Música é arte e o exílio é contraditório

Um pouco da arte e da vida do compositor gaúcho que dividiu sua trilha sonora com Mercedes Sosa, Beth Carvalho e Elis Regina.

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Raul Ellwanger pela lente de Joana Carolina.

O poeta, jornalista e escritor brasileiro Nei Duclós, nascido em Uruguaiana, disse que Raul Ellwanger “é outra prova de que a canção no Brasil continua firme, lutando por mais chance de aparecer, no lugar dessa caterva sinistra que toma conta de todos os espaços”.

Raul é um artista de inacreditáveis, ou, corrigindo, impressionantes passagens de vida: cantou, lutou (literalmente) contra a Ditadura brasileira, foi exilado e hoje vive à beira mar no estado de Santa Catarina, mesmo tendo Porto Alegre eternamente no coração e na saudade cotidiana. Para os desavisados, Ellwanger pode ser encontrado em centenas e mais centenas de discos além dos próprios. O compositor gaúcho dividiu a trilha sonora de sua vida com vozes extraordinárias: Mercedes Sosa, Beth Carvalho e Elis Regina estão na imensa lista.

Raul concedeu esta entrevista à revista o Viés durante os primeiros dias de 2012. Músico incansável, militante social e um cara de bem com a vida, o porto-alegrense já entrou para os anais da história da música popular brasileira e da Frente Gaúcha da Música Popular Brasileira, movimento apresentado por ele mesmo que buscava unir músicos, profissionais liberais e poetas num levante de equiparação à MPB que se fazia pelo sudeste, após mais de 40 anos de carreira e vários prêmios recebidos. Mas não são os prêmios, mesmo com sua importância, que revelam porque Raul entra na nossa história como um expoente da boa música composta e cantada. Seu legado cultural deixa aos ouvidos e aos sentimentos de quem conhece sua obra uma satisfação de poder sentir a alma de um abissal e inteligentíssimo artista. “A gente procurava ter uma personalidade própria dentro do grande universo da MPB, já na década de 60. Não fazendo música campeira, mas dialogando com ela”, disse uma vez (segundo o texto “Um entalhador de canções”, de Carlos Hahn). Cantar os versos aguerridos da canção O gaúcho, como “Pelo amigo dou um braço, pra mulher um doce abraço, pros milicos trago estrago, pro inimigo outro balaço”, enquadraram o músico na Lei de Segurança Nacional. Da música feita sobre as pedras do mar de Santa Catarina na década de 1960 em plena revolução cultural, às parcerias e ao exílio, Raul nos conta um pouco de tudo logo abaixo. Raul Ellwanger é o LATINO especial desta semana da revista o Viés: boa leitura!

 revista o Viés: Raul, como começaste tua vida artística ligada à música? Data da década de 1960, correto? Tu estudavas? Onde? Como começou literalmente a se envolver com a arte?

 Raul Ellwanger (RE): Desde criança toquei e cantei. Na faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre, em 1966, fizemos um xou. Foi legal. Comecei a compor imitando o pessoal dos Festivais da Record.

: Qual(is) foi(ram) o(s) motivo(s) para o teu exílio na década de 1970?

RE: Eu participava do Movimento Estudantil, de Diretórios Centrais Estudantis (DCEs), de Congressos da União Nacional dos Estudantes do Rio Grande do Sul. Passei a militar na Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR/Palmares) e trabalhava no escritório de advogados trabalhistas de Carlos Araújo (ex-marido da atual presidente da República Dilma Rousseff). Fizemos algumas greves sem fim durante os anos de 1968 e 1969 nos cordões industriais da Avenida Assis Brasil, do Bairro Navegantes e da BR-116 (Porto Alegre).

Estudar na Universidade do Chile e na Universidade Nacional de Buenos Aires estiveram entre suas atividades realizadas durante o exílio…

RE: Estudei Sociologia na Universidade de Concepción (sul do Chile), na Universidade do Chile, em Santiago, e na Universidade de Buenos Aires (na capital portenha). As três truncadas. Também estudei 4 anos de Composición y Regência no Conservatório Manuel de Falla de Buenos Aires.

Como era para ti cantar em Peña de los Parra, Santiago, La Plata e outras cidades estando fora do país de origem? Guardas bons e maus momentos da época ou tens um único sentimento quanto ao exílio? Se sim, qual?

RE: A parte musical é sempre alegre e prazenteira. Também cantamos em atos pela democracia no Brasil, já em 1971, na Peña. Aprender a música dos outros é maravilhoso. Já o exílio é contraditório. A gente sente a perda a cada minuto, até do gosto de um prato típico se sente falta. A solução foi integrar-se no país em que se vivia e ter uma vida normal, intensa como a de qualquer jovem: jogar pelada, trabalhar, namorar, militar.

Como aconteceu, naquela época, teu encontro com o mineiro Wagner Tiso?

RE: Pessoalmente, só conheci o Wagner já no retorno a Porto Alegre, quando ele arranjou dois temas de meu primeiro disco (Teimoso e Vivo, de 1979, pela Isaec – Porto Alegre).

Elis Regina, quiçá, foi a maior cantora que o Brasil já teve. Como a conheceste? Como ocorreu essa parceria? Era uma relação apenas profissional ou também de amizade?

 RE: Era fã dela desde criança. A conheci em Porto Alegre, no  meu  retorno, quando ela fazia a temporada de Transversal do Tempo (sexto álbum da cantora, gravado ao vivo no Teatro Ginástico, no Rio de Janeiro, entre os dias 6 e 9 de abril de 1978).  Ao preparar o lançamento de meu disco em São Paulo a convidei para gravar um tema, ela topou. Foi muito emocionante, bonito e importante.

Discos gravados, trilhas para novelas e trilhas para o teatro. Um disco inteiro ou a trilha de uma peça ou novela: qual dos três é mais trabalhoso? Qual dos três é mais prazeroso?

 RE: O maior prazer é compor canções. Sem distinção de projetos.

O disco “La cuca del hombre” representa o quanto para ti?

 RE: Foi como uma espécie de resgate: voltar ao país de onde saí numa época pesada e estar junto a seus melhores músicos e pessoas.

Como foi dividir canções com Mercedes Sosa, León Gieco, Pablo Milanés e Domingo Cura?

RE: Uma honra, um prazer, uma massagem de auto-estima.

Destes, o único ainda vivo é León. Vocês mantêm contato? Gieco esteve presente na gravação do “Boa Maré”. Vocês são amigos?

RE: Domingo morreu com honras: sobre o cenário, tocando (o percussionista morreu na madrugada de 14 de novembro de 2004 em um teatro de Buenos Aires. O músico morreu diante da plateia). O Pablo está vivo, estive com ele ano passado no Bicentenário da Argentina.

Com León e família sou amigo pessoal, independente da música. Gravamos para esse disco (Boa Maré) no estúdio em Itajaí (SC). León é uma pessoa bondosa, solidário, amigo, fora da vida de superstar.

Mercedes Sosa: quem era esta mulher na tua opinião?

RE: Não saberia responder. Muito misteriosa, forte e frágil. Sofrendo por si e pelos outros. O que importa: seu canto monumental, uma voz maravilhosa, original, seu fraseio indígena semeando canções rigorosamente escolhidas por um coração generoso e uma cabeça sensível, privilegiada.

Assim como já afirmado, tu tiveste muitas parcerias, digamos, “de peso artístico” inigualáveis. Tanto Elis quanto Sosa foram ativistas além de cantoras. Gieco até hoje canta a voz da América Latina. Tu te colocarias neste grupo de músicos engajados com alguma causa, seja ela política ou de outro cunho (mesmo que tudo faça parte da causa política)?

RE: Aqui na América Latina tem uma vertente de cantautores de compromisso com a terra, com seu povo, com sua cultura e com sua história. É uma das vertentes, como há outras válidas. O carimbo “comprometido” não garante a qualidade artística de nada.   Creio que nas minhas autorias sempre transpira o sentimento que tenho, as idéias ou fantasmas políticos que tenho comigo. Por outro lado, definitivamente não suporto musica “política”, como detesto música comercial, música ruim, sertanojo, pop/business. Musica á arte.

A que tu atribuis tuas dezenas de parcerias? Vem de ti as iniciativas de montar companhias musicais ou és mais convidado?

RE: Dois sempre é mais que um… Se eu puder compor com alguém melhor que eu, saio no lucro. Mas não faço “armações”, isso de se ligar com gente “importante’ para fazer “alpinismo”. Nos meus discos tem muito convidado pouco conhecido. Quando Xavantinho e Pena Branca gravaram o “Terno da Estrela-Guia (de Raul e Luiz Coronel)” eram serventes de obra em Guarulhos.

Tu te sentes um músico mais redondamente Latino-Americano, por tantos shows e discos internacionais, do que exclusivamente um músico brasileiro?

RE: Diria que sou um MPB do sul com muita fronteira na cachola e no bobó.

Muitos blogueiros, jornalistas, críticos e nativistas chamam “Pealo de Sangue” como “um dos possíveis hinos do Rio Grande”. De quando data a letra, tu lembras? Em que momento da tua carreira Pealo surgiu? E na tua opinião, seria ela tua melhor composição?

RE: Compus Pealo sentado na cama de meu apartamento em Porto Alegre logo ao chegar do exílio e antes de gravar meu primeiro vinil, “Teimoso e Vivo”. O detalhe interessante: compus de uma sentada só, o que é quase um caso único  em mim.

Têm circunstâncias que ajudam [na popularização da letra]. No caso, a canção foi usada numa propaganda de TV de fim de ano muito emotiva. Há muitas canções maravilhosas que ficam anônimas! Depois que todos gostavam foi escolhida entre as dez mais e etc.

Com Pealo tu reconstróis o cenário dos gaúchos dos pampas, da saudade do rancho e dos lambaris cutucando os pés. Nascido em Porto Alegre, como (ou quando) tu tiveste contato com o horizonte rural, com o cotidiano do homem do campo?

RE: Sou neto de 4 migrantes ou alemães ou missioneiros. Menino e jovem convivi diversos momentos no campo. Diria que construo um sonho de um “campo melhor”, e não reconstruo o cenário estabelecido.

Raul: se tivesses que indicar uma música tua para os leitores da revista o Viés que ainda não conhecem teu extenso trabalho, tu terias uma favorita?

RE: Neste momento estou enamorado do novo disco “País da Liberdade” (é o novo disco de Raul Ellwanger, com 12 canções de León Gieco e parceiros vertidas ao português. Há a participação de León em voz e harmônica e de Renato Teixeira na canção “A cultura é um sorriso”); ali está o “Rio e Mar” que acho linda, ele na voz e a harmônica comigo.

Dos tantos poetas dos quais musicastes poemas, como Carlos Nejar, Quintana e Ferreira Gullar, muitos estão atualmente no espectro nacional de nossos poetas gigantes. Como tu te sentes de ter na carreira as palavras destes homens tocadas por ti?

RE: Sinto a esperança de ter feito canções bonitas, respeitosas e acrescentadoras a eles. Eles, como Elis/Mercedes/Paulinho Tapajós/Jerônimo Jardim/Pery Souza, deram-me diamantes sem nada pedir em troca.

Pablo Neruda é leitura de regozijo para ti?

RE: A poesia de Pablo me encanta.  Quem escreveu “Crepusculario” aos 19 anos é craque. Em 2011, li o Canto General, que é bem grandinho… Mas a autobiografia de Pablo Neruda eu não gosto, é autocomplacente. Gosto da de Luis Buñuel, autorasgante!

A comunidade internacional de solidariedade a Cuba, através da Associação Cultural José Marti do Rio Grande do Sul, participa da campanha pela soberania da ilha. A música “Como Las Estrellas” foi uma das manifestações artísticas de apoio. Como tu analisas o atual processo pelo qual passa o país após a saída de Fidel do poder?

RE: Cuba é uma estrela que ilumina minha geração, um caminho próprio, com grandes conquistas sociais apesar do bloqueio que hoje pode-se chamar de lesa-humanidade.  Dentro de seu sistema representativo tão bom ou ruim como o nosso, estão dando tratos à bola de como seguir adiante seu processo nacional, com problemas agravados pela conspiração permanente do exterior.

Raul, dos cantores contemporâneos e dos mais atuais de nossa América Latina, tens te interessado por alguém? Na literatura, algum nome em específico está em tua estante de leituras?

RE: Na música: Do Chile, o grupo “Congreso” e a cantora “Magdalena Mahtey”. Na Argentina, Cecília Pahl, Liliana Herrero, Raul Carnota, Tereza Parodi, Fabian Meza. Chondi Paredes do Paraguay. Abel Garcia e Walter Bordoni do Uruguay. Fabíola José da Venezuela.

Poesia com Atílio “Macunaíma” da Cunha (jornalista e poeta) e Washington Benavidez do Uruguay, Raul Gonzáles Tuñon na Argentina. Osvaldo Soriano, Mempo Giardinelli, Antonio Skarmeta, Brice Echenique e todos os clássicos de Arguedas (José María Arguedas, escritor e antropólogo peruano), Marquez [Garcia], Arregui [Mario], Alegria [Ciro], Rulfo [Juan], Llosa [Mario Vargas], Borges [Jorge Luis], Scorza [Manuel], Bauzá [Francisco], Espínola [Francisco], Hernandez [Miguel], Quiroga [Horácio], Busaniche [José Luis].

: Para terminar, deixamos um espaço para que escrevas o que quiseres:

RE: Agradeço o convite, espero contribuir com os leitores e com o esforço de vocês colocando na roda um trabalho cultural importante. Abraços e sucesso.

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Música é arte e o exílio é contraditório, pelo viés de Bibiano Girard.

@bibianogirard/bibianogirard@revistaovies.com

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