“A MÚSICA VEM ANTES DA INDÚSTRIA, SACOU?”

Em entrevista, BNegão, ex-vocalista e letrista do Planet Hemp, músico versátil e crítico voraz, fala um pouco de suas raízes musicais e ideias políticas. Funk até o caroço!

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Da identificação estética com o Hip Hop e ideológica com o Punk, ainda nos anos 80, o carioca Bernardo Santos, o BNegão, vem traçando uma trajetória musical extensa e singular. Um dos ex-líderes da banda Planet Hemp, que nos anos 90 marcou uma geração ao transitar entre gêneros musicais marginais – ou nem tanto – e ir fundo em assuntos delicados, especialmente a legalização da maconha, e na crítica social.

No dia 27 de janeiro, em meio às atividades do Fórum Social Temático que ocorria na Grande Porto Alegre, apresentou-se em São Leopoldo, ao lado da banda Autoramas, cujo baterista, Bacalhau, é também um dos fundadores do Planet Hemp. BNegão se define como “um cara de baixo que foi lá para cima”, e realmente fez jus à definição. Depois de se apresentar, curtiu junto com a plateia os shows seguintes, de DeFalla e Mundo Livre S.A., como um espectador comum, com a diferença de que subiu ao palco mais duas vezes, para participar de canções em ambos os shows.

BNegão é um artista múltiplo e um homem de vanguarda. Mais de uma década antes do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso resolver quebrar tabus e reconsiderar a questão da maconha, a banda da qual era líder já chocava moralistas de plantão com músicas como “A culpa é de quem”, “Legalize Já”, “Não Compre, Plante” e “Mantenha o respeito”. As críticas e a posterior prisão dos membros do grupo, em 1996, em função de uma nebulosa categoria do Código Penal brasileiro chamada apologia, que conforme os interesses daqueles que detêm o poder, serve para relativizar a liberdade de expressão, suscitaram discussões no país inteiro. Tanto a versatilidade quanto a acidez crítica presentes nos três álbuns que ficaram de legado dos tempos do Planet resistem e se reinventam no trabalho de BNegão.

O primeiro álbum do Planet Hemp, sintomaticamente intitulado “Usuário”, foi lançado em 1995, e marcou pela falta de papas na língua e pela mistura inédita de hardcore, rap, riffs de guitarra funkeados e até um espacinho para o samba, num prenúncio dos rumos que os dois líderes da banda, BNegão e Marcelo D2, tomariam dali para diante. Paralelamente ao Planet Hemp, BNegão participava da banda Funk Fuckers, que também enveredava por esse caminho musical, com um pouco mais espaço para o suingue, a ironia e a batida eletrônica do Miami Bass, como ficou registrado no álbum “Bailão Classe A”.

Enquanto o Planet provocava o ódio dos conservadores, ao obter projeção criticando abertamente a hiprocisia de uma nação que presenciava a apoteose do discurso neoliberal, musicalmente abria espaço para as experimentações com os samples do Hip Hop, o samba e a bossa, no sólido álbum Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Para (1997). Esta experiência foi além e incorporou o dub e o reggae no último álbum de estúdio, “A Invasão do Sagaz Homem-Fumaça” (2000), enriquecido ainda pelos scratches do DJ Nuts, pelo vocal de Seu Jorge e pelos teclados de Daniel Ganjaman, além da produção impecável de Mário Caldato. Se o último registro do Planet, o cd e dvd “MTV Ao Vivo”, gravado em 2003, foi um retorno às origens – só com guitarra, baixo, bateria e vocais -, BNegão seguiu abrindo e revisitando caminhos.

Abri o caminho por onde você faz o seu passeio“. O verso é do ex-companheiro de Planet Hemp, o niteroiense Black Alien, mas se aplica perfeitamente à arte de BNegão. Nas diversas bandas e projetos nos quais se envolveu, BNegão exerceu a habilidade de transitar, experimentar e encontrar – ou, quando necessário, forjar – elos entre estilos que, aparentemente, poderiam ser tomados como antagônicos. Depois do Planet, o trabalho com a banda Os Seletores de Frequência resultou no álbum “Enxugando Gelo”, lançado em 2003, um registro dominado pelo funk (até o caroço, como diz o verso de uma das principais canções), mas com espaço para o dub, o rap – com a participação especial do lendário rapper Sabotage na faixa “Dorobô” -, o ragga, o ska, em um resgate da música jamaicana que serve de base à faixa-título, o hardcore e a psicodelia. Além disso, “Enxugando Gelo” foi o primeiro CD lançado comercialmente  no Brasil a ser totalmente liberado para download e receber uma licença Copyleft.

A atitude para denunciar a repressão policial em “Porcos Fardados”, com o Planet, ou uma década depois, no hardcore pesado “Qual é o seu nome”, com os Seletores, também foi necessária para sustentar, em 2007, outro projeto e outro registro peculiar: das experiências com o Miami Bass, ritmo eletrônico parente do rap tradicional e que está nas raízes do funk carioca, surgiu o projeto Turbo Trio, que naquele ano lançou o disco Baile Bass. O timbre de voz rouco, a versatilidade natural e a experiência de um carioca que gosta de samba, de rap, de reggae, de hardcore – enfim, de música – permite a BNegão romper barreiras musicais e participar de diversos projetos e de inúmeras gravações de outros artistas, como Curumin, Instituto, A Filial, Stereodubs, entre outros.

Entrevistamos o BNegão após a apresentação com a banda Autoramas em São Leopoldo, e ele nos contou, em seu carioquês característico, um pouco sobre suas raízes musicais e suas motivações políticas. A entrevista foi realizada no intervalo entre a apresentação de BNegão e Autoramas e a da banda gaúcha DeFalla, da qual BNegão é fã declarado. Sabemos que o processo é lento, mas, como diria o próprio, vamo que vamo que o funk não pode parar.

Reação (Panela II), faixa mais recente de BNegão e Os Seletores de Frequência, lançada em 2011

Tu estás aqui no Fórum Social, não sei se tu já tinhas participado de outras edições, mas é um evento de cunho político e com uma ideia de mudança.  Nós gostaríamos de saber, pra ti, como é essa relação entre música e política?

BNegão: Eu participei, na verdade,de um Fórum muito tempo atrás, na época que era mega grande, era para 40 mil pessoas o show, sei lá, era uma parada de maluco. Teve show do Dead Fish, inclusive resolvi uma treta que tinha, entrou a polícia com cavalo, espada pra cima, batendo na galera, e com a ajuda da galera lá de cima eu consegui resolver a treta, ali no meio da confusão, foi aquela correria para tudo que é lado, a polícia correndo, conseguimos acalmar e resolver no meio daquela multidão toda. Nesse dia, foi tipo intervenção divina mesmo, porque senão, meu irmão, ia ser uma matança ali, ou, pelo menos, muita gente ia se machucar.

Mas a parada é assim, cara, desde sempre, eu não acho que é uma obrigação de ninguém juntar música e política, mas eu sempre fiz isso naturalmente, sacou? Eu sempre gostei de ouvir música, mas a primeira coisa que me fez interessar em fazer música foi em 82, com a parada do Rap. Era a questão musical, ou não musical, da estética do Rap. Em 82, ouvia falar, o graffiti, os discos, fiquei maluco, comecei a entrar na parada, mas esteticamente. Mas a primeira vez que a parada me puxou no espírito, e na mente também, foi em 86 e em 87, quando eu conheci o punk rock, que me fez descolar uma guitarra tosca e começar a fazer música. Foi a primeira vez que eu me identifiquei com uma parada e falei “caralho, é nisso que eu acredito”, no que está sendo falado. Aí, eu comecei a acompanhar o nascimento do rap aqui no Brasil, em 87, quando teve o Thaíde, depois Racionais, eu já estava dentro da parada. Mas não conhecia outras pessoas que gostavam de rap, só tinha eu e um skatista. Em 89, esse cara foi pra gringa, pra Califórnia, e trouxe uma fita do Public Enemy. Aquilo ali que mudou tudo, me fez querer fazer o que eu faço hoje, porque foi a junção da estética do Rap misturado com a porrada do punk rock, com a mensagem e com as coisas de mudança, que eu sempre achei necessária – e cada vez mais – no mundo. Então é por isso, basicamente, que eu estou aqui.

Então essa ligação da música com a política, das temáticas sociais, é questão de influência mesmo?

BNegão: É porque, na verdade, cara, meus pais foram – meu pai principalmente – [importante influência]. Na época da ditadura, a gente morava onde a gente morava porque era um bom lugar para se esconder. Então, lá em casa, a questão política sempre foi muito falada, tratada na mesa de jantar, todo mundo conversando sobre tudo, sacou? Na época que teve o Tancredo, com as paradas de Diretas Já, eu falei “porra, maneiro né?”, e meu pai falou “porra, não é tão maneiro assim, Tancredo não é tão legal assim, na verdade está sendo colocada uma parada”. Então, eu não tinha mais nenhum outro amigo que tivesse essa relação que eu tinha, estava todo mundo “porra, o Tancredo é foda” e eu ficava “porra, caralho”. Essas paradas foram misturando com a questão musical também, que eu comecei depois, como todo mundo começou a ouvir coisas de rádio. Eu achei a Rádio Fluminense, que salvou a minha vida, geral. A Rádio Fluminense, inclusive, tem o mesmo dial que foi usado depois para fazer a Ipanema, a rádio que lançou tudo, que tocava DeFalla todo dia. Eu sou fã do DeFalla, que é das bandas top 10 da minha vida, graças à Fluminense também.

Antigamente, vinil era caro pra caralho. Comprei, sei lá, quatro vinis novos na minha vida, até 95, quando eu comecei a ganhar dinheiro com o Planet [Hemp]. Eu esperava o vinil ficar velho, e passava no sebo para conseguir ele por um preço barato, achar na rua. Ficava lá, pegava uma fita, tentava descolar, gravava na rádio. Um dos únicos que eu comprei novos, que eu gastei uma grana e fiquei na merda um mês inteiro, dois meses, foi o DeFalla, o primeirão. Eu gosto pra caramba.

Tu acompanhaste todo esse processo desde consumidor até produtor de música. O que é mais marcante para ti, desde o processo de consumir até produzir, de trabalhar com isso hoje?

BNegão: Eu entrei completamente, estou na música, tanto de ouvir quanto de fazer, por gostar de música, ponto. A questão básica é essa. Até hoje, com todas as loucuras que já rolaram, nunca me passou pela cabeça deixar de fazer música, justamente por gostar da parada. Esse próprio show com o Autoramas é um show de quem gosta de música, celebrando ali a parada, o gosto pela música. Normalmente, eu não penso muito nisso, o consumidor, o mercado, eu só consigo pensar assim: “pô, eu gosto de música para caramba”, só isso.

Outro dia rolou uma parada, eu fui tocar numa parada da MTV, no Grêmio Recreativo, com o Arnaldo Antunes, foi maravilhoso, e quando acabou eu desci [para a plateia]. A galera normalmente fica no camarim, aí eu desci lá e veio um cara, “ô, você quer um segurança?”, e eu, “não cara, não precisa segurança, estou aqui tranquilo”. Eu falei: “eu não sou um cara lá de cima que veio aqui para baixo, eu sou um cara aqui de baixo que foi lá para cima, entendeu?”. É diferente o próprio ponto de vista.

Quando eu ia a show, minha vida inteira sempre fiquei na grade, sempre cheguei cedo, então eu dou o maior valor para a galera por isso, porque eu me vejo ali. Então, basicamente, não tem essa de questão de indústria e blá, blá, blá. A parada, meu irmão, [é que] a música tem que chegar na galera, sacou? Foda-se o jeito que chegar. Eu penso basicamente isso. Vários colegas de profissão ficam insanos, “ah caralho, fodeu, vai acabar tudo”. Eu não compartilho dessa ideia, porque eu acho que a música vem antes da indústria, sacou?

Tanto que o CD do Seletores de Frequência foi um dos primeiros aqui no Brasil a ser liberado para download na internet…

BNegão: Foi o primeiro comercial, o primeiro CD vendido comercialmente que foi liberado. Normalmente, rolava da galera fazer música e liberar na internet, música por música, ou uma parada que era caseirona. A gente fez o CD, lançando nacionalmente, uma parada com um lançamento porradão, e no auge daquela crise de Napster e Metallica, nós falamos “porra, meu irmão, baixa essa porra” exatamente por isso. No auge daquela treta do Metallica e do Napster, que é uma parada que eu achei ridícula, até porque o próprio Metallica, nessa época da Seek and Destroy, essa música que a gente tocou, falava “pirateia e copia, dá um jeito de passar adiante porque as rádios não tocam”, e foi assim que o Metallica cresceu na verdade. Achei muito escroto, depois a galera se entendeu ali e acabou com esse discurso horroroso. Mas era o auge disso, então a galera, como sempre, tem aquela coisa clássica de, que nem na época do Tancredo, pensamento único, só isso vai, e nessa época o pensamento único era “ah, baixa, você é um criminoso maldito e tem que queimar no inferno e blá, blá, blá”, e todos os artistas repetiam o “blá, blá, blá”. Primeiro, que eu não me considero artista, eu me considero um cara que gosta de música. Eu faço, graças a deus vivo disso desde 95. Então, a treta é essa: existem vários caminhos e a gente falou “ah, tem esse aqui também”.

Assim como tu acompanhaste todo um processo da música, tu comentaste que desde pequeno tem uma influência política muito forte, com debate em casa. Muitas das tuas músicas apresentam uma temática muito atual, por exemplo, as que falam da repressão policial e do cunho fascista da polícia muitas vezes…

BNegão: Pô, muitas vezes é foda. A água é molhada, o fogo queima…

…nós gostaríamos de saber o que tu acompanha da política, o que tu acha, como te localiza?

BNegão: Cara, na verdade, desde a minha parada com o Punk eu nunca deixei de me identificar com o anarquismo, sacou, nunca. Eu me identifico muito. Eu sei que é uma parada que é inviável para uma mega galera, mas a minha parada ideologicamente é tipo a anarquista, ou anarquismo ou a esquerda, sacou? Mas eu vejo várias vezes a esquerda, quando chega em algum lugar – quando teve a invasão da USP, quando teve a parada de acampamento – chega nessa hora do vamos ver e ela age como se fosse a direita. Eu só entro de cabeça quando eu sei que a parada é apartidária. É uma coisa que a gente tem que ficar o tempo todo se observando, vendo o que está acontecendo, para não rolar aquela coisa clássica, tem um ditado anarquista clássico que é: você não pode matar o canibal e herdar a fome dele. E isso é para todo mundo, ninguém é melhor do que ninguém, tem que analisar o tempo todo. Saber se está indo, se é o caminho mesmo, não adianta ficar engessado. Você tem que ver o que está acontecendo e ser quase um cientista do dia-a-dia. Quanto menos engessado for, melhor a gente se sai, porque se estiver engessado é muito mais fácil de ler o próximo movimento. No jeito de combater, você vai sempre para aquele lado, neguinho vai lá e acabou, bota os cachorros ali, um policial, acabou contigo. Então, na verdade, é importante ter essa coisa do, orientalmente os caras falam, fluir que nem a água, é clássico. Tem que prestar atenção, fazer as paradas, enfim, tem que tentar fazer a melhor coisa possível para melhorar, mas sempre ficar atento ao que está acontecendo e ter poder de mudança também, na cabeça.

O importante é você não esquecer o que está visando, se é o bem comum, é o bem comum, beleza. Como é que eu vou conseguir isso? Vou por aqui, vou por ali, é assim que é a parada, sacou? Se você sair disso, de querer o bem comum, aí você se escrotizou. Mas fora isso, se você tentar uns caminhos diferentes e neguinho falar “ah não, só pode ir por aqui, só pode ir pó ali”, você está no caminho certo, você está buscando aquela mesma coisa. Eu acho que cada um faz o que quiser, mas o que eu acredito é que a ideia principal não é mexida, você tem que buscar o que você acredita mesmo, agora, os meios de chegar naquilo, o tempo todo tem que ficar analisando. Enfim, quem acredita em religião, quem não acredita, qualquer um, quando busca a parada certeira, sabe que tem que ir se analisando, dá um jeito, e eu acho que a própria pessoa tem essa capacidade, todo mundo tem capacidade, basta querer e ter coragem. Porque é foda quando a gente chega e vê uma parada, que nem eu falo [na música Prioridades]: às vezes o que você critica é bem parecido com você. Chega numa parada, olha e depois fala “caralho, tô fazendo a mesma merda”. Você tem que ter essa noção para poder mudar, se não você não vai mudar nunca.

Tu falaste dessa questão de flexibilidade e é visível isso na tua trajetória musical também, desde o Funk Fuckers até o Planet Hemp, transitando por vários estilos, do Dub ao Miami Bass, o Funk, o Hardcore. E como funciona para ti esse lance de misturar estilos?

BNegão: É tudo que eu curto cara. É natural porque eu gosto de fazer isso e me cerco da galera que também gosta, que sabe tocar, que sabe fazer e que vai se sentir bem fazendo aquilo ali. Então é natural, sacou? O próprio DeFalla é um dos maiores exemplos dessa parada, mesmo com todas essas tretas que estão dando no som (risos) [em referência aos problemas técnicos na abertura do show do DeFalla].

“A MÚSICA VEM ANTES DA INDÚSTRIA, SACOU?”, pelo viés de Tiago Miotto e Rafael Balbueno

tiagomiotto@revistaovies.com

rafaelbalbueno@revistaovies.com

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