THE CRAIC IS IN DUBLIN

Rostos pintados, pessoas gritando, aplaudindo, muitos sorrisos; nem parece ser a mesma Irlanda que quebrou com a crise recente.

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A temperatura era baixa quando eu e outros sete moradores do prédio Hazels saímos, às sete e meia da manhã do dia 16, rumo ao Prédio Portland, no campus principal da Universidade de Nottingham. Íamos ao encontro da excursão que vinha de Londres e partiria, em meia hora, para a capital da República da Irlanda, Dublin. Como toda empresa de viagens, as promessas eram grandes para as comemorações do Dia de São Patrício (Saint Patrick’s Day) na maior cidade do país cuja identidade é fortemente ligada a seu padroeiro.

Devíamos ser cinquenta pessoas no ônibus: três brasileiros, alguns canadenses, uns tantos australianos e uma penca de estadunidenses. A missão iminente era dormir já que nenhum universitário por aqui dorme antes das duas da manhã, independente dos compromissos do dia seguinte. Mas dormir não estava nos planos de uma guria do estado de Nova Iorque que passa a viagem inteira gritando sobre sua relação com seus amigos e sua curiosidade sobre a vegetação do estado do Colorado. Como a minha sorte me brinda nesses momentos, ela estava sentada atrás de mim e não tinha vergonha alguma de sacudir o meu assento e me mandar não dormir, mesmo que tivéssemos nos conhecido há alguns minutos. As pequenas telas de LCD se abrem do teto e começam a apresentar um dos filmes de Austin Powers. Pronto, silêncio! E sono.

Quatro horas nos separam desde Nottingham até a cidade portuária de Holyhead, no País de Gales. Quedamo-nos por trinta minutos na fila de muitos ônibus que, como o nosso, levavam turistas sedentos por Guinness à Irlanda. Embarcamos na balsa.

Os guias tentaram, a todo custo, incentivar aquele comportamento adolescente de excursão – Who is excited about going to Dublin? – não funcionou. O ônibus estacionou no quinto deque da balsa e subimos, já fatigados, outros quatro andares até o salão de passageiros. Quatrocentas pessoas, a maioria estrangeiras, começaram, de pronto, a se enfileirar no bar e nos restaurantes. Todos os preços eram mostrados em libras e em euros. Can I have a whisky and Coke, please? Com o estômago vazio, uma dose de Jack Daniel’s e Coca-Cola já é o suficiente para me deixar feliz. Passei as três horas do trajeto em alto-mar a cogitar se deveria beber mais ou esperar até que chegasse a Dublin.

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Entre o porto de Dublin e os albergues em que nos hospedaríamos, havia pouco mais de meia hora de viagem. O grupo já não está quieto – o cheiro do álcool que beberíamos já nos atiçava a guela. Lá pela cinco e alguma coisa nos ajeitamos nos quartos e eu me vejo cercado de cinco estadunidenses no quarto 317. É difícil não os encontrar! Às sete da noite, marchávamos até um pub de esquina para começar as celebrar a véspera do Dia de São Patrício.

A manhã do dia 17 começa com vários rostos ainda embreagados a cambalear até a beira do rio Liffey, que corta a cidade, onde assistiríamos ao desfile do Festival de São Patrício – nome do evento criado pela prefeitura de Dublin em 1995 para as comemorações do padroeiro do país. O desfila ainda não começou e é aí que enxergamos a oportunidade de escapar para o restaurante mais próximo e comer alguma coisa antes que desmaiemos.

As ruas estão lotadas e todos usam alguma peça verde, além dos chapeus, óculos, bandeiras irlandesas e outros penduricalhos verdes e extravagantes. Eu me basto numa camiseta verde e uma manta preta que falharia em me proteger da dor de garganta que me seguiria pela próxima semana.

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As calçadas da rua por onde passarão as comitivas já estão lotadas. Algumas famílias trouxeram escadas para melhorar assistir ao desfile. As crianças enlouquecem com a ideia de estarem tão alto “assim ó” e ver tudo em primeiro mão. Rostos pintados, pessoas gritando, aplaudindo, muitos sorrisos; nem parece ser a mesma Irlanda que quebrou com a crise recente.
O Dia de São Patrício não costumava ser celebrado assim na Irlanda. Costumava ser um dia estritamente religioso, para se ir à igreja, não se beber e não cometer pecados, mas a Irlanda importou da Nova Inglaterra, no Nordeste dos Estados Unidos, a maior comunidade irlandesa fora da Irlanda, a nova maneira de comemorar um dia santo: à carnavalesca. Hoje, o dia 17 de março significa vestir-se de verde, pintar um trevo no rosto e sair às ruas beber.

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São Patrício viveu no século 4 d.C. De uma família romana da Bretanha, foi sequestrado por irlandeses aos 16 anos e foi levado à ilha vizinha para ser escravo. Com a suposta ajuda de deus [tá!], escapou da Irlanda, mas para lá retornou como missionário católico a mando do papa Celstino I. São Patrício usou um trevo para explicar aos vários reis da Irlanda de então a santa trindade. Depois disso, a planta, chamada de shamrock aqui, viraria o símbolo de uma Irlanda catolizada.

O desfile é uma sequência de comitivas aleatórias. Música eletrônica, jazz, música irlandesa. Crianças fantasiadas de sol, adultos em pernas-de-pau, bandas marciais. Depois do desfile, fomos à fábrica da Guinness, outro símbolo irlandês. São sete andares destinados à cerveja escura e forte: da história da empresa a um acervo de comerciais já lançados até o último andar, com uma vista em 360º graus de Dublin e uma pint de Guinness para todos os visitantes.

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A noite do Dia de São Patrício foi como se esperava ser: ébria! Amontoemos milhares de estrangeiros, a maioria jovens que estão longe de casa, com outros milhares de irlandeses orgulhosos de seu país num dia em que beber até cair é a ordem. Salpique música eletrônica com intervalos de música irlandesa…et voilà: o dia 18 de março é o dia dos zumbis se arrastarem por Dublin, tentando conhecer a cidade sempre que o enjoo passa e o corpo é reidratado.

Ademais, Dublin é uma cidade linda e limpa, no sentido estético principalmente. Felizmente, faltam a Dublin as firulas vitorianas que adornam a Inglaterra e são o pesadelo de quem tem rinite ou sinusite. Dublin é clara; relativamente pequena comparada a outras capitais europeias, mas mantém um ar cosmopolita. Não sou só eu que diz a todo momento “eu moraria aqui”. E repito até hoje: moraria, com certeza, em Dublin – pelo menos no dia 17 de março.

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*”Craic” é uma palavra irlandesa e significa “as coisas, a vida”. Então: a vida está em Dublin!

THE CRAIC IS IN DUBLIN, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com

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