REFLUXOS DE BORDO EM DOIS ATOS, PRIMEIRO

Um diário de cinco meses seria cansativo. Ficam aqui as cenas que guardei do primeiro mês na Inglaterra. Uma peça em dois atos, memória despedaçada.

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PRÓLOGO

Vim para a Inglaterra para ficar cinco meses. À causa disso, atraso um ano da faculdade – sem remorso. São, mais ou menos, 155 dias e um diário seria daveras cansativo. Preferi confiar na confusão da memória, que, mesmo num breve mês, lembra as coisas como episódios fixos, pequenas fotos de um filme a se desenrolar. Quem dá o movimento da re-atuação é quem se lembra do passado ou quem sobre ele lê.

CENA 1

– Quando tu vais para Londres?
– Eu não vou para Londres.
– Ãm, vais para onde então?
– Para Nottingham, é mais para cima.
– Ummm!

CENA 2

Esse momento se repetiu tantas vezes que se tornou meu primeiro aprendizado. A Inglaterra, e quiçá o Reino Unido, resume-se aparentemente a Londres. Sempre que ouvia essa pergunta, sorria meio encabulado e explicava com as mãos que iria para uma cidade mais para cima no mapa. Assim que cheguei à Inglaterra, passei por episódios parecidos.

Nenhum daqueles que conheci aqui até então, fora os brasileiros, acertaram minha nacionalidade. Perguntaram-me se eu era estadunidense, canadense, sul-africano, australiano, inglês, francês, italiano, alemão, argentino, mexicano e, hoje de manhã, alguém também me disse grego. “Sou brasileiro”, respondo e a reação é uma mistura de surpresa e decepção. “Mas tu não tens sotaque de brasileiro?” Tampouco tenho sotaque de qualquer outro lugar, nem sou mulato, nem danço samba o dia inteiro. Surpresa e decepção – a imagem do brasileiro ainda é muito daquela de Carmem Miranda. Claro, isso se trata de uma generalização; nem todos se espantaram tanto assim, mas tampouco acertaram a capital do Brasil – que, para a maioria dos que conheci, ainda é o “Rrrrioou”.

CENA 3

Saí de Santa Maria no dia 22 de janeiro. Em Porto Alegre, embarquei num voo de pouco menos de duas horas rumo ao aeroporto de Guarulhos. Lá, esperei em torno de oito horas até o horário do voo para Londres. Meus pais me acompanharam até São Paulo. Quatro horas antes do voo para cá, eles já lacrimejavam. Eu, no entanto, estava tão eufórico que não conseguia nem cogitar o porquê de tanta tristeza – era um momento feliz! Só entenderia, finalmente, a tristeza deles depois que meu pai não aguentou e, pouco mais de um mês depois, arrumou uma mochila e veio passar três dias comigo.

O voo durou nove ou dez horas, não sei ao certo. Como aconteceu da última vez, o sistema de som do meu assento não funcionava. Num primeiro momento, não pude assistir a “A Rede Social”. “Perfeito, todos estão dormindo ou assistindo a algo. Não posso acender a luz para ler e não trouxe minha música. Vou ter que passar a noite tentando dormir ou mirando as cores da cabina bailarem entre azul-bebê e verde-musgo”.

Ao meu lado, duas gurias de Porto Alegre. Amigas, iam a Londres para estudar inglês – coisa que, não saibam seus pais, seria a última preocupação delas; pois morariam juntas e estudariam juntas: a língua inglesa não seria, portanto, sua prioridade. Eu estava no assento do corredor para poder esparramar minhas pernas e ensaiar umas tranquinhas nos comissários de bordo. “Com licença”, disse-me a guria ao lado, “estou passando mal”. Saltei do meu lugar e ela saiu, mas eu continuei lá, a contemplar o azul-bebê e o verde-musgo. Sua amiga foi atrás dela; como bom curioso, fui lá ver se ela estava bem. Não precisei perguntar; um médico a bordo estava injetando glicose na moça. Ela voltou à fileira e pediu para trocar de assento comigo, pois ela passaria a noite indo ao banheiro. Cedi e fiquei preso entro ela e a amiga, as duas conversando entre mim. Pelo menos pude, finalmente, assistir ao filme – pronto, agora estávamos eu e ela mal. Sua amiga dormiu no meu ombro pela maior parte da noite.

Rubrica: Deixei-a cá dormir.

CENA 4

Aterrissamos e, depois de caminhar por dez minutos entre corredores e escadas rolantes, cheguei à imigração. Duas filas: uma para cidadãos europeus e uma para o resto do mundo. Peguei o envelope com os documentos e segurei-o firme. Quando foi a minha vez de ser atendido, fui recebido com um “boa tarde”. “Começou bem, ele vai me deixar entrar”, pensei e, logo depois, ri internamente com a constatação de que, não importa quão boas sejam as nossas intenções, sempre nos sentimos nus na fila de imigração, como se carregássemos conosco uma bomba ou drogas ilícitas. O senhor me perguntou o que eu faria lá, onde ficaria e por quanto tempo. Folheou meu passaporte, perguntou dos outros carimbos e pediu-me para ver a carta da universidade. Nem sequer manteve as cópias dos 457.000 documentos que tinha que, supostamente, traduzir & apresentar e “pá”, quando menos esperava, ele carimbou meu passaporte e, desde então, posso entrar e sair da Europa até o final de julho – não posso trabalhar, não tenho direito a atendimento hospitalar, não posso quebrar sequer uma lei; posso morar, estudar e, acima de tudo, gastar dinheiro aqui.

Rubrica: a lata de Coca-Cola é o medidor universal de preços. Aqui, uma delas custa £0,68 (R$ 1,80).

CENA 5

No saguão do aeroporto, já suado de tanto caminhar e carregar minha mala, procurei por todos os lados e não achei Tahlia, minha amiga-irmã australiana-britânica-jamaicana que morou conosco em Santa Maria por sete meses em 2009. Ela deveria estar lá para me levar à sua casa, na cidade de Chatham, mas, como estava atrasada, não estava no saguão. Minhas teorias já foram muitas, “como vou chegar à casa dela, onde posso pegar o trem, qual é o número dela”? Vinte minutos ao léu e ela apareceu. Pronto, já me sentia em casa. Ela e seu irmão, Nathan, levaram-me a Chatham de carro.

Nathan dirige rápido e é o melhor motorista com quem já andei. Não corta os carros, não barbereia e consegue reduzir em um terço o tempo de qualquer trajeto – isso, claro, no lado “errado” da via; fato que me permitiria ver a luz da morte em algumas vezes que tentei atravessar a rua.

A família de Tahlia e Nathan são a minha família aqui. É a segunda vez que os visito e sempre me sinto bem. Sua mãe, Janet, lembra a atriz Whoopi Goldberg e passa o dia a escutar música – e, quando gosta do que ouve, dança. Na sua casa, meu consumo de chá decuplica – “wanna a cuppa?”* – e sou presenteado com a cozinha jamaicana – pimenta! No domingo, dia 23, peguei o ônibus para Nottingham.

*“Wanna a cuppa”? é uma expressão inglesa e vem da redução de “do you want a cup of tea”? – “queres uma xícara de chá”?

Rubrica: o café-da-manhã à inglesa que me deram, só para que eu o conhecesse, pois não o comem todos os dias, incluia: bacon, cogumelos, salsicha e feijões.

CENA 6

Ainda não entendo como uma viagem de pouco mais de 200km, em estradas em ótima condição, pode demorar quase quatro horas. Saí às cinco [da já noite] de Chatham para Londres e, dali, às sete, para Nottingham. Cheguei às onze e meia da noite. E a ficha caiu: “cá estou”!

Aquele era, de fato, o primeiro momento em que eu não sabia para que lado andar. Bambaleei entre a direita e a esquerda e me pus a caminhar na via exclusiva dos ônibus. Com o orgulho de quem “fala o idioma”, não pedi informação; segui o fluxo e cheguei à entrada da rodoviária. Uma fila de táxis grandes e pretos, como carros fúnebres, abrigava uma gama de etnias. Aproximo-me do táxi que está mais à frente e pergunto ao motorista quanto me custaria para chegar ao Broadgate Park, nome da acomodação estudantil em que moraria. Oito libras. Oito libras? Isso é quase vinte e quatro reais. Mantive essa mania de converter os preços para o real durante as primeiras semanas. Para o horror dos meus pais, já não faço mais isso.

Rubrica: o valor de uma libra gira em torno de R$2,60 e R$2,70.

O motorista estava fumando e o cheiro forte do seu cigarro inundou o carro inteiro. Falava ao celular sem parar, mesmo dirigindo. Identifiquei aquela como alguma língua indiana – minha dica: ele falava “tike” várias vezes. Olho, pelo vidro, as ruas que se vagarosamente apresentam a mim às onze e tanto da noite. “É como Londres, mas em miniatura”. Prédios de tijolos à vista, não muito altos, sempre em linhas retas, pequenas molduras brancas salientes nas aberturas. Nem quinze minutos e cheguei a Broadgate Park, em Beeston, nome de uma das regiões de Nottingham. O portão está fechado, aperto o interfone, mas ninguém atende. Alguém está saindo e aproveito para entrar. Àquela altura, a única mala que tinha levado já tinha perdido uma de suas rodas e estava a arrastá-la – o barulho era ensurdecedor. Olho para cima, como todo novato faz; impressiono-me com os prédios. A acomodação estudantil da universidade é feita por condomínios autônomos. Há dois tipos: com alimentação incluída (catered) ou sem alimentação (self-catered). Broadgate Park é um destes e está à entrada oeste da Universidade de Nottingham. Dez minutos me separam do meu quarto até minhas salas de aula – mesmo assim ou talvez por isso, sempre chego atrasado.

CENA 7

Vou à recepção do condomínio e recebo as chaves, o cartão para os portões & a porta do prédio e um chaveiro que abre garrafas. “A gente sabe que vocês gostam de beber”, disse-me o senhor que me atendeu.

Cheguei ao meu apartamento. Vazio e silencioso. Fui à cozinha, lá havia uma frigideira e um saco de pão – alguém já estava lá. No outro dia, descobri que eu era o único a ainda não estar lá. Espiei o banheiro e entrei no meu quarto. Pus-me a arrumar as roupas no armário – “não tenho cabides”. Liguei o computador e tentei acessar a internet – não consegui. Dormi. No dia seguinte, na segunda-feira, tinha que estar em algum lugar da universidade para uma reunião de orientação para os intercambistas. Pronto, “cá estou”! Ainda sozinho, ainda sem conhecer nada e com aquela pontinha de arrependimento que sempre me ataca nos primeiros dias de quando faço algo do tipo: “por que eu tinha que inventar de vir”?

Rubrica final: minha câmera quebrou em outubro do ano passado durante os protestos contra o aumento da passagem de ônibus em Santa Maria. Mandei-a para Porto Alegre, de onde saiu, ainda quebrada, no mesmo dia em que embarquei. Daqui de Nottingham, enviei-a por correio para o País de Gales, onde foi consertada e voltou pronta na semana passada. Ainda não saí a tirar retratos da cidade, por isso a ausência de fotos, mas digamos que é para dar um ar de livro e cutucar a nossa imaginação.

REFLUXOS DE BORDO EM DOIS ATOS, PRIMEIRO, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com

Para ler mais de nossos textos, acesse nosso Acervo.

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  • http://www.meioaereo.com Aeromoça

    Eu adorei cada ato! Parabéns pelo texto, gostaria de vê-los encenando no teatro… ficará lindo!!

    Portal Meio Aéreo