LOLA ARONOVICH: “NÃO CONSIGO DESVINCULAR O FEMINISMO DE OUTRAS LUTAS SOCIAIS”

Entrevista com a blogueira Lola Aronovich.

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Lola Aronovich. Foto:Tiago Miotto.

Argentina de nascimento, Dolores Aronovich, professora na Universidade Federal do Ceará, pode nem ser reconhecida pelo nome. Já seu apelido, Lola, tornou-se nacionalmente conhecido e comentado. Desde 2008, Lola comanda o blogue brasileiro sobre feminismo mais lido no país, sendo um dos endereços da web com maior audiência nos últimos anos. Sua página “Escreva Lola Escreva” já ultrapassou seis milhões de visitas, e não são apenas os números que colocam seu blogue em evidência, é claro. Com maestria, Lola expõe em sua página temas e histórias dificilmente debatidas pela sociedade. Feminista desde pequena, quando descobriu estudando em escola de freiras que uma mulher jamais poderia ser papa, Lola mantém o debate feminista em todos os âmbitos sociais, discorrendo sobre preconceito, machismo e situações cotidianas desrespeitosas e opressoras pelas quais as mulheres passam.

Convidada pelo GT¹ de Mulheres Trabalhadoras da Associação dos Servidores da Universidade Federal de Santa Maria (ASSUFM), Lola veio a Santa Maria participar de atividades referentes ao Dia Internacional da Mulher, 8 de março. Em parceria com o Núcleo de Estudos Mulheres, Gênero e Políticas Públicas (NEMGeP) e com o coletivo local da Marcha das Vadias, entre os dias 7 e 9 de março ocorreram debates e conversas sobre o verdadeiro sentido da data – desmitificando o sentido comercial que a grande mídia sempre impõe a essas ocasiões e fazendo alusão à verdadeira luta de todas as pessoas dispostas a romper com o machismo, o racismo e a homofobia em nossa sociedade.

Nesta oportunidade, a revista o Viés conversou com a blogueira sobre diversos aspectos de sua militância. Leia a entrevista na íntegra abaixo.

revista o Viés: Como o ciberativismo pode contribuir ao avanço da pauta do feminismo?

Lola: Muito. Desde questionar todo o discurso padrão, desde questionar um lado mais íntimo da mulher, de lidar com aceitação do corpo, de elevar a autoestima, tudo isso é muito importante. Questionar relações familiares, a divisão sexual do trabalho, os preconceitos. Tudo o que é de todas. Num primeiro momento, questionar nossas próprias crenças, nossos próprios preconceitos. Em seguida, de levar a mais pessoas [o discurso feminista]. Você acaba influenciando muitas pessoas, tendo diálogo com outros blogues, sites, no Twitter. Por exemplo: a caixa de comentários de alguns blogues, como o meu, se transformam num fórum de debate. Pouco a pouco você vai mudando. Muita gente escreve para mandar algum exemplo de “olha, tive esta discussão aqui no Facebook”, e então mandam toda a descrição, ou pergunta “será que respondi corretamente?”, ou “como posso responder nesse caso?”. Sinto que as pessoas querem muito aprender, para melhorar o diálogo, para mudar o mundo mesmo.

Vejo muito idealismo. As pessoas têm vontade.

: Desde que você criou o blogue, em 2008, tem aumentado a participação das mulheres leitoras com comentários, guest posts [textos escritos por colaboradores para o blogue], histórias próprias?

Lola: Ah, sim. Na medida que vai crescendo o blogue, vai crescendo o envio de e-mails, de comentários, de tudo. Não sei se a ferramenta do blogue cria uma intimidade maior com o leitor do que um veículo impresso, por exemplo, não sei se tem a ver também com postar todo dia, ou publicar coisas de sua vida pessoal. Eu sei que por algum motivo as pessoas se sentem mais íntimas mesmo, confidentes. Recebo muito e-mail, por exemplo, que dizem “eu nunca falei disso com ninguém e estou falando agora para você”, ou “eu queria desabafar e vou contar a você essa história”. Recebo muito disso. Estou com muitos guest posts atrasados, de gente que pede para publicar, mas eu não dou conta, é muita coisa. Tenho publicado de três a quatro guest posts por semana, e mesmo assim não dou conta. Adoro os guest posts, porque eles trazem uma nova visão, outros conhecimentos que não são os meus. Engrandece o blogue de uma forma fantástica.

: Qual a importância destes depoimentos pessoais para a luta geral?

Lola: Tem muito a ver com identificação. Você vê aquela história, você se identifica. Tento variar um pouco, mas recebo muito relato de estupro. Tento variar para não publicar só relatos de estupro, mas tem relatos de todos os tipos, as pessoas se identificam, já passaram por algo parecido. Os casos de estupro são muito importantes. A história é quase sempre a mesma, não varia muito. O roteiro é o mesmo: a mulher é estuprada, ela se sente tremendamente culpada, ou denuncia, ou tem medo, ou fica até em dúvida se foi estuprada… Então até para perceber se foi estuprada os guest posts são importantes. Então, se cria um tipo de fraternidade, de solidariedade, o que é muito importante também. Um tipo de empatia. A gente sabe muito bem que os sobreviventes de estupro não recebem empatia alguma da sociedade. Muito pelo contrário. São constantemente culpadas pelo que sofreram. Então é muito importante ter um espaço onde as pessoas se ajudem um pouco.

É claro que eu tenho que sempre moderar um pouco os comentários, sempre tem muito troll [designa usuários da internet que agem de maneira provocativa e agressiva despropositadamente] e eles não dão folga de jeito nenhum, parece que se tornam piores ainda em casos assim [depoimentos pessoais publicados], porque eles querem mostrar que “realmente” a mulher mereceu ou que provocou. Aquele discurso de “imagina, ela deu e se arrependeu depois” ou que “vai estragar a vida de um homem”. São coisas horríveis. Horríveis. Qualquer caso que você puder imaginar, o caso mais cabuloso de estupro, vão vir vários comentaristas anônimos, covardes, falar essas besteiras.

Eu fico surpresa. Tem vezes que eu publico um guest post pensando: bom, isso aqui não vai ter discussão, todo mundo vai simpatizar com a pessoa. Por exemplo, aquele caso da Amanda Todd, aquela menina de quinze anos, canadense, que quando tinha doze anos mostrou os seios por um segundo, tipo flash, para um cara na internet. Isso aí perseguiu a vida dela até que ela se matou. Ela chorou para as câmeras, fez um vídeo pedindo “por favor, me ajudem”. Tinha mudado várias vezes de escola por causa do bullying. Ela se matou. Eu pensei: isso aqui não vai ter discussão. As pessoas vão simpatizar com ela. É um post para condenar o bullying. Para condenar esse tipo de slut shaming, que a gente chama esse negócio de condenar a sexualidade até de uma menina de quinze anos. Não! Foi impressionante, os comentários iam desde que “se você se suicida, você é um fraco, você merece”, até “ah, era uma vadia mesmo e merecia morrer”.  É horrível. Eu, ainda, depois de cinco anos, fico perplexa com os comentários que aparecem.

Os comentários são parecidos com os que aparecem nos grandes portais de notícia. É esse nível de preconceito. De ódio, total falta de empatia.

: Você tem acesso ao perfil dos leitores e leitoras? Há como saber se o público se restringe ao leitor ligado exatamente às causas feministas?

Lola: A última pesquisa que eu fiz tem um ano e meio. Muda muito, pode mudar. Eu ainda não refiz uma pesquisa de gênero, para saber quem acessa o blogue. Eu até gostaria de fazer uma nova pesquisa, mas fico me questionando sobre colocar “homem” ou “mulher”, uma coisa assim tão binária. Se eu colocar “trans” pode ter um monte de gente se denominando só para zoar. Mas eu fiz uma pesquisa por idade. Fiquei bastante espantada. Meu público é jovem. 70% tem menos de trinta anos. Tem gente até com 12 anos. Eu fico até preocupada. Têm conteúdos bem pesado às vezes. Tem muito adolescente. Percebo que, nas férias escolares, a procura pelo blogue cai. Porque o público viaja, então. (risos). É um público bem jovem, fora da minha faixa etária. Eu tenho quarenta e cinco, então é público mais jovem que eu. Eu sempre tive um bom diálogo com o público jovem. Escrevi para jornal por alguns anos. Toda vez que dei aula para adolescentes sempre tive um ótimo convívio.

: Você percebe os comentários preconceituosos como uma amostra de parte de nossa sociedade e também como consequência de uma legislação para web fraca?

Lola: Sobre a sociedade, sem dúvida. Meu blogue atrai um tipo de troll que é bem diferente, é odioso mesmo, eles estão lá para te machucar; se puderem, até mesmo para tirar o blogue do ar. É uma coisa estranha, porque eles dependem do blogue. A vida deles é o blogue (risos). O tempo todo comentam, mas ao mesmo tempo querem que você se cale. É um tipo de troll específico. Certamente não há legislação alguma, nenhum controle. É uma série de fatores. O anonimato é um dos fatores mais importantes, porque a pessoa se sente muito segura, muito valente sem ter que dar a cara. É muita covardia. Eu estou aqui, com meu nome, com meu rosto, minha voz, falo as coisas. Posso até me arrepender de alguma coisa que eu fale, mas estou aqui para ser criticada. E aí, vem um bando de trolls anônimos se achando valentes, mas que não têm coragem nem de assinar.

Se você fecha a opção “anônimo”, você diminui muito os comentários de trolls. Eu gostaria de não ter comentário anônimo. O único problema é que às vezes você está falando de abuso sexual, por exemplo, e a pessoa não quer se identificar. Totalmente aceitável, caso de violência doméstica, a pessoa está com medo, é totalmente normal. Eu deixo essa opção de comentário anônimo por isso, mas certamente seria mais fácil se não existissem alguns anônimos. Comecei a moderar os comentários a partir de junho do ano passado. Se vocês lerem posts mais antigos, verão todo tipo de comentário. Eu deixo, de vez em quando, passar algum comentário de troll só para provocar mesmo, para as leitoras revoltadas responderem. Ou porque, às vezes, eles se superam também, têm uns muito engraçados, eles se superam. É um discurso de ódio que acaba sendo tão ridículo, que fica engraçado.

Eu penso sempre nas leitoras. Tem muito troll que vai lá apenas para xingar alguma leitora ou alguém que escreveu o guest post. Aí eu corto mesmo. Não há nenhum motivo [para liberar o comentário].

O que você acha que seriam os limites e talvez as contradições de defender a liberdade de expressão, em situações que não há nenhuma regulação da mídia? Pessoas como você citou ontem [durante a aula pública sobre o Dia Internacional da Mulher], como Marcelo Tas e Rafinha Bastos, se utilizam desse discurso da liberdade de expressão para falar qualquer besteira.

Lola: Tem muita coisa para se falar sobre liberdade de expressão. No começo eu era muito ingênua. Era do tipo favorável a 100% de liberdade de expressão. Se quisesse fazer um site nazista, eu acreditava que deveria poder. Eu achava isso, mas fui mudando. Quando você passa a ser um alvo, você percebe que não tem razão, algumas opiniões são absolutamente nada. Têm pessoas que querem fazer discurso de ódio e querem chegar até as últimas consequências. Querem ir além do discurso, entende? Então, algumas coisas precisam ser proibidas.

Continuo tendo muito problema com esse grupo masculinista da internet, os “mascus”. Eles são um grupo de ódio. São um grupo anti-feminista, anti-mulher, homofóbico, racista, gordofóbico – tudo o que pudermos imaginar, eles são. Antes de começar o blogue, eu não imaginava que existisse esse tipo de gente. Claro que a gente cruza com um misógino uma vez ou outra, mas esse discurso tão afiado é uma obsessão, eles só falam disso. Realmente não conhecia.

Conheci primeiro alguns blogues masculinistas norte-americanos, que têm um discurso parecido com os brasileiros, porque o discurso é meio universal. Depois conheci os brasileiros e fiquei chocada. Então, eu achei que o jeito de lutar contra eles era zombando. Na verdade, é um grupo fácil de zoar. Meus posts sobre “mascus” são simplesmente repetir o que eles falam, porque por si só é muito ridículo. Eles são lunáticos. Querem viver num mundo bucetista, vaginante. Acreditam que vivemos num mundo matriarcal e que quem sofre são os pobres homens, brancos, héteros – que seriam as verdadeiras vítimas da sociedade. Que é tudo contra eles. Você percebe que é um discurso muito pessoal, de muita angústia, porque são pessoas amarguradas, sozinhas, que acham que a sociedade deve alguma coisa para eles, simplesmente porque nasceram homens. É aquele sentido de merecer. Eles merecem todas as mulheres tops, que eles chamam, todas as mulheres lindas deveriam “dar” para eles. Se elas não dão, tem alguma coisa muito errada com a sociedade. Então elas seriam todas vadias, e eles têm que lutar contra isso. É muito, muito ridículo.

Foto: Tiago Miotto

Quando eu comecei a zoar, por achar que também é legal ter um pouco de humor no blogue, rapidamente os mascus viraram minha principal fonte de humor, porque são engraçados sem querer. Eles não se admitem engraçados, não têm nenhum senso de humor.  Acham que rir é coisa de pessoas fracas, enfim.

Pouco depois que eu comecei a falar sobre os mascus, veio o massacre de Realengo, de 2011. Foi terrível. Ali se viu que o Wellington era masculinista. Ele queimou os computadores, os arquivos que ele tinha, antes de cometer o atentado. Tenho certeza que ele teve conversas com o grupo mais radical de masculinistas, que são os “mascus santos” – que deram todo o apoio e toda força para ele ir lá e matar meninas. Ele matou onze meninas e dois meninos. Os meninos, pelo que se sabe, foi meio acidental. Ele separava as meninas bonitas e atirava nelas. Nos meninos, ele atirava nas pernas. Foi terrível.

Pouco depois, os masculinistas sumiram, porque a polícia começou a investigar a atuação deles. Mas eles voltaram. O maior blogue deles foi clonado ou hackeado pelos santos. É tudo a mesma ideologia. Só o que muda é a intensidade do ódio. Então, o site virou uma coisa terrível onde se vê as piores coisas, como legalizar o estupro. Colocavam fotos de meninas nuas de nove anos. Falavam que pedofilia era coisa só de gay. Para eles, transar com uma menina de nove anos não é pedofilia, porque afinal você estaria educando, instruindo uma menina. Aparecem também ameaças de morte. Surgiram muitas ameaças contra o deputado Jean Wyllys, contra a Dilma e comigo, direto. Pelo jeito eu sou a única feminista que eles conhecem. É gente bem doente. E eu fiz muitos posts os denunciando, a gente denuncia direto. A gente ficava chocada em pensar como um site daqueles continuava existindo, apesar de tantas denúncias. Eles sabiam que estavam chamando atenção, eles gostam disso. Então começaram a atirar para todos os lados. Até, por exemplo, no caso de proteção de animais. Começaram a colocar foto de cachorro decapitado. Coisas horríveis.

Estupro corretivo defendido para lésbicas, tudo o que vocês puderem imaginar. A minha dúvida era “como que ninguém faz nada? Só por estarem hospedados [os blogues] em outro país?”. O primeiro foi com wordpress no Brasil, e foi rápido de fechar. Mas depois, em Chicago, foi mais complicado de fechar. Eles já estavam sendo vigiados pelo FBI, porque uma das vítimas deles é uma brasileira que mora nos Estados Unidos. Eles ameaçaram que se ela não mostrasse os peitos, eles iriam colocar fotos do filho dela em sites pedófilos. Esse tipo de ameaça virtual é terrorismo. Aí eles mudavam o tempo todo de hospedagem, e a gente não conseguia tirar.

Finalmente, dois dos líderes foram presos, em março do ano passado, e já estão há um ano presos. Na hora em que eles foram presos, todo mundo dizia: “não, eles vão sair em dois dias”, mas eles já estão presos faz um ano e saiu a condenação deles agora, que é de 6 anos e 6 meses de prisão. É uma pena bastante considerável. E tem gente que fala que eles só foram presos mesmo, na verdade, porque a Polícia Federal tinha certeza de que eles iriam cometer um outro atentado, como Realengo. Eles publicamente escreviam no blogue que iriam cometer um atentado contra a UnB, as Ciências Humanas e Sociais da UnB, para matar “os esquerdistas e as vadias”. Eu mesma pensava “não, eles falam, mas eles são covardes, não fariam uma coisa assim, física mesmo”. Só que, quando a Polícia prendeu, eles tinham mapas da UnB, planos de explosivos – eles cometeriam mesmo um atentado. Hoje em dia eu tenho certeza disso. E o pânico que estava na UnB antes disso – eu recebia muitos e-mails de alunas morrendo de medo, porque um deles tinha estudado na UnB também. Um era de Brasília e outro de Curitiba. Mas, depois que eles foram presos, ainda continuou um certo terrorismo, porque tem outros membros que continuam, mas hoje eles estão mais afastados e mais calados. Só que os “mascus” menos radicais, menos extremistas, continuam. Eles diminuíram muito também, e eu tenho uma participação direta nisso daí, porque a maioria das pessoas associa com um grupo que não é sério. O único espaço que eles tem de verdade, hoje, é o Facebook, e lá eles estão fazendo muito sucesso. Antes eles eram comunidades fechadas no Orkut, e eles só saíram mesmo do Orkut em 2011. Agora, começando no ano passado, eles foram para o Facebook, e me parece que o Facebook é um meio muito bom para eles. Um meio de não precisar falar nada, só colocar umas imagens mais machistas e homofóbicas, e as pessoas reproduzem essas imagens sem nem pensar, sem nem saber que estão mandando mensagens de ódio. Para mim, tem que tratar essas pessoas com uma lição: é um grupo de ódio! Pode até ser engraçado para algumas coisas, mas é um grupo de ódio.

Também não dá para criminalizar, porque são todos anônimos, ninguém tem nome, nem foto – é só desmontar o discurso deles, o que não é difícil. É só que as pessoas veem algumas coisas como, por exemplo, aquele negócio que foi distribuído no trote de São Carlos, da USP – fazendo paródia com o livro “Cinquenta tons de cinza” – “Cinquenta golpes de cinta”. Isso aí quase viralizou, chegou até a um trote de faculdade, quer dizer que estava muito popular… Quando o discurso é um discurso que está tão arraigado na nossa sociedade, a gente está tão acostumado, que a gente vê esse discurso nesse grupo de ódio e pensa “ah, é engraçado, é legal, vamos divulgar também”. As pessoas nem pensam. Eles sabem que a única fonte de crescimento deles é o Facebook, e eles não precisam explicar nada lá. Os textos são sempre pequenos e atraem bastante gente que pensa igual a eles – que se soubesse o que eles são, de verdade, talvez achasse que eles são loucos, mas só aquelas frases, assim, são fáceis de compartilhar.

Aproveitando isso que você comentou, de ser um discurso que está arraigado na sociedade, gostaríamos de perguntar como o machismo funciona como ideologia – lembrando aquilo que você comentou no espaço anterior, de que 30% das mulheres brasileiras se assumem feministas, mas, sem querer ser pessimista, 70% não se considera. Como o machismo funciona como ideologia para essas mulheres que não se assumem feministas, tendo algumas, inclusive, se assumindo como anti-feministas – e como superar isso?

Lola: Bom, tem várias coisas nessa pergunta. Primeiro, tem mulheres que se dizem não-feministas, mas porque elas têm uma ideia totalmente errada do que é o feminismo. Algumas mulheres falam assim: “eu sou super a favor da igualdade, acho que homens e mulheres devem ganhar o mesmo salário, sou a favor de todo o tipo de igualdade, mas não sou feminista!”. Então a pessoa comprou a ideia que as pessoas anti-feministas têm do feminismo, o que é realmente estúpido.Por que você vai aceitar uma definição do feminismo que vem do sistema inimigo? Não tem nenhum motivo. E tem mulheres que são muito anti-feministas mesmo. Essas mulheres vêm de uma educação muito repressora, formal, retrógrada e convencional – elas acreditam mesmo que o motor da sociedade e da civilização é o homem e, na melhor das hipóteses, a mulher é companheira. A gente ouve aquele discurso, que tem na religião, “a mulher não é inferior, é só complemento…”

O discurso de a mulher ser “auxiliadora” também, né?

Lola: É! Só que daí toda a definição deles do que é válido, do que é valorizado, é o masculino. Como não vai ser inferior? Até o trabalho doméstico, que sobra para essas mulheres, é considerado não-trabalho, não-remunerado, não-valorizado, enfim… Tem muitas mulheres que ainda sonham com esse negócio de casar com um homem honrado, ter uma família super tradicional, não trabalhar fora, cuidar dos filhos… São mulheres conservadoras. Essas mulheres vão ter uma visão muito negativa do feminismo, e têm o direito ao pensamento delas. A gente também não vai conseguir mudar toda a mentalidade de todo mundo. Sempre terá gente muito conservadora que acha que esse é um bom modelo de vida. Vem da educação – se você é criado assim, e não tem nenhum contraponto com aquilo, você vai acabar reproduzindo isso. Essas pessoas são complicadas de se mudar.

Agora, a gente tem que lutar pelos mesmos ideais. É claro que eu fico com um pouco de pé atrás com essas mulheres que não são assumidamente feministas, que defendem a igualdade e não são feministas, mas se elas estiverem lutando pelos mesmos ideais, deixa né, mesmo que elas não se assumam feministas. O chato é que tem muita mulher que não se assume feminista e vem querer ditar “é por isso, por culpa de pessoas como vocês que as feministas são mal-vistas!”, sabe, “você é um desserviço pro feminismo!”. Pô, desserviço pro feminismo não é uma feminista, é o machismo! É o machista que é um desserviço pro feminismo, e não outra feminista. Gente que está completamente de fora, não faz ideia do que é o feminismo, e vem querer ditar regra, sabe. Isso é ridículo, mas é um pouco patético – juro que eu fico um pouco com pena dessas mulheres que são muito passivas, conservadoras e tal. São essas mulheres que estão – não nos fóruns “mascus”, porque eles não aceitam mulheres e pronto – mas no Facebook deles! Elas deixam comentários e eles as tratam aos chutes! Porque para eles não existe mulher exceção, todas as mulheres são vadias, e elas ficam lá, se arrastando, querendo provar que são diferentes – é um pouco patético. É você tentar tirar proveito do machismo. Não só em fóruns mascus, elas também vão em blogues assumidamente machistas, como o “Testosterona”, blogues de humor; ou elas são super fãs do Rafinha Bastos, do Danilo Gentilli – acham que eles são um máximo. Eu acho que é uma ideologia super conservadora, e um pouco de tentar encontrar um sentido para a vida, e acho que, em geral, são mulheres com uma autoestima bem baixa também. É triste, porque elas validam mesmo o machismo, mas, não são só elas. Contra elas não há muito o que fazer, e elas são meio inofensivas, elas não são levadas a sério, porque elas são chutadas nos blogues machistas e masculinistas que vão e, para nós (feministas) elas praticamente não existem, são só algumas mulheres que vão ficar falando mal do feminismo. É meio insignificante.

LEIA A SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA AQUI

1. *Grupo de Trabalho criado pelas servidoras da Associação, que debate e realiza atividades em torno de questões feministas a partir de variados eixos temáticos, como mundo do trabalho, violência contra a mulher, saúde da mulher, entre outros.

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