LATINOS: SILVESTRE PECIAR, EL PERIODISTA

A proposta da Escola era intervir dentro da gente. Se você gosta de gravuras, bom, leva por uns vinténs, não é como ir ao museu e ver isso como algo sacralizado.

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Silvestre Peciar é mais conhecido como um escultor uruguaio. Começou pintando e fazendo gravuras, as quais vendia por alguns vinténs. Saiu do Uruguai em 1975 por causa da ditadura, e apareceu no Brasil, em Santa Maria. Por aqui ficou 23 anos, deu aulas, revolucionou os métodos de avaliação do curso de Artes Visuais na Universidade Federal de Santa Maria, e hoje, aposentado, morando em Montevidéu, expõe suas obras mantendo o ideal libertário, o mesmo que o fez participar da Comunidad del Sur, uma comunidade anarquista uruguaia. A entrevista foi mantida com as falas originais do artista, sem cortes e sem as perguntas.

Vendíamos, por exemplo, um prato de comer, e a arte ia de contrabando, não cobrávamos pela arte.


HISTÓRIA E POLÍTICA

Era o ano 1975, nós tínhamos lá [Uruguai] dois anos de ditadura muito dura, realmente. A oportunidade que se apresentou foi vir para o Brasil e entrar em contato com a Universidade [UFSM]; apresentei currículo e me contrataram como professor visitante. No começo ensinei serigrafia, depois ensinei escultura. Trabalhei aqui por 23 anos.

Primeiro me senti muito bem, muito cômodo, porque podia ensinar, podia fazer meu trabalho ainda que aqui a democracia  também não estivesse de todo imposta. Eu sentia uma diferença muito grande, sabe, por que o terror de Estado é coisa dramática. Aqui, ninguém me torturava, ninguém me perguntava nada, então, isso foi muito bom para mim. Consegui fazer, primeiro, o ensino, e depois, meu trabalho.

Aqui estava a ditadura de Geisel, depois Figueiredo, mas eram tempos de abertura, essa a era a grande diferença do que passava no Uruguai. Por isso me sentia melhor, tranqüilo. Politicamente eu estava neutralizado, digamos assim, eu sabia que não poderia sair na rua gritando pela reforma agrária. Aceitei um pouco essas condições e, claro, foi um alívio estar aqui. Havia muita tensão, eu tinha muitos amigos mortos, presos, que ficavam doentes.

Eu estava, como todo mundo, eu posicionado politicamente pela liberdade e pela igualdade e isso começou a ser espionado pela força que estava no poder, a militar.

Eu participei da Comunidad del Sur e a vi nascer [no Uruguai]. Tive muitos amigos por lá e trabalhei para eles muitas vezes. A última já era época… era pré-ditadura, de fato era uma ditadura, Pacheco Areco era presidente. Aí eu trabalhei na imprensa e fiz ilustrações de livros infantis, e tinha uma escolinha para crianças, esta foi minha participação aí, porém, tive que ir embora também porque a Comunidad del Sur foi perseguida violentamente. E eles tiveram que ir embora, isso foi em 1972, 1973.

Aí foram [integrantes da Comunidad] para Buenos Aires, foram para o Peru, e aí no Peru o pessoal se juntou de novo e veio outra ditadura militar e tiveram que migrar. Foram parar na Suécia, então, como estavam muitos na Suécia, trataram de reconstruir uma comunidade lá e depois voltaram quando ouviram a democracia no Uruguai, em 1985, mais ou menos.

Bem, eles tinham princípio libertário. Libertário-anarquista. Então eles tinham uma experiência, demonstrando que existia outra forma de relacionamento social produtivo. Eles tinham a imprensa, trabalhavam na terra, no ensino, e faziam o trabalho comunitário de agrupar gente. Chegaram a até quase cinqüenta membros, ou seja, tem uma importância no contexto, ainda que uma minoria, mas estavam vivendo de uma forma muito diferente. Tinham suas coisas em comum, todos se regiam por essas leis. Não tinha chefe, não tinha hierarquia, enfim, fizeram um trabalho e estavam livres.

Acredito em um ideal libertário. Quando eu comecei, como estudante, a por o nariz nas questões políticas, o mundo estava dividido. Por um lado estava na Rússia o Stalin, nos EUA estava McCarthy, outro perseguidor, na igreja católica estava o Papa Pio XII. Então, quando conheci as opções eram as de ser libertário, ou ser socialista, ou ser sindicalista, começava por aí. Nós estávamos na Terceira Posição, não estávamos nem com Rússia, nem com EUA.

Era possível [a Comunidad del Sur em âmbito nacional], era opcional, por exemplo, a comunidade se relacionava muito com Artigas, onde havia muitos brasileiros e com o contato, o conhecimento mútuo, alguns passaram para a comunidade, viveram nessa comunidade, era um momento de grande efervescência, porque por todos os lados havia uma necessidade de troca, porque a democracia liberal, “aquela”, não funcionava mais, e a repressão havia começado muito forte. Então aí nascem a Comunidade da Federação Anarquista Uruguaia, nascem os Tupamaros, nascem outros grupos guerrilheiros e os partidos se dividem e se juntam, enfim, havia uma grande efervescência, a política estava na rua.

Hoje, o presidente Mujica, um Tupamaro. Eles estão fazendo um trabalho que se pode qualificar de social democracia. Olha, tem coisas que são feitas a favor do povo, da igualdade, não podemos estar contra isso. Agora, nós libertário não acreditamos em um messias, acreditamos que o movimento tem que começar na base, entre todos iguais. Procuramos soluções para consolidar isso. Hoje, no Uruguai, estão todos esperando o governo, o governo está tratando um pouco paternalmente, sabe, está solucionando o problema, porém, no fundo a coisa continua, mas é assim, a luta é assim.

A ARTE

Primeiro fui estudante em Bellas Artes, aí, realmente, era um pouco libertário. Esse pouco libertário luta por um novo currículo, uma nova forma de ensino. Isso se conseguiu lutando contra todo mundo, como se diz, porque inclusive a esquerda nos combatia, a direita nem se fala. Depois um capítulo de trabalho independente em arte, e sempre vinculado a Escola Bellas Artes. A escola fez coisas, no sentido de discussão, muito grandes, não fazíamos exposições, vendíamos gravuras por alguns vinténs. Vendíamos cerâmica para uso cotidiano, também por pouco dinheiro. Vendíamos, por exemplo, um prato de comer, e a arte ia de contrabando, não cobrávamos pela arte. Então, a Escola teve uma atuação muito grande no meio e na Universidade também. Foi combatida porque nos confundiam com o movimento guerrilheiro, e não éramos; os Tupamaros eram outra coisa.

São muitas influências. Por exemplo, Goya, é um indivíduo que coloca seu posicionamento político na arte, lutando contra a Invasão Francesa, ele faz com arte o que ele pensa que qualquer um pode chegar a pensar, porque ele luta pela liberação. Depois dele têm muitos que assumem um compromisso com o câmbio de cultura, contra uma questão burguesa, de mercado, de coisas assim, sabe. Por isso que as [nossas] coisas da Escola era entregues por preços baixos, teve repercussão no público muito grande.

No começo me formei como pintor e ainda faço gravuras, faço pinturas também, depois me inclinei mais para a gravura. Essa é uma peça minha:

Eu estava refugiado no Brasil e tive notícias de lá [do Uruguai]. Sabia que a tortura era coisa muito séria, morriam pessoas, mulheres que estavam grávidas eram torturadas. As mães que tinham crianças eram separadas delas na prisão. Casualmente em um livro, ainda não li, acaba de aparecer, que conta sobre as crianças que nasciam no presídio, as crianças que foram roubadas, as crianças que ainda hoje não se sabe onde estão. Essa, a brutalidade do terror do Estado. Então, eu tentei tomar uma atitude, não fazer uma escultura só pela escultura, bem como um jornalista de seu tempo. Goya era um jornalista de seu tempo. E, então, eu assumi fazer um jornalismo com as notícias que me chegavam, não uma fotografia da situação, mas uma interpretação subjetiva do que estava passando [expressionismo]. A mulher torturada para mim é uma monstruosidade, eu queria registrar. Esta [acima], por exemplo, está no chão, o que seria a visão do torturador que vê a mulher que está torturada. Trabalhei esse tema, sabe, procurei dar forma sem chegar ao descritivo, superando o literário.

Hoje estou aposentado, tenho muitos anos. Quase 53 anos ensinando, então senti o cansaço. Eu estou vinculado, têm grupos libertários, temos uma revista que se chama Alter, que já tem 11 números, uma boa revista. Estou vinculado com um grupo de artistas, estou com essa exposição agora, porque afinal me convidam, querem ver meu trabalho e eu faço uma amostra, que não era a proposta que tinha na Escola. A proposta da Escola era intervir dentro da gente. Se você gosta de gravuras, bom, leva por uns vinténs, não é como ir ao museu e ver isso como algo sacralizado. Eu trabalhei a gravura como um elemento seriado, o que facilita muito, porque qualquer um pode comprar, imagina se um jornal publicasse gravuras de Picasso todos os dias.

[A arte contemporânea] Bom, aí a coisa começa a complicar, porém, o seguinte, a arte contemporânea… na realidade somos todos contemporâneos, porém tem algumas atitudes que são… Uma [arte] é contemporânea e a outra tradicional. Eu faço esculturas, sou um tradicional. Como aquele livro de Fernando Pessoa, O Banqueiro Anarquista, BANQUEIRO, não é, mas não importa, nós anarquistas estamos cheios de contradições.

SILVESTRE PECIAR, EL PERIODISTA, pelo viés de Caren Rhoden.

carenrhoden@revistaovies.com

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  • http://quemsera.wordpress.com/ André Luiz

    Bah Caren, grande entrevista. Deve ter sido muito interessante ouvir uma pessoa falar dessas coisas, com conhecimento de causa. Ele parece ser muito sensato também; talvez seja pela velhice… mas não muda o fato. Boa matéria. :]

  • Graça Garcia

    Mais novo que muito “jovem”…