Atilio Borón: “sem soberania nacional, a democracia se converte num ritual carente de significados

Entrevista com o politólogo e sociólogo argentino Atilio Borón discute a integração latino americana.

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A importância da soberania nacional, os avanços do imperialismo, as dificuldades de competir com nações poderosas – militar e financeiramente… Embora a discussão destes pontos pareça ultrapassada, nunca foi tão grande a necessidade de se discutir o imperialismo (principalmente estadunidense) na América Latina, na Ásia, no Oriente Médio. Apesar do esforço de muitos teóricos de retirar essa discussão de foco, alguns pensadores continuam problematizando e buscando respostas e alternativas para a integração dos países por hora explorados.

Atilio Borón é um desses pensadores: a serviço da América Latina e da autodeterminação dos povos, o politólogo (especialista em política) e sociólogo argentino trava uma batalha conceitual contra as superpotências e suas ramificações nas elites locais, que seguem influenciando a cultura, o espaço e a soberania dos países, especialmente os latinos. Sem receios, condena as ações dos Estados imperialistas e salienta a importância dos marcos socialistas para este século.

Autor de vários trabalhos sobre o imperialismo e a integração latino-americana, Atilio Borón é formado em Ciência Política pela Universidade de Harvard e professor da Universidade de Buenos Aires, onde leciona sobre Teoria Política e Social. Colaborador de diversas publicações, Borón já recebeu diversos prêmios por seus trabalhos, entre eles o prêmio da UNESCO pelo conjunto de sua obra em relação às possibilidades – e as necessidades – da integração latino-americana.

Após sua apresentação no II Seminário Internacional e I Fórum de Educação do Campo da Região Sul do RS: campo e cidade em busca de caminhos comuns, ocorrido em Pelotas (RS) no final de 2012, Borón concedeu entrevista à revista o Viés. Na pauta: a necessidade de compreender o imperialismo do século XXI (chamado por Borón “novo imperialismo”), a posição que o Brasil – seu governo e sua elite – exerce no cenário mundial e latino-americano, as possibilidades de integração latino-americana e a (in)sustentabilidade do sistema capitalista capitaneado por Estados Unidos e Europa.

revista o Viés: quais seriam os elementos para se falar em imperialismo na atualidade?

Atilio Borón: Inicialmente, penso que são alguns elementos. O primeiro deles é a hipertrofia financeira. Hoje, é esse segmento que comanda o processo de acumulação da economia. Já não é o capital industrial que comanda, como era até os anos setenta. Quem tem o controle do processo de acumulação é o capital financeiro, capital que gera concentração, gera desemprego, crise. E gera uma enorme volatilidade da economia mundial. São capitais que podem estar hoje no Brasil, amanhã em Singapura, depois Argentina, Mianmar… E sem controle algum. É um capital que flui de uma maneira totalmente descontrolada. Esse é um elemento valoroso do que chamo novo imperialismo.

O segundo elemento é um paradoxal reforço dos Estados nacionais, e digo que isso seja paradoxal porque há muita teorização falando de uma debilitação dos Estados nacionais, quando na verdade os Estados nacionais saem fortalecidos, sobretudo se pensarmos nos Estados Unidos e na União Europeia. Saem fortalecidos em que sentido? No sentido de terem mais recursos a disposição do capital, são Estados muito mais fortes para servir ao capital, não para controlá-lo. Veja, quem controla o Estado hoje é o capital, não é como em algum momento anterior, em que essa relação era diferenciada. E os Estados periféricos saem fortalecidos também no controle do fluxo migratório, para impedir que haja mobilidade da força de trabalho como há mobilidade do capital.

Ou seja, hoje o capital se move livremente pelo mundo, enquanto a força de trabalho tem grandes dificuldades de mover-se. Tratam-se, portanto, de Estados que foram fortalecidos no contexto da crise, ainda que algumas funções do Estado tenham sido transferidas para instituições supranacionais, como a União Europeia. Diz-se “na Europa os Estados estão debilitados”. Não, estão mais fortes que antes, mas a unidade condutora não é o Estado nacional, mas um Estado supranacional, ainda que siga sendo um Estado capitalista.

E há outro elemento nessa questão dos Estados que temos que marcar e que se vê mais claramente no caso dos Estados Unidos, que é a maneira extraordinária da expansão do Estado em gastos militares. Os Estados Unidos são hoje em dia muito mais poderosos, do ponto de vista militar, do que eram antes.

Esse seria o segundo elemento de valor. O primeiro é a hipertrofia financeira, o segundo é o fortalecimento dos Estados nacionais, na periferia sobretudo nos seus segmentos mais repressivos, e o terceiro elemento é o enorme desenvolvimento da indústria cultural.

Nesse caso, a dominação ideológica do imperialismo. Esse me parece um elemento fundamental que muitas vezes não se leva em conta, a dominação ideológica passou a ser um elemento decisivo da dominação imperialista. Dominação ideológica que se dá em nível de massas com a indústria cultural clássica de Hollywood, os filmes, as séries. Se vocês veem as séries produzidas em Hollywood vão ver como variam os inimigos, os vilões. Primeiro eram os russos, depois foram os norte-coreanos, os fundamentalistas islâmicos, os narcotraficantes latino-americanos. Hoje voltam os muçulmanos. Ou seja, claramente está tudo orientado para preparar a opinião pública para aceitar uma crescente diminuição de liberdade dentro dos Estados Unidos.

E, além disso, há uma dominação ideológica muito forte sobre as elites políticas, culturais e econômicas da América Latina. Os Estados Unidos tem demonstrado ter uma enorme capacidade de oferecer uma ideologia assumida pelas elites, as classes dominantes e as elites intelectuais da América Latina, as quais assumem grande parte do discurso dos Estados Unidos.  Por exemplo que a América Latina é uma região irrelevante, quando, como espero ter demonstrado hoje [na palestra que ministrara] ela é sem dúvida a região mais importante para os Estados Unidos. E há um grande brasileiro que foi um dos primeiros a falar desse tema, ainda que seja pouco conhecido no Brasil, que é o Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira. Ele foi um dos primeiros que elaborou essa ideia de relevância da América Latina e, no entanto, não é reconhecida por muita gente, e é isso a dominação ideológica. O imperialismo, sozinho, não pode fazer isso, pode fazer muito pouco, mas com esse enorme dispositivo cultural dos Estados Unidos há um mecanismo de dominação ideológica que penetra muito profundamente nos grupos dirigentes da periferia.

O quarto elemento que adicionaria ao novo imperialismo é a desorbitada expansão da força militar. O imperialismo nunca teve uma potência militar tão grande como a atual. Os Estados Unidos já era o país mais poderoso do ponto de vista militar, mas hoje em dia tem a metade do total de bases militares. Isso é uma loucura total que levou a empenharem-se a manter uma ordem pela via militar se fracassam os elementos ideológicos e políticos. Se o controle econômico fracassa, se o controle ideológico não dá certo, na parte militar vai dar. E por isso as 76 bases militares aqui na América Latina e Caribe, que é um número realmente impressionante. Não sei se a vocês impressiona, mas para mim sim. Eu acabei de fazer uma pesquisa agora e publiquei um livro sobre esse tema e, bom, quando eu terminei o livro [no fim de 2012], havia 75 bases militares americanas. E já agregaram mais uma. Ou seja, os EUA tem um grande controle militar sobre o mundo, sobretudo nessa região.

Então creio que esses são os quatro aspectos básicos imperialismo na fase atual: a hipertrofia financeira, o fortalecimento dos Estados, sobretudo no centro, a indústria cultural e a dominação ideológica e a militarização desorbitada.

: Essas 76 bases militares são estadunidenses?

A.B.: Na maioria são, mas explico porque as táticas americanas mudaram. Bom, algumas delas são bases da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte]  administradas pelos Estados Unidos, por exemplo a base das Ilhas Malvinas e a base de Assunção, que são muito importantes para olhar o pré-sal – há que se ter em conta esse assunto, as bases não estão aí por acaso, estão pelo pré-sal. Depois temos bases tradicionais da velha época militar, como Guantánamo, a base Roosevelt, em Porto Rico. As mesmas bases da época de expansão colonial dos Estados Unidos no princípio do século 1920. Há algumas poucas da década de 1970, que são grandes estabelecimentos militares com tropa, com equipe e tudo isso. Mas essas são muito poucas. A grande maioria delas pertence a diversos países da América Latina, mas têm um contrato ou um tratado que permitem aos Estados Unidos utilizá-las. Elas têm um pequeno número de pessoas estabelecidas, mas têm aquilo que necessitam em consonância com as novas técnicas militares. Eles necessitam: primeiro, uma boa pista de aterrisagem, especialmente para grandes aviões, portanto tem que ser pistas muito boas, grossas, para suportar esses aviões maiores.

Desse porte eles têm pelo menos duas: a de Palanquero, na Colômbia, e a de Mariscal Estigarribia, no Paraguai. E então qual é técnica militar? Supomos que haja uma ameaça revolucionária no sul do Brasil. Eles não têm tropas aqui e têm poucas tropas no Paraguai, mas em menos de dez horas todas as forças de comando que estão na Flórida pegam um avião, vão de lá até Palanquero, de Palanquero vão a Mariscal Estigarribia e lá os aviões descarregam helicópteros, aviões pequenos, carros de combate, tanques, caminhões e etc. De forma que essa tropa que está em Mariscal Estigarribia em menos de duas horas possam estar em qualquer lugar da região.

Essa nova técnica militar não mantém grandes quantidades de força militar nas 76 bases, mas sim ter um número bem pequeno, mas com aeroportos, combustível e um sistema de radares e telecomunicações. E as forças principais estão na Flórida. Com exceção de Guantánamo, da base Roosevelt e Palmerola, em Honduras, de onde retiraram [Manuel] Zelaya do governo, que são bases clássicas.

Ainda temos algumas bases de países europeus, como Holanda. Holanda têm duas bases em duas ilhas do Caribe. Essas bases são muito importantes porque estão a vinte quilômetros do litoral Venezuelano. Há dois países que estão totalmente cercados por bases: Venezuela e Brasil, por isso a burrice da chancelaria brasileira não tem limites. O Itamaraty deixou que o país fosse rodeado de bases militares, coisa que nunca poderia ter aceitado. Veja, o Brasil não é como o Paraguai, que é um país débil, não pode opor-se a um plano norte-americano. O Brasil não, isso é incompreensível, que se tenha deixado rodear. E o outro país rodeado é a Venezuela. As duas bases holandesas estão a vinte quilômetros, vinte e cinco quilômetros a partir do mar do Caribe olhando para a Venezuela, e as duas estão sob orientação norte-americana. Até aí há praticamente umas 15 bases norte-americanas diretamente orientadas para a Venezuela e o resto está basicamente no Brasil, para ter todo o controle sobre o coração sul-americano, sobre a floresta amazônica, sobre a qual o Brasil é um protagonista fundamental. Não dá pra pedir para a Bolívia que defenda a floresta amazônica, pois é um país muito pobre, muito débil, quase não tem exército. Essa deveria ser uma responsabilidade do Brasil, mas o Brasil não levou a cabo essa tarefa. O Brasil poderia ter dito “não vamos admitir bases militares em nenhum país fronteiriço”, dizer “querem colocar bases, ok, mas não na fronteira com o Brasil, não na Colômbia, não na Venezuela, não no Peru, não no Paraguai, não na Bolívia, na Argentina ou no Uruguai. Brasil poderia ter feito isso, poderia ter dito: “não admitimos bases militares, não colocamos bases em nenhuma parte e não queremos que os outros coloquem”, mas não disse. E aí que se observa o impacto do imperialismo e do colonialismo na cabeça dos grupos dirigentes do Brasil.

Isso também se vê na força aérea, no exército, porque até onde eu sei, corrijam-me se estou equivocado, o Brasil ainda não decidiu com quem vai renovar a força aérea, de quem comprará os aviões. Vejam que há uma discussão não resolvida no Brasil porque há quem acha melhor comprar aviões de combate dos Estados Unidos, que são inimigos do Brasil. Ou seja, não é que Brasil se enojou dos Estados Unidos, é que os Estados Unidos rodearam o Brasil de bases militares. Não se pode comprar aviões desses que te rodeiam, o Brasil tem que comprar aviões de qualquer país do mundo, menos dos Estados Unidos, porque se compra dos Estados Unidos vai acontecer o que aconteceu com Chávez. Quando [Hugo] Chávez iniciou sua política de reafirmação da soberania nacional, de recuperar o petróleo, os Estados Unidos cortou seus fornecimento de peças para os F-16 [caças americanos, comprados no governo de Rafael Caldera, anterior a Chávez] e Chávez não pode resistir porque não tem o upgrade da tecnologia, não tem material. Vejam vocês como no Brasil essa discussão de quem comprar os aviões, que já dura quatro ou cinco anos, e não se decide, é incrível! Ou seja, o Brasil é um país que pode ser uma potência e atua como um pequeno país dependente, algo incompreensível.  Um observador estrangeiro, que vê a potencialidade enorme que tem o Brasil, não pode compreender por que o país atua com uma política tão titubeante, como se fosse o Paraguai. Brasil teria que dizer “compro aviões dos franceses” ou “compro aviões dos chineses” e acabou a discussão. Não pode ter a Amazônia desprotegida como tem agora, a Amazônia agora está totalmente desprotegida.

Foto: Liana Coll

: O senhor afirmou sobre o Brasil ser uma mistura de potência regional e ao mesmo tempo seguir com a mentalidade de dependência. Há um sociólogo brasileiro que falava isso desde a década de 1970, o Rui Marini, que dizia que o Brasil, sendo subimperialista, seria um país que mesclava essas duas características. O Brasil em 2011 financiou uma estrada sobre uma reserva indígena boliviana, o TIPNIS . Para o senhor o Brasil pode se tornar um país imperialista na América do Sul? O país, ao invés de contribuir para a integração ou para a força da América Latina contra  Estados imperialistas, está desempenhando esse papel de explorar os vizinhos?

A.B.: Olha, não sei se o Brasil, mas as empresas brasileiras têm uma atitude muito agressiva, mas não só na América Latina, mas nos países onde estão. Porém, eu tenho algumas dúvidas sobre a caracterização do Brasil como um país subimperialista, parece-me que é mais complexo o tema. Mesmo que haja aqui uma brasileira que fez alguns estudos extraordinários sobre isso, a Virgínia Fontes. Virgínia fez os trabalhos mais completos, ela melhor avança a tese sobre o subimperialismo, seguindo Ruy Mauro Marini.

Creio que hoje chega a ser como um jogador regional, e em alguns países, não em todos. Ou seja, pode ter uma influência muito forte, mas eu duvidaria em caracterizá-lo como subimperialista. Porque, por exemplo, Bolívia pôde recuperar o controle da indústrias petrolíferas, que, em grande parte, estava nas mãos da Petrobras e o Brasil teve que aceitar essa situação por parte de um país muito mais débil como Bolívia. Então, se tivesse sido um subimperialismo assim como o pintam, talvez o Brasil tivesse atuado de outra maneira. E, em tudo, há também aqui contradições. Esse projeto imperialista não é tão claro. Eu, ao menos, não o vejo assim. Não que diga não haver uma relação, sobretudo com os sócios menores, como com o Paraguai, Bolívia, uma relação um pouco avassaladora. Porém não me parece que o tenham feito.

E, definitivamente, não pensaram, pelo menos até agora, como disse a direita brasileira, como “jogador global”. O Brasil, todavia, não é um jogador global na política internacional. A prova é que, quando o Brasil e a Turquia se envolveram para tratar de mediar a questão do programa nuclear do Irã foram ambos desautorizados por Washington. Obama disse: ‘não se metam, vocês não são daqui’. E simplesmente deixaram Lula e Erdogan [Recep Tayyip Erdogan, primeiro ministro turco], porque o jogo na política internacional é muito complexo. E o Brasil, mesmo com sua potência, é muito difícil que possa realmente se transformar, no futuro previsível, num jogador que possa intervir no Oriente Médio.

Que foi o que tentou fazer Lula e que realmente lhe saiu muito mal. De qualquer forma, ainda que possa ser um país com uma grande gravitação regional é absurdo falar de subimperialismo de um país que se deixa rodear por bases militares. O país teria que se reafirmar aquí [na América Latina], e estar disposto a pagar os preços de liderar. Um pouco do problema da integração na América Latina ser demorada se debe ao Brasil – não o Brasil, mas a classe dirigente daqui, não digo o “povão” brasileiro, mas as classes dirigentes, eu tenho isso claro. A classe dirigente daqui quer ser líder sem pagar os custos de liderar, o que é um absurdo, porque se quer ser líder tem que pagar os custos.

Não pode o Brasil, por exemplo, impedir a chegada de arroz uruguaio. Quanto arroz o Uruguai pode exportar ao Brasil? Para alimentar Porto Alegre e para alimentar aquela outra cidade, Caxias [do Sul]. E é isso! Não pode mais. E, mesmo assim, param os caminhões uruguaios na fronteira do Chuí protegendo o Brasil da ameaça uruguaia?! Isso é de uma burrice extraordinária. Se quer ser líder tem que deixar isso e arrumar as produções locais de arroz com subsídio local de forma que não os prejudique, mas não fazer a bobagem de não deixar o arroz uruguaio entrar aqui. O que é isso? O arroz uruguaio não pode nem entrar no Rio Grande do Sul. Então, isso é um pouco do problema.

O Brasil oscila permanentemente entre este “nós somos uma potência”, “negociamos diretamente com os Estados Unidos” e “não nos esquecemos da América Latina” e, quando o fazem, ou seja, mostram que realmente não podem ter essa gravitação que querem ter. Não podem impedir a quarta frota dos Estados, não podem impedir um monte de coisas no Brasil. Então aí está um dos problemas. E, além disso, há a colonização cultural e a influência ideológica do Brasil e da classe dominante brasileira, a militarização e também a mídia, que é impressionante.

Notem que a oligarquia dominante no Brasil, desde o final do século XIX, sempre foi muito clara, estiveram muito claros em fazer com que o Brasil permanecesse de costas para a América Latina, que o Brasil olhasse ao Atlântico, olhasse ao norte e não olhasse seus vizinhos. E essa política segue até hoje. Começou a mudar um pouco, um pouquinho com Fernando Henrique Cardoso, mudou mais com Lula, mas não o suficiente.

Veja, é um escândalo que, neste país, aonde se vá, num hotel de primeira categoria, segunda categoria, não se possa ver um único programa de televisão de um país vizinho e isso é uma aberração. Isso só acontece no Brasil, porque estive no Equador e vi um ou dois canais brasileiros; na Argentina se vê, ao menos, Globo e Bandeirantes, no Uruguai também. Menos aqui. Por quê? Porque o Brasil, ou seja, a ideia da classe dominante brasileira só faz, desde sempre, encerrar o público brasileiro e não o deixar se vincular nem saber nada do que se passa com os vizinhos. É uma estratégia de dominação. Por quê? Porque se inteiram-se mais do que acontece com os vizinhos podem entender mais o que acontece aqui no Brasil. Por que não pode ter Telesur aqui no Brasil? Por que não se pode ter todos os canais? Como é possível que vocês estejam rodeados de países que falem castelhano, e não há um só canal em castelhano nos mais de 60 canais que eu vi em Belo Horizonte, em Porto Alegre, São Paulo, Rio, Natal, Campina Grande – percorri quase todo o Brasil – em Manaus… Não há um só canal em língua castelhana. Por quê? Porque há de se manter o povo em total ignorância do que se passa com os vizinhos. Evitar o contágio latino-americano. Isso é um desígnio dos grupos oligárquicos brasileiros de sempre, e uma grande debilidade do governo do PT, que termina a tratar pouco disso, não possibilitando um intercâmbio de informações do Brasil com seus vizinhos.

A única maneira do Brasil, de alguma forma, resistir ao avanço norte-americano, é que o Brasil se entenda como mais um país da região. Sozinho, os Estados Unidos o arrasa, põem o Brasil na defensiva. Só juntos nós podemos defender um marco continental unitário, senão não teremos possibilidade. Que vai ser do Brasil, sozinho, com os Estados Unidos? Quando os Estados Unidos digam que vão colocar suas bases em funcionamento? O que o Brasil vai fazer? Uma guerra contra os Estados Unidos? Não. Tem que buscar uma aliança política capaz de conter o monstro. Mas, se não se busca essa aliança política, o Brasil sozinho não pode. E isso é dito há muitos anos por um brasileiro muito culto chamado Helio Jaguaribe, que vinha dizendo isso nos anos 70: o Brasil precisa tanto da integração com a América Latina quanto a América Latina precisa do Brasil. Porém, a elite política brasileira não vai por esse lado, a econômica tampouco, e o fenômeno da penetração cultural americana aqui se faz muito forte, sobretudo a penetração no ambiente militar – militares brasileiros são muito compenetrados com a ideologia norte-americana.

LEIA A SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA AQUI

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