LUIS FERNANDO: PALAVRA E TINTA

Durante uma forte chuva que iniciara havia poucos minutos numa manhã de sábado, um objeto sumira. Os produtores do evento que ali se realizaria recorreram ao guarda-chuva mais próximo. O objeto era colorido por um lilás vivo e destoava do senhorzinho que nele era abrigado. Calças bege-escuro, passos lentos e um sorriso tímido. O primeiro pé no Shopping Popular de Santa Maria (RS) fez surgir os fãs leitores mais afoitos e um fotógrafo invasivo. Percebia-se ali, a importância deste senhor que tem quase uma obra publicada para cada ano de vida. Luis Fernando Verissimo possui 60 obras espalhadas ao longo de seus 73 anos.

Uma empresa de televisão, com sua acelerada repórter, gravou rapidamente as perguntas rasas e batidas que os entrevistados mais requisitados já devem ter decorado. “Qual sua expectativa para o 6º Cartucho?”, “Como é voltar a Santa Maria?”, “Qual a emoção de ser o homenageado neste evento tão importante (a repórter minutos antes indagava ao organizadores do evento sobre, afinal, de que se tratava aquele encontro de cartunistas)?”.


No primeiro andar do prédio, aproximadamente quinze cavaletes com telas em branco aguardavam os traços de seus respectivos artistas. Aos poucos, a sala foi sendo preenchida pelas conversas e criatividade dos cartunistas convidados. Veríssimo, em sua expressiva calma, perambulava entre os companheiros no caminho entre a tela e os potes de tinta. Enquanto alguns coloriam suas telas com rapidez, chegando até a derrubar os cavaletes, Luis Fernando desenhava tranquilamente. Entre cada rabisco, parava alguns segundos, pesando sua criação. A pintura de uma flor foi interrompida. A voz de uma jornalista cessava a concentração de Verissimo. Com o pincel no ar, respondia pacientemente às perguntas, olhando de canto para a criação incompleta. Mesmo com as interrupções, em duas horas transfigurava-se na tela mais espiada do evento um livro de onde brotavam pássaros e flores. Terminado o desenho, Luis Fernando Veríssimo caminhava entre as outras telas apreciando o trabalho dos colegas.

Porto-alegrense, o escritor e cartunista conviveu desde pequeno com as idéias socialistas humanistas do pai. Recentemente esteve na mídia por ser um dos intelectuais contrários à abertura de uma CPI para investigar o Movimento dos Sem-Terra, o MST. Perguntado pela revista o Viés sobre a adesão ao manifesto, Veríssimo criticou os latifúndios improdutivos em contraposição ao grande número de brasileiros “agricultores sem-terra, gente sem-terra, gente sem esperança”. Mostrou-se contrário à violência, mas criticou a mídia por tornar o movimento notícia apenas quando as ocupações ocorrem. “O movimento é legítimo e sou contra a demonização do MST…os assentamentos que estão dando certo nunca são noticiados.”

Para o escritor, a grande mídia é controlada por empresas que têm interesses e que em sua maioria nutrem uma antipatia pelo governo popular de esquerda de Lula. “Na própria grande imprensa há espaços, não há censura, mas eu acho que um caminho alternativo é a pequena imprensa, como no tempo da ditadura, quando não se podia escrever tudo o que se queria, mas tinha O Pasquim, o Opinão…”. E o Pato Macho? – pergunta a revista. Veríssimo é só risadas.

Além da pequena imprensa, o cartum historicamente teve importância política, e é colocado por Verissimo como parte importante do movimento de contra cultura. Ele ganhava força em períodos de pressão social. Da França, o escritor cita Daumier. No Brasil não foi diferente. O grande humorista surgido na época foi Henfil, com “seu cartum mal-criado que atacava frontalmente o governo e o regime. Era irreverente, tinha aquela idéia de irreverência que persistia apesar de tudo”.

O autor também respondeu algumas perguntas pontuais para a revista o Viés.

revista o Viés: As eleições de 2010?

Luis Fernando Verissimo: Olha, não sei… não sei ainda. A candidata da situação, da continuação, vai ser a Dilma, né?! Não sei se é uma boa candidata. Acho que ela não tem muito carisma pessoal, como tem o Lula, mas vamos ver, seria a continuação do que está sendo feito.

: Escrever, desenhar, ou o saxofone?

LFV: Olha, se eu pudesse escolher seria a música. Mas agora eu não posso mais me dedicar exclusivamente, até porque não tenho nem mais fôlego pra isso. Mas se eu pudesse escolher, voltar atrás e escolher uma coisa só, seria a música.

: Projetos?

LFV: Acabou de sair um romance novo, chamado Os Espiões, foi a última coisa que eu fiz. (o autor relata que este romance foi o usado na campanha de arrecadação do Banco de Livros da Fundação Gaúcha de Bancos Sociais (ONG que centraliza doações de livros e os repassa para comunidades carentes). A meta da campanha era atingir 500 mil doações, e só então o livro de Verissimo seria publicado. Porém, após atingir a marca de 300 mil doações, Os espiões foi lançado.

: Qual a importância do pai, Erico, na sua vida?

LFV: Olha, foi importante na medida em que eu vivia numa casa que havia livros, em que livro era uma coisa importante, convivia com muitos escritores também. Mas pelo fato de ser filho de escritor talvez eu tenha evitado em ser escritor, comecei a escrever bastante tarde. Então, nesse sentido, a influência foi boa, mas também foi, de certa forma, negativa.

: Sobre a literatura nova, algum escritor tem impressionado o senhor?

LFV: Eu acho que desse pessoal novo, que nem é tão novo assim, o melhor deles é o Milton Hatoum. Gosto muito do nosso Moacyr Scliar também, que é muito importante.  Do Rubem Fonseca gosto muito também. Mas desses mais novos seria o Hatoum.

: Sobre a transferência do acervo do Erico Verissimo para o Rio de Janeiro, qual a sua opinião?

LFV: O acervo do meu pai estava na PUC, mas por questões de entendimentos e porque não tinha mais espaço onde colocar, nós fizemos um contrato com o Instituto Moreira Salles, que tem a melhor aparelhagem para fazer esse tipo de preservação de acervos. Então fizemos esse contrato de… não é de venda nem de doação… é de comodata.

: E quanto a média de leitura baixa entre os brasileiros?

LFV: Pois eu acho que isso está melhorando. A gente sempre fala que no Brasil só 30% da população pode consumir cultura, mas quando a gente fala de 30% da população do Brasil, está se falando de um país do tamanho da França. Mas como já dizia o nosso poeta Mário Quintana, “o pior analfabeto é aquele que sabe ler mas não lê”, né?! Tem gente que poderia ler, mas tem outros interesses… mas acho que está melhorando sim. Nós temos um mercado editorial bastante ativo. Editoras novas aparecendo, os editores, imagino eu, ganhando dinheiro e não estão se queixando… Quer dizer que aos poucos as coisas melhoram.

: Algum balanço sobre a Feira do Livro de Porto Alegre?

LFV: O pessoal está se queixando, que mudou muito, cresceu muito. Antigamente era uma coisa mais da parte social, a gente se encontrava com pessoas na Feira e tal. Mas não sei… isso mudou um pouco. Mas é uma Feira importante, tem uma tradição importante. Eu não sou contra o livro virar festa, um acontecimento social. Qualquer coisa que promova que promova o livro eu acho que vale. Mas as pessoas estão se queixando que ela cresceu demais, que está uma coisa meio festa demais.

: Alguma relação da Festa Literária Internacional de Paraty e da Jornada Literária de Passo Fundo?

LFV: Paraty é diferente, é mais virada para os escritores estrangeiros. Mas eu não sei se seria um modelo para Porto Alegre. E em Passo Fundo é um fenômeno, isso que eles conseguem fazer lá, que não chega a ser uma feira, né, mas sim uma festa do livro. É um feito fantástico da Tânia  [Rösing], que foi quem inventou e quem organiza. É uma mulher de valor.


O sábado chuvoso terminou com a finalização e apresentação dos 15 cartuns com a temática “O Riso é Livro”. Luis Fernando, repetindo o caminhar tranquilo, continuou perneando entre as pinturas dos artistas. A manhã não era mais cinza. Agora, os olhos não se voltavam exclusivamente para o céu, entre aborrecimentos verbais por mais um dia chuvoso. Havia um livro florido na tela de Luis Fernando Verissimo.

LUIS FERNANDO: PALAVRA E TINTA, pelo viés de Bibiano Girard, Liana Coll e Mathias Rodrigues

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