HOMOFOBIA NÃO É “FOBIA”

Analisando o termo “homofobia” chegamos à conclusão de que o termo é mal usado. Pelos colaboradores Bruno Mendonça e Laura Nascimento.

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Foto: Caren Rhoden

O termo “homofobia” tem sua origem nos termos gregos “homo” (mesmo) e “phobos” (medo, aversão). Dessa maneira, a homofobia caracterizar-se-ia pelo medo ou aversão em relação a homossexuais. Assim como a “cinofobia” caracterizar-se-ia pela aversão aos cachorros, ou a “escotofobia” pelo medo ou aversão à escuridão. Consideramos que essa é uma caracterização errônea da homofobia.

Tal como o racismo, que é a discriminação relativa à raça, a homofobia não é fobia, mas discriminação, nesse caso, relativa à orientação sexual. O medo, ou a fobia, é predominantemente irracional. Afinal, não podemos pedir argumentos que justifiquem a aversão a cachorros. É possível, sim, tratamento psicoterapêutico para os fóbicos.

Essa caracterização da homofobia a partir do elemento irracional expressado pelo componente “fobia” abre espaço para que a aversão aos homossexuais seja considerada irracional e que, portanto, não possa ser questionada. Na verdade, a homofobia é um preconceito, tal como o racismo. Sua motivação não é um componente irracional, mas crenças que podem ser verdadeiras ou falsas. Sendo assim, podem e devem ser questionadas. Estamos falando, talvez, de um “sexualismo”, ou seja, uma atitude que discrimina com base na sexualidade, mas não de uma fobia. O que queremos dizer é que a homofobia não é fruto de uma disposição irracional ou aversão psicológica, mas sim, de um preconceito social.

Se estamos certos, o discurso “homofóbico” deve ser sim criminalizado, pois o Estado brasileiro, através de sua Constituição, assegura a promoção do “bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade, ou quaisquer outras formas de discriminação”.  Assim, até mesmo o discurso disseminado, e aparentemente sensato, de que “é possível respeitar homossexuais, apesar de não gostar destes” é discriminatório.

O que propomos aqui pode parecer uma discussão meramente terminológica, mas a palavra “homofobia” esconde seu real significado. Assim, esperamos que a clarificação dos termos possa ajudar na resolução dos problemas. 

HOMOFOBIA NÃO É “FOBIA”, pelo viés dos colaboradores Bruno Mendonça¹ e Laura Nascimento²

1. Filósofo formado pela Universidade Federal de Santa Maria

2. Acadêmica de Filosofia da Universidade Federal de Santa Maria

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  • Ivan

    Quero questionar essa parte do texto:

    “Assim, até mesmo o discurso disseminado, e aparentemente sensato, de que “é possível respeitar homossexuais, apesar de não gostar destes” é discriminatório”.

    Não conheço tal discurso! Quem o propaga ou divulga? O discurso que conheço é este: “Respeitamos os homossexuais, mas não concordamos com suas práticas” (Pr. Silas Malafaia).

    Levando em conta que a homossexualidade é um COMPORTAMENTO APRENDIDO (como outro qualquer, como por exemplo, falar um determinado idioma), pois não há no campo da genética nenhuma prova contundente, inquestionável e definitiva que prove o contrário, onde estaria o erro deste discurso? Ele seria discriminatório por qual motivo? Por que este discurso incitaria ódio contra homossexuais? Se eu discordo de um comportamento quer dizer que odeio quem o pratica?

    >Veja este vídeo abaixo e me diga quem tem ódio de quem:
    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=zuxpaE759h8

  • Bruno Ramos Mendonça

    Olá, Ivan. Você argumenta que, do suposto fato de que a homossexualidade seja um comportamento aprendido, é possível discordar (respeitosamente) das práticas homossexuais. Isso porque, você parece crer, as pessoas diante de comportamentos aprendidos teriam liberdade para mudá-los por conta de boas razões. Penso que esse argumento é insuficiente e a comparação com nosso uso da língua nativa é obscurecedor. Que eu tenha aprendido português quando pequeno não é razão para pensar que eu possa autonomamente abandonar seu uso, mesmo diante das melhores razões para isso. Creio que você está sendo confundido por uma concepção ingênua dos limites da liberdade humana e da relação que os seres humanos têm com suas práticas aprendidas. Um abraço, Bruno.

  • Laura Nascimento

    Olá, Ivan

    sobre a primeira questão, acredito que uma pessoa e suas atitudes não são tão facilmente separáveis. Me parece difícil discordar das práticas homossexuais (como diz o Malafaia no que você cita) sem estar sendo discriminatório. Porque não se pode ser homossexual? Porque é uma coisa ruim? Bem, se eu sou o que eu faço, isso me parece um julgamento bastante forte.

    Um exemplo do que quero dizer acontece frequentemente, quando encontramos alguém que diz uma coisa e faz outra. O que é mais relevante no relacionamento com essa pessoa? Agir com base no que ela diz ou no que ela de fato faz? Por exemplo, como agir com uma pessoa que se diz confiável quando é fofoqueira? Acredito que seu comportamento diz mais do que sua fala.

    Assim, não basta dizer que respeita, é preciso agir com respeito também. E isso é feito garantindo, por exemplo, a liberdade para as pessoas se relacionarem com quem quiserem sem que suas práticas (e consequentemente as próprias pessoas) sejam condenadas por isso.

    Sobre a segunda questão, em nenhum campo científico encontram-se dados contundentes, inquestionáveis para confirmar definitivamente uma tese. O que temos são indícios que confirmam ou não uma tese. Nesse vídeo, bastante divulgado algumas semanas atrás, um biólogo apresenta diversos indícios de que a homossexualidade envolve componentes genéticos.

    http://www.youtube.com/watch?v=3wx3fdnOEos

    sobre o vídeo que você postou, acredito que uma única manifestação não diz muita coisa. Não vou fazer isso, mas tenho certeza que poderia encontrar um vídeo com uma situação inversa. Algumas atitudes, de ambos os “lados”, são reprováveis, na minha opinião. Respeitar a homossexualidade de alguém não é afirmar que essa pessoa é livre de quaisquer julgamentos morais, mas sim garantir que essa pessoa não será julgada por [i]ser homossexual[/i].

  • Victor Moreira

    Acredito que todo ser deve ser respeitado independente de sua orientação sexual.

    Mas vejo um furo no raciocínio lógico proposto:

    “O medo, ou a fobia, é predominantemente irracional.”

    O que diriam os profissionais da área da psicologia ou psicanálise sobre a premissa acima?
    Não há causa ou razão em ter medo de algo?