horizonte um conglomerado de luzes denuncia que a cidade dos doces estava próxima.

No centro histórico da cidade, um hotel indicado por um conhecido. O nome, Rex, bem que poderia servir como adjetivo para sua parca e idosa infra-estrutura. Mas, isso pouco nos importava. Guardar dinheiro para cervejas uruguaias era muito mais importante. Às seis horas da manhã, depois de mosquitos, possíveis pulgas, e um prego no meio do colchão, zarpamos rumo ao extremo sul do país.

A estrada para o Chuy, plana e vazia – com exceção de alguns argentinos no sentido contrário, se dirigindo às praias brasileiras – logo nos fez acabar com uma térmica de água quente. A trilha sonora era a mesma de todo o resto da aventura: Jorge Drexler, Belchior e alguns outros com um pouco menos de importância. E, por fim, chegamos ao outro extremo do Oiapoque. Chuy – ou Chuí para os mais aportuguesados – é uma cidade pequena e feia. Cinza, como a maioria das cidades de fronteira do Brasil. Seu povo é receptivo, afinal, vive exatamente disso, da passagem de outras pessoas por sua cidade. O sotaque é deveras estranho, um portunhol um tanto diferente.

Nos dirigimos a um cartório, para protocolar nossa autorização de dirigir em terras orientales, e, depois, à aduana. Um uruguaio muito mal-encarado nos atendeu e carimbou nossos vistos. Outro, com muito mais humor, liberou a passagem da Kangoo. Quando estávamos quase entrando, nos lembramos que não havíamos trocado o dinheiro. A volta ao Chuy, e à aduana de novo, nos tomou quase uma hora.

República Oriental del Uruguay

Não nos surpreendemos quando vimos que a paisagem uruguaia era idêntica à gaúcha. Yuri sempre dizia que “Rio Grande, Argentina e Uruguai são três pátrias de um mesmo país”, e nossos primeiros momentos na pátria vizinha só me podiam fazer concordar. Em pouco menos de meia hora, nos deparamos com a Fortaleza de Santa Tereza, resquício da época onde cada pedaço de terra da América do Sul era disputado com uma guerra. A belíssima construção, construída em 1762 pelo exército espanhol, hoje é um parque de posse do exército uruguaio. Em meio a canhões, turistas e militares, uma das mais belas vistas do território vizinho nos foi proporcionada.

A gasolina já estava acabando quando passamos pela cidade de Castillos, mas nosso primeiro destino era Cabo Polonio, e resolvemos seguir viagem. A praia, musicada pro Jorge Drexler em seu cd 12 Segundos de Oscuridad, nos havia chamado a atenção. Mas pouco imaginávamos o que nos esperava. Infelizmente, quando chegamos ao estacionamento de Polonio, um flanelinha nos avisou que o posto de gasolina mais perto era justamente em Castillos, a 28km de lá. Voltamos à pequena cidade para abastecer, e depois confirmaríamos o boato de que a gasolina uruguaia rende mais que a brasileira. Em Castillos almoçamos. Bandeiras, flâmulas e fotos do Peñarol cobriam as paredes do restaurante familiar. O Chivito Al Pan, com bastante pimentão, talvez tenha sido minha melhor refeição. Em mais uma hora estávamos de volta ao estacionamento de Cabo Polonio. Nossa viagem estava, realmente, acontecendo.

DIÁRIOS DE KANGOO – PARTE I, pelo viés de Mathias Rodrigues

mathiasrodrigues@revistaovies.com

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  • Diosana

    Aah, quero mais, Mathias.
    Tinha que parar justo em Cabo-Polonio-forever?! hahah