ENTREVISTA: FLÁVIO TAMBELLINI

O sol entrava forte pelas janelas do auditório da Prefeitura Municipal de Santa Maria, no sábado de manhã, dia 25 de setembro, o que fez com que todas as cadeiras da esquerda ficassem desocupadas. Nas demais estavam sentadas entre vinte e trinta pessoas que abriram mão de algumas horas a mais de sono no fim […]

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O sol entrava forte pelas janelas do auditório da Prefeitura Municipal de Santa Maria, no sábado de manhã, dia 25 de setembro, o que fez com que todas as cadeiras da esquerda ficassem desocupadas. Nas demais estavam sentadas entre vinte e trinta pessoas que abriram mão de algumas horas a mais de sono no fim de semana para escutar o cineasta Flávio Ramos Tambellini, que viera ministrar a palestra “Linguagem Cinematográfica e Projetos e Leis do Audiovisual”, trazida pela TV OVO em parceria com a Escola de Cinema Darcy Ribeiro, do Rio de Janeiro, onde Flávio é professor.

Falando com a propriedade de quem tem o cinema no sangue (além de ter o mesmo nome de seu pai, Flávio segue-lhe também a profissão), o diretor e produtor falou por mais de 12 horas, entre o sábado e domingo, sobre as grandes dificuldades e pequenos prazeres de se fazer cinema no Brasil.

O vasto currículo de Flávio incluem a direção de três longas-metragens Bufo & Spallanzani (2000), adaptação do livro de Rubem Fonseca; O passageiro – Segredo de adultos(2006), adaptado de uma obra de Cesário Mello Franco; e o novo Malu de Bicicleta, também uma adaptação, dessa vez do escritor Marcelo Rubens Paiva. “Malu”, como o diretor comumente o chama, foi premiado no Festival de Paulínia nas categorias de melhor direção, melhor ator (Marcelo Cerrado) e melhor atriz (Fernanda de Freitas), e na terça-feira (28) lotou o Cine Odeon, na Mostra Competitiva do Festival do Rio.

Tambellini tem um currículo ainda maior em se tratando de filmes que produziu. São mais de 20, em que se destacam sucessos como Os desafinados (2008), Mutum (2007), Cazuza – O tempo não pára (2004), Janela da Alma (2001), Eu tu eles (2000), Terra Estrangeira (1995) e Ele, o boto (1987).

Flávio começou no cinema como assistente de direção, tendo trabalhado em grandes filmes nacionais da década de 80, como Gabriela (1983), de Bruno Barreto, e O Beijo da Mulher Aranha (1985), de Hector Babenco, com quem voltaria a trabalhar em 2005, como produtor executivo de Carandiru.

Às vezes se confundindo no nome de alguns filmes e atores, algo muito natural para quem tem um conhecimento acumulado de quase três décadas de trabalho na área, Flávio Tambellini opinou durante os três turnos de conversa sobre diversas questões polêmicas, como a pirataria. “A pirataria também é publicidade para o filme, então acho que não há problema até o momento em que ela não suplante a visualização no cinema e que a cópia não coloque a perder todo o cuidado com som e imagem que o diretor teve”. Inclusive contou que um amigo seu, também cineasta, passava todos os dias em bancas de camelô à procura de cópias piratas de seu último filme. Afinal, se estava no camelô, é porque o público procurava.

Além de explicar o funcionamento de uma gravação, as funções de cada funcionário do ramo, todos os passos da realização de um filme (da concepção à distribuição) e opinar sobre as leis que movimentam a produção cinematográfica brasileira, Flávio contou curiosidades, como a que aconteceu nas gravações do filme Cazuza – O tempo não pára, em que toda a equipe teve que atrasar mais de três horas as gravações devido à agenda de um dos atores que aparecia em cena: o cachorro, que naquela noite tinha uma apresentação em uma peça teatral.

Em seus últimos minutos em Santa Maria, Flávio Tambellini deu uma rápida entrevista para a revista o Viés, em que fala sobre alguns de seus filmes, seus próximos projetos e suas expectativas em relação a Malu de Bicicleta:

revista o Viés: Como tu vês o trabalho do diretor e o teu trabalho como diretor?

Flávio Tambellini: Por acaso eu tenho feito muitas adaptações literárias, uma coincidência (ou talvez não, não sei). O próximo filme que eu pretendo fazer já é um roteiro original. E eu vejo como uma entrega total. Não tem como dirigir um filme se você não se debruça cem por cento dele. Ao contrario do que quando você produz, em que você ainda tem alguns espaços, o trabalho de direção é emergir no filme. Hoje eu aprendi, principalmente no “Malu de Bicicleta”, a entender a relação com o espectador. Acho que eu procurei fazer esse filme entendendo pra onde ele vai, qual é a resposta que ele vai ter, procurando sempre pensar em quem está assistindo ao filme.

: “O Passageiro – Segredo de Adultos” também é um roteiro adaptado?

FT: “O passageiro” é adaptado, mas é uma situação sui generis, porque eu recebi o livro antes dele ser lançado. O livro foi lançado depois do filme e aconteceu que o livro acabou pegando algumas coisas do filme. Eu gosto de roteiros que vêm de livros porque eles te dão uma chance de desenho de personagens mais delineado, sabe, a estrutura dramática dos personagens. Porque eu acho que uma das coisas mais difíceis quando você faz um roteiro original é desenhar os personagens. No roteiro adaptado, mesmo que a história você mude, os personagens já vêm prontos, e isso é um grande adianto.

: Como foi o teu trabalho como documentarista, como nos documentários “Visão do Paraíso – A Mata Atlântica vista por Tom Jobim” e o “Paraty: Mistérios”?

FT: Eu adoro documentário. Eu tinha feito um curta antes com o Tim Maia, que não é bem um documentário, mas é algo assim… O que eu gosto do documentário é a equipe mínima e também de você poder ir no desconhecido. Apesar de você ter que ter um conceito e ter que saber o que quer, o documentário te dá muito esse retorno de não saber direito o que vai achar. Isso é fascinante.

: E o teu curta com o Tim Maia? Como surgiu essa ideia?

FT: Olha, eu era fã do Tim Maia e na época ele era um louco recluso, que não dava entrevistas e não aparecia em televisão. Eu tinha a idéia de fazer esse curta dele e tínhamos alguns amigos em comum, que tinham acesso a ele. Conheci o Tim e a gente fez um filme em um ano. Para filmar cinco dias a gente demorou um ano. Eu criei uma intimidade com ele. Eu ia na casa dele, ficava ouvindo ele contar histórias dele, então na hora da gente filmar, já tínhamos uma proximidade. O curta acabou sendo o único registro filmado do Tim, não tem mais nada. Já o do Tom Jobim, foi o Walter Salles que me chamou para fazer esse filme, e acabou sendo também um último registro. O Jobim acabou morrendo logo depois. Eu só lamento que o filme não tenha sido mais veiculado.

: O documentário “Janela da Alma”, do qual tu foste produtor, tem muitos nomes de peso. Gostaria de saber como chegaram a essas pessoas? Saramago, Wim Winders…

FT: Pesquisa. Conceito. O que que é o filme? Sobre o que a gente vai falar? Sobre o olhar? Mas como? Como a gente vai desvendar isso? Vamos pegar uma pesquisadora e vamos desvendar coisas que tenham a ver com o olhar, pessoas. Foi surgindo. Saramago, Wim Winders, que tem uma miopia extraordinária. Dentro de um tema que aparentemente era totalmente fechado e difícil a gente foi criando, mas com muito trabalho. E também a gente poderia ter desistido. “Ah, filmar o Saramago? Ta louco!”, “Filmar Wim Winders?”. Mas a gente não desistiu. E esse filme tem a mesma história: a gente não esperava, e de repente esse filme foi visto por quase duzentas mil pessoas, o que era bastante pra época. E não era daqueles “Tom & Vinícius”, aqueles documentários que tinham ficção no meio. Era um documentário bruto e deu certo.

: Como professor de cinema, vendo as pessoas que estão entrando agora, o que tu vês para o futuro do cinema nacional?

FT: Eu estou bem animado, pois é um outro perfil. São pessoas que ao mesmo tempo em que querem fazer cinema, estão preocupadas em estarem preparadas para fazer cinema. As pessoas dessa nova geração querem estudar, querem fazer edição, querem saber disso. Não é mais simplesmente aquele “Quero fazer cinema, vou entrar nessa aventura”. Ao mesmo tempo tem muita busca por roteiro. As pessoas querem ser roteiristas, querem estudar roteiro, e eu acho isso muito bacana. Outra coisa: na escola Darcy Ribeiro, o que eu acho muito maneiro é que tem muita gente de comunidades, favelas. A cinema não está mais só nas mãos da elite, sabe? Tem muita gente querendo fazer cinema, e temos que criar um espaço para isso. Mas hoje tem toda a área do audiovisual, também…

: E o trabalho da tua produtora?

FT: A gente está com vários projetos em andamento. Estou com um filme de humor rasgado agora, que é o Agamenon, um personagem que o Casseta & Planeta criou pra Globo. É legal porque é um humor muito mais politicamente incorreto. Sabe?. Estou com um projeto meu, chamado “Roubo da Chácara do Céu”, em que serei o diretor. É uma ficção doida que fala sobre roubo de arte, baseada num roubo de arte que teve no museu da Chácara do Céu, no Rio. E a gente criou uma ficção doida que fala desse universo de Lapa, Rio de Janeiro, Santa Teresa, dois gringos que são ladrões de arte… é um filme que acho que vai ser interessante. E temos um documentário que estamos lançando, “O Diário de uma Busca”. Tem um outro filme que também está no Festival do Rio, que é o Rio Sexy Comedy, que a gente co-produziu, dirigido pelo Jonathan Nossiter, que é um cineasta que se naturalizou brasileiro. Então temos várias coisas em andamento. Vamos ver…

: Como produtor, tu já trabalhaste com vários diretores. Tem algum desses trabalhos que te agrade mais?

FT: Quando eu produzi “Terra Estrangeira”, com o Walter Salles e a Daniela Thomas foi um trabalho bacana.  O Walter estava saindo de “A grande arte”, que foi um filme que não aconteceu, então ele resolveu fazer um filme pequenininho e aí que ele deu uma virada na carreira dele, então foi um trabalho bacana de fazer. Eu gosto de trabalhar com primeiros diretores, primeiros filmes dos diretores, sabe? Então “Eu tu eles”, com o Andrucha Waddington foi maneiro. “Copo de Cólera”, com a Aluísio Abranches, em que eu escrevi o roteiro, também. E diretor veterano, eu tive uma identificação grande com Walter Lima Jr quando a gente fez “Ele, o boto”, pois com ele eu descobri a brasilidade. O Walter me trouxe uma coisa bem de Brasil. O processo de fazer o filme é mais importante do que acontece com o filme depois. Saber curtir aquela aventura do filme. “A Ostra e o vento” foi um filme que me marcou bastante, pois a gente gravou em alguns lugares super inacessíveis. Então tiveram vários trabalhos.

: Como é o teu trabalho com atores?

FT: Eu acho que trabalhar com ator é onde está a alma de tudo. Eu percebi que os grandes atores são os mais simples. O primeiro filme que eu fiz, como assistente de direção, foi o “Gabriela”, do Bruno Barreto, que era com o Marcelo Mastroianni, e eu convivi muito com ele, e o cara era de uma simplicidade extraordinária. Já trabalhei com a Fernanda Montenegro, e foi super fácil também de lidar. São pessoas humildes no bom sentido. Tony Ramos também foi um ator bacana de trabalhar.. Então quando eu vejo atorzinho que está começando cheio de marra, fico pensando… Eu também gosto de lançar gente nova, sabe? No próprio Malu, a Fernanda de Freitas é muito maneira, tem uma garra.

: O Malu de Bicicleta é um dos filmes mais esperados do Festival do Rio. Quais são as tuas expectativas em relação a ele?

FT: Esse é um filme que tem me dado alegria. A gente fez esse filme bem tranqüilo. No início o filme era pra ser de orçamento maior e a gente acabou recebendo um edital de baixo orçamento e eu consegui alguns recursos adicionais. Foi um filme feito com muita garra. É meio clichê isso, mas a equipe foi muito unida: os fotógrafos, ao atores, todo mundo. E é um filme que tem dado certo, porque eu nunca tinha feito nenhum em que eu já tivesse a distribuição garantida antes, e dessa vez isso aconteceu. O filme ficou pronto e saiu do laboratório para o Festival de Paulínia, onde ganhamos prêmios de melhor diretor, melhor ator e melhor atriz. Em seguida o Festival do Rio, que geralmente não trabalha com filmes que não sejam inéditos, chamou o filme para a competição. Então o filme está caminhando com as próprias pernas. Em relação ao Festival do Rio estou tranqüilo por sentir que o filme já tem uma relação com o público, mas não estou preocupado em com prêmios. O filme também foi convidado para o Festival de Cuba, e isso foi muito inesperado. A Globo Filmes entrou com apoio no lançamento, o que é ótimo no sentido de ampliar o leque do filme sem nenhuma interferência, já que já está pronto. Enfim, é um modelinho que estou curtindo.

ENTREVISTA: FLÁVIO TAMBELLINI, pelo viés de Felipe Severo

felipesevero@revistaovies.com

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