ANTÔNIO RUAS: “É PRECISO DESENVOLVER, MAS NINGUÉM PERGUNTA DESENVOLVER O QUE E PARA QUEM”

Militante ecossocialista e professor adjunto da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, Antônio Ruas trata em entrevista do ecossocialismo, dos limites do desenvolvimento sustentável e da necessidade de um paradigma transformador à luta pela preservação do meio ambiente.

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Da qualidade do ar às previsões sobre a escassez de água potável, passando pelas discussões sobre os modelos de geração de energia, a preservação das florestas, o aquecimento global: a sensação de emergência a respeito da situação do meio ambiente em decorrência da intervenção humana é relativamente nova em nossa história, mas já há algum tempo tem ocupado espaço relevante nos debates públicos, com direito a conferências globais em que muito se diz e pouco se faz e a uma recente preferência pela cor verde na identidade de diferentes produtos e peças publicitárias.

Em tempos de obsolescência programada, quando a racionalidade do lucro parece de fato irracional, a ponto de projetar produtos feitos para estragar, a discussão da questão ecológica perde ao focar-se apenas nos problemas ocasionados pela intervenção dos seres humanos no planeta, como se fôssemos externos a ele: esta é a perspectiva do ecossocialismo, conforme explica Antônio Ruas, doutor em Biociências, professor adjunto da Uergs e um dos representantes do pensamento ecossocialista no Brasil. “O ecossocialismo procura resgatar a ideia do pertencimento aos ecossistemas”, afirma Antônio, “e a partir daí analisar a questão ecológica levando em conta a nossa organização social e política”.

Assim, a novidade representada pelo ecossocialismo é buscar conjugar o pensamento voltado para a resolução dos problemas ambientais com as lutas pela mudança social, demonstrando que, na verdade, essas são questões indissociáveis. Michael Löwy, diretor emérito do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS-França) e um dos principais expoentes dessa corrente, afirma que não basta buscar reformas que recaiam no discurso de sustentabilidade: “é preciso substituir a microrracionalidade do lucro por uma macrorracionalidade social e ecológica, o que exige uma verdadeira mudança de civilização”.

Enquanto boa parte da crítica ecológica volta-se ao excesso de consumo – prontamente acatada pelos supermercados que, em um ato de benevolência, agora permitem-nos comprar sacolas retornáveis no lugar de utilizarmos as plásticas e gratuitas – e recai unicamente na responsabilização individual dos cidadãos, o ecossocialismo busca compreender a questão ecológica em uma dimensão mais ampla, sistêmica: não é só o quanto se consome, mas como se consome e como – e talvez, principalmente, por que – se produz.

O jornalista uruguaio Eduardo Galeano escreveu que, no dicionário das cores contemporâneo, verde é a “cor que usam, em suas mensagens publicitárias, as empresas petrolíferas, os gigantes da indústria química e outros benfeitores da natureza”. Dentre tantos paradoxos, enquanto a preservação ambiental torna-se também um elemento de identidade a ser ostentado e consumido, o ecossocialismo, como explica Antônio Ruas, busca questionar o capitalismo verde, a economia verde ou o tão propagado desenvolvimento sustentável: se a lógica do lucro se mantém, trata-se de mais do mesmo. Por isso, a análise ecossocialista coloca mudanças radicais em questão.  “A utopia é indispensável à mudança social”, afirma em artigo Lowy, para ressalvar em seguida: “com a condição de que seja fundada nas contradições da realidade e nos movimentos sociais reais”.

No dia 23 de janeiro de 2013, a Associação dos Servidores da Universidade Federal de Santa Maria (Assufsm) realizou um debate com a temática Ecossocialismo – a vida na perspectiva da classe trabalhadora, no qual o professor Antônio Ruas foi um dos debatedores. Na ocasião, ele concedeu entrevista à revista o Viés, na qual falou sobre ecossocialismo e sua relação com as diferentes tendências da ecologia e expôs a sua leitura sobre alguns dos pontos que a discussão ecológica envolve, como a privatização dos espaços públicos, a marginalização das populações urbanas pobres, o modelo de desenvolvimento brasileiro, créditos de carbono e a discussão sobre as formas de geração de energia. “Temos que fomentar esse debate, que é largamente mediado pelo poder constituído. Temos que ter uma postura crítica do que é vigente no debate da sociedade e do que não é”, afirma. “Não podemos ir sempre dentro dessa lógica do que está na mídia, de que o que não está não interessa a ninguém, quando na verdade interessa a muita gente”.

Antônio Ruas em Debate promovido pela Associação dos Servidores da UFSM. Foto: Assessoria/ASSUFSM

revista o Viés: Inicialmente a pergunta básica: o que é o ecossocialismo? Como ele se define?

Antônio Ruas (A.R.): O ecossocialismo procura resgatar a ideia do pertencimento aos ecossistemas, a ideia inicial de ecologia dos seres humanos, de suas sociedades, e a partir daí analisar a questão ecológica levando em conta a nossa organização social e política. Tenho claro que uma questão importante é a separação, para alguns autores, da sociedade entre cultura e natureza. Esta seria a característica maior da cultura ocidental, e que de certa forma permanece na concepção de defesa ambiental, a qual o público conhece mais como ambientalismo. Quer dizer, defender o meio ambiente assim é defender alguma coisa externa. Nós tentamos entender o desenvolvimento da ideia ecossocialista a partir de uma leitura e de uma análise que traga essa ideia ecológica da teoria marxista.

A primeira questão é tentar desmistificar que Marx só falava de economia e tinha uma relação necessariamente economicista e desenvolvimentista. Na verdade, quando Marx desconstruiu o capitalismo em sua teoria, ele colocou a necessidade de desalienação da natureza. A sociedade capitalista é alienada na natureza, o que parece paradoxal, vê a natureza como uma coisa a ser transformada para o capital. O capitalismo é baseado na acumulação de lucros, de renda, de mais-valia. E Marx tinha essa preocupação. É bem clara também a preocupação de Marx com as condições de deterioração das cidades, do operário das fábricas de carvão. Podemos fazer um paralelo com a questão ambiental das cidades hoje, com a preocupação com a poluição. E também vemos uma preocupação bem clara, uma questão ecológica, com o esgotamento da terra. Hoje a gente tem agricultura mecanizada, que vai vorazmente esgotando a terra, tirando recursos e não devolvendo. Isto está claro, também em Marx.

Temos também um coautor de Marx em várias obras, [Friedrich] Engels, que tem também uma preocupação com a ideia de uma conquista da natureza em um livro que ficou famoso chamado Dialética da Natureza. Ele diz que a natureza vai ter uma reposta cada vez pior, do ponto de vista da felicidade humana, se continuar sendo usada dessa forma pilhadora e voraz, que já no século XIX caracterizava a industrialização do modelo capitalista.

Na questão do aquecimento global, por que não tem acordo? Não tem acordo porque os países são, na verdade, regimes que gerenciam o capitalismo, e eles não chegam ao acordo de como fazer algum tipo de mediação com o aquecimento, que é uma questão importante, mas que tenha resultado em núcleo privado.

Teve avanço aquela ideia ambientalista de se preservar mais para a contemplação, que está caracterizada, por exemplo, na criação dos parques nacionais, como nos Estados Unidos. É uma preservação do ambiente isolado, da natureza intocada. Também é uma questão que precisamos desconstruir, a natureza não é intocada, ela é rica, ela é tocada por várias espécies, várias populações, inclusive a humana. Na criação dos parques nos Estados Unidos, que resultou de uma ideia mais contemplativa da natureza, os povos indígenas foram expulsos, por exemplo. É outra questão importante para nós. Existem sociedades integradas, do ponto de vista cultural, com a natureza para quem seria um absurdo a ideia de preservação. Hoje, na verdade, a questão é privatizar a natureza para ficar ao deleite de quem, no final das contas, tem mais posse, mais poder. Essas são questões que nos colocam numa posição crítica com relação ao ambientalismo.

A ecologia como consciência foi criada no século XIX e trouxe essa ideia de pertencimento. A questão é o que houve de desdobramentos e reinterpretações da ideia de ecologia que foi criada pelo alemão Ernst Haeckel. O próprio Haeckel, ao mesmo tempo que trouxe a ecologia, trouxe uma ideia de que tudo deveria ser interpretado do ponto de vista das leis da natureza. Inclusive, fazendo uma releitura equivocada da evolução, a concepção da sociedade humana como a legitimação dos mais aptos, dos mais fortes prevalecerem. Isso foi tremendamente útil até para os nazistas, que tinham a ideia da supremacia racial, o que chamamos hoje de ecofascismo, quer dizer, a releitura fascista da ecologia. São essas e outras tantas correntes de pensamento que vão nos colocar a necessidade  de uma análise mais marxista da ecologia e o debate com relação ao socialismo.

A questão não é só discutir tecnologia, não discutir só geração eólica como substituição de nossa matriz energética. Isso não é suficiente, temos que discutir a desprivatização, a descapitalização da tecnologia alternativa, caso contrário nós teremos apenas a continuidade do que está aí. A crise ecológica só vai mudar de local

Outra questão importante para nós, registrada naqueles movimentos dos anos 1960, nas barricadas, nas revoltas, foi a ideia de que tentar superar o capitalismo e ter uma postura anticapitalista era necessariamente construir regimes como os do Leste Europeu, da Cortina de Ferro, por meio do que costumamos chamar de estalinismo – o que na verdade é equivocado. Ao mesmo tempo que somos anticapitalistas somos profundamente críticos dessa ideia estalinista de se criar um Estado totalitário, forte, que vai fazer a mesma pilhagem. Porque na verdade eles se comportam como Estados capitalistas, fazem a mesma pilhagem, o mesmo enriquecimento, a mesma produção, a mesma acumulação, só que em nome não de conglomerados de empresas, mas de um novo grupo que assume o poder. De certa forma repete o capitalismo com a visão estatal. Hoje a União Soviética não existe mais, mas nós temos aí a Coréia do Norte, enfim, outros regimes que temos que discutir criticamente, temos de ver o quanto esses regimes de fato mostram a ideia socialista, marxista.

O que não quer dizer que a gente não tenha que discutir o capitalismo como um regime, um modo de produção baseado no lucro que essencialmente é o gerador dessas situações todas. Nós vimos a questão energética, muito falada hoje, relacionada com o aquecimento global, o capitalismo é um regime em que os valores naturais são transformados à luz do enriquecimento das classes dominantes, necessariamente são transformados em dinheiro. Hoje, o dinheiro se chama commodity porque o mercado internacional é que impera. Na questão do aquecimento global, por que não tem acordo? Não tem acordo porque os países são, na verdade, regimes que gerenciam o capitalismo, e eles não chegam ao acordo de como fazer algum tipo de mediação com o aquecimento, que é uma questão importante, mas que tenha resultado em núcleo privado.

Existe a venda do carbono, que ainda não está preponderando, mas que está ocorrendo, e se vê claramente a preocupação, não com a forma de organização da sociedade em relação a seu transporte baseado em combustíveis fósseis, mas como isso vai se transformar em lucro. É a ideia da chamada compensação ambiental: reconhecer que existe uma finitude dos recursos e que a crise aumenta, mas ao mesmo tempo querer lucrar em cima dessa situação. É o capitalismo verde, uma nova face do capitalismo que aparece com o nome de desenvolvimento sustentável, que mantém o sistema de posse, de enriquecimento, de utilização, mas concede compensações.

Nós temos autores que analisam muito bem isso. Um deles é o Alan Schneider, que é um economista marxista, dos chamados ecomarxistas da economia. Ele coloca que esse capitalismo verde vai ser mais do mesmo porque, na verdade, a economia verde, hoje tão propagada, necessariamente vai excluir as populações mais marginalizadas para as áreas mais degradadas, não só do Brasil, mas do planeta. Nós falávamos do desastre no Haiti, das enxurradas, então nós vimos isso na prática, a população pobre sendo empurrada para áreas que deveriam ser preservadas, como as encostas, ou que deveriam ser recuperadas ecologicamente, mas são então largadas porque isso faz parte dessa visão, ao mesmo tempo que se percebe de novo esse jogo do poder, as classes dominantes vão tentando promover uma melhoria no seu próprio ambiente e ao mesmo tempo lucrando até com fontes alternativas.

A questão não é só discutir tecnologia, não discutir só geração eólica como substituição de nossa matriz energética. Isso não é suficiente, temos que discutir a desprivatização, a descapitalização da tecnologia alternativa, caso contrário nós teremos apenas a continuidade do que está aí. A crise ecológica só vai mudar de local, vamos ter uma grande população empobrecida que vive em uma situação degradada que é tudo menos ecológica, como já se vê na África.

A questão ecológica, ainda que de maneira um tanto isolada, tem estado em discussão em diversos meios, inclusive grandes espaços como foi, recentemente, a Rio+20. Como tu avalias essas discussões?

A.R.: Um rebaixamento. A Rio+20 ostentou consagrar e consolidar a ideia da economia verde. O desenvolvimento sustentável piorou com essa ideia da economia verde. Originalmente, em 1987, em uma conferência ambiental onde foi lançado [a ideia do desenvolvimento sustentável], ele não necessariamente era, digamos assim, um novo capitalismo remodelado com a preocupação ambiental. Mas a economia verde é, e foi o que apareceu na Rio+20. A gente vê que essas conferências, que seriam os grandes debates ecológicos, também são limitadas, balizadas pela questão política. Se compararmos com a Rio92, onde saiu a Carta da Terra, vemos um decréscimo abissal, uma capitalização crescente.

Nesse sentido, existe a importância inegável de participar de debates maiores, de fóruns, de frentes. Recentemente tem havido no Brasil movimentos contra as operações do código florestal, contra a verdadeira tragédia social com alguns empreendimentos como a usina hidrelétrica de Belo Monte, e essa participação é muito importante. O que é preciso ficar claro é que nessa participação não se pode perder de vista essa nossa análise de princípios de que essas lutas são importantes, mas não são isoladas. Não é suficiente conseguir uma moratória como em Belo Monte, que vem sendo programada desde 1980, sucessivamente reencaminhada, reinventada e agora está em obras.

Essa ideia da mitigação de compensações parciais tem que ser vista como mais uma manobra dentro dessa estratégia profundamente enganadora. Poderia se dizer: as compensações foram dadas, as pessoas deslocadas receberam algum dinheiro, receberam casas, etc. Compensação é muito bom de se falar, mas na prática ela tem toda essa questão, compram a inocência em cima de um projeto que é perverso. É retirar da terra que vem sendo ocupada pelos humanos, pelas plantas, pelos animais de uma forma perene e ocupar para fazer empreendimento de lucro, essa é a essência.

Para nós, para o ecossocialismo em geral, é importante que a análise seja também política, não podemos ter medo da discussão política. Existem poderes vinculados, existe uma ideia de supremacia e enriquecimento nessas obras e isso precisa ser colocado. Portanto, essa participação em todas as frentes é importante sem deixar de mostrar que elas fazem parte de um projeto, de uma estratégia de enriquecimento agora para dentro da Amazônia. Não é só essa obra, são várias obras que vêm se sucedendo.

Voltando para a questão das populações tradicionais, elas ocorrem às dispensas da convivência de uma comunidade, das sociedades, que há séculos convivem com o que costumo classificar como a eco-sustentabilidade – não o desenvolvimento sustentável, mas a eco-sustentabilidade, a utilização de recursos de uma forma que eles não sejam exauridos. São as populações tradicionais, as comunidades indígenas, e a gente vê um atropelo, uma expulsão, acabam miserabilizados, indo para as cidades, uma situação que se observa muito com os indígenas. Essa ideia da mitigação de compensações parciais tem que ser vista como mais uma manobra dentro dessa estratégia profundamente enganadora. Poderia se dizer: as compensações foram dadas, as pessoas deslocadas receberam algum dinheiro, receberam casas, etc. Compensação é muito bom de se falar, mas na prática ela tem toda essa questão, compram a inocência em cima de um projeto que é perverso. É retirar da terra que vem sendo ocupada pelos humanos, pelas plantas, pelos animais de uma forma perene e ocupar para fazer empreendimento de lucro, essa é a essência.

Dentro dessa noção de compensação, é possível considerar até os próprios créditos de carbono, não é? Eles surgiram com essa noção de se tentar compensar a emissão de poluição e gás carbônico, mas ao mesmo tempo se transformaram em algo financeiro.

A.R.: Isso para algumas concepções dentro do ambientalismo mais geral é a solução, mas para o ecossocialismo é mais uma faceta do chamado capitalismo de base verde ou economia verde. Hoje, uma tonelada de carbono está sendo comercializada no mercado internacional por US$5,00. Ora, o que podemos ver, mesmo sem conhecer muito de geopolítica, é que os países mais capitalizados, com maior renda e mais poder, evidentemente vão usar isso para manter as suas formas de renda, de enriquecimento, às expensas de estarem compensando com compras diárias onde supostamente existe um sequestro de carbono. Ora, isso é a mesma coisa que acontece com qualquer commodity, apenas muda o tipo de bem que está sendo comercializado. Essas áreas compradas imediatamente são privatizadas, comprar glebas [porções de terra] da floresta Amazônica, por exemplo, a título de compensação para o carbono.

Imediatamente são privatizadas e imediatamente quem está lá, seja quem for, está expulso. Também não podemos esquecer que dentro dessa lógica de utilização capitalista dos recursos naturais, essas áreas não estão protegidas, isso é um engano. Elas serão necessariamente utilizadas para outro negócio mais adiante, como vemos muitas vezes. Por que a Mata Atlântica está sumindo, só há 5 ou 6% dela hoje? Porque além do processo histórico de utilização da Mata Atlântica existe toda uma utilização, uma pilhagem em termos de novos empreendimentos. Hoje, hotéis de luxo, as chamadas praias da elite, os resorts, fazem parte de uma lógica de apropriação e privatização. Portanto, hoje no Brasil existe a ideia de recurso privado, existem as florestas privadas, que são o meio caminho para a compensação do crédito de carbono. Elas vão entrar depois nesse negócio, possivelmente. Na verdade representa isso, uma poupança de uma nova commodity, então para nós isso é uma solução enganadora.

A crise vai se estabelecer logo a seguir, pela depauperização das populações, pela expulsão das populações tradicionais e pelo novo esgotamento dessas áreas equivocadamente preservadas, a ideia equivocada de que estão preservadas. Hoje um de nossos colegas falou sobre a questão dos grandes empreendimentos na Amazônia, é isso que a gente vê, na Amazônia já teve uma fábrica de celulose atuante no tempo da ditadura. Então é assim, se é privado, eu pergunto: quem controla a propriedade privada, se ela é liberada? A propriedade privada, até certo ponto, tu podes fazer o que tu quiseres. Claro, existem restrições, mas se sabe que existe muita burla, muita forma de não se respeitar. A própria legislação ambiental, em certo ponto, avançou muito. Agora, ela é obedecida? Na medida que se choca com os grande negócios, voltando a Belo Monte, voltando à transposição do Rio São Francisco, claro que não, são negócios do Estado com as empresas, inclusive. A gente vê que essa é uma barreira pouco eficiente com relação à expansão de negócios. A privatização, para nós, é um ponto fundamental. Temos que aí sim ver frente com a classe trabalhadora, fazer uma frente com os excluídos em geral para combater de todas as formas possíveis essa privatização, essa apropriação do que é público. “É privado, mas vai ser preservado”. Até essa nós temos que ver bem, que vai enganar depois.

Manifestantes encenam funeral da natureza com a aprovação do novo Código Florestal durante a Marcha do Fórum Social Temático 2012, em Porto Alegre. Foto: Tiago Miotto

Tu falaste que a legislação avançou bastante. No Brasil, entretanto, parece que é justamente a legislação ambiental de forma geral que tem sofrido diversos ataques e sido alvo de embates. Podemos citar, por exemplo, a questão do Código Florestal e a questão recente sobre a Emenda Constitucional 303, que tenta passar para o legislativo o poder de demarcar territórios, tanto para comunidades indígenas como quilombolas. Quer dizer, parece existir uma pressão muito forte, especialmente no Legislativo, mais especificadamente com a presença da bancada ruralista. Como tu avalias isso e quais os caminhos que tu vês para se lidar com isso?

A.R.: É o conflito dentro do espaço democrático. O espaço democrático é importante. Particularmente eu acho que o ecossocialismo não faz uma negação direta e instantânea do Estado, e da luta pelo poder dentro do Estado. Algumas outras concessões que existem dentro dessa questão ecológica, da ecologia política, têm uma outra postura de que o Estado deve ser o alvo principal. Na minha leitura do ecossocialismo, ele tem poderes, tem sua lógica interna, e tem este espaço de conflito que precisamos entender e participar ao lado dos trabalhadores, ao lado dos excluídos.

A legislação ambiental é descumprida e pressionada até o máximo, sempre a favor de quem detém o poder econômico, da classe dominante, e que é parte do sistema capitalista sobre o qual estamos conversando. Inclusive, no Código Florestal já modificado, ele obrigava o próprio Estado a fazer a recomposição, o próprio Estado a orientar os agricultores, inclusive os pequenos agricultores, a terem uma produção sustentável, mantendo reservas preservadas, e que foi atacado bastante tempo em vista de ser modificado a favor de uma apropriação privada desses recursos. É uma luta importante, que teve este desdobramento e que mostra o poder na sociedade.

Eu vejo como a importância de estar buscando aliança política, não necessariamente partidária, mas política, com estes setores que estão em luta contra essa virada de mesa que é constante. O próprio descumprimento com a legislação ambiental é uma lógica que se repete bastante. O conhecimento tradicional, por exemplo, vem sendo roubado, a palavra é essa, para fins de nova tecnologia privada.

A própria questão da biopirataria…

A.R.: Existe também uma legislação que em certo ponto é boa, para proteger, mas tem numerosas brechas. Evidentemente que do outro lado, do lado de quem tem mais poder, utilizam essas brechas para não cumprirem [a legislação]. Inclusive as comunidades indígenas entraram na justiça contra a biopirataria e na verdade não ganharam nada, perderam.

é a essência da agricultura mecanizada hoje: a expansão ao máximo possível com uma tênue ideia de que será feita a compensação ambiental, mas que na verdade se trata de privatização das áreas cultiváveis, tenham florestas ou não, tenham banhados, seja pantanal ou não, com o interesse de que a agricultura, nos mesmos moldes em que o Marx analisava no século XIX, continue sendo um cenário de produção e de acumulação capitalista.

A tua outra questão é porque, com esse espaço de manobra e de poder, ainda assim a classe dominante, quem detém poder econômico do Estado quer mudar a legislação, por que simplesmente não cumpre. A gente poderia pensar no seguinte: o primeiro time colocado em campo é para não cumprir a legislação ambiental, e o segundo time colocado em campo é para modificar a regra do jogo, que é o que a gente observa agora. A Constituição brasileira garante, nos artigos 231 e 232, que os povos originários, indígenas e quilombolas têm direito a reivindicar suas terras tradicionais e a manutenção da cultura, mas a gente vê toda uma tentativa de modificá-la. A modificação da constituição é complicada, então vão modificando com decretos e novas formas não só de não cumprir, mas também de não ser processado por não cumprir, é o outro lado perverso.

Há também a acomodação dos interesses, quando vemos, por exemplo, que a senadora Kátia Abreu agora é base do governo, e representa esse interesse em privatizar, em utilizar a maior área possível para o chamado agronegócio e que obviamente tem toda essa lógica não só nacional, mas transnacional, uma lógica de mercado internacional de commodities, que é a essência da agricultura mecanizada hoje: a expansão ao máximo possível com uma tênue ideia de que será feita a compensação ambiental, mas que na verdade se trata de privatização das áreas cultiváveis, tenham florestas ou não, tenham banhados, seja pantanal ou não, com o interesse de que a agricultura, nos mesmos moldes em que o Marx analisava no século XIX, continue sendo um cenário de produção e de acumulação capitalista.

Então, vemos primeiro a questão de não cumprir a legislação e depois a questão de mudar essa legislação. A nossa postura é fazer uma frente possível, principalmente com esses setores que vão sendo mais expostos e prejudicados com esse movimento todo – movimento dos sem terra, dos indígenas, dos quilombolas – e fazer o enfrentamento que se pode ter nesse momento. Mas de maneira nenhuma assumir o que seria a conciliação entre escravo e senhor de escravo. Nós não podemos conciliar com os senhores de escravo.

Acho que esse é um ponto que o ecossocialismo resgata também: temos que ter posições claras, e para mim é isso, saber que existe esse embate que envolve a questão atual, a exclusão, a depauperação, mas que envolve também as gerações futuras, o que para nós é importante. O nosso pertencimento ecológico não é individual, o nosso pertencimento ecológico deve ser alguma coisa também para frente, que mantenha o planeta em condições de que a sociedade se mantenha com a felicidade possível. Por isso que é muito importante que todos esses aspectos sejam analisados. Se costuma discutir a questão ecológica e ambiental de forma mais fragmentada: é esta floresta, é aquele parque, e isso é um equívoco. Nós temos que ver a coisa de forma mais geral, para poder ter então um embasamento para fazer o nosso ativismo, a nossa luta política.

Se costuma discutir a questão ecológica e ambiental de forma mais fragmentada: é esta floresta, é aquele parque, e isso é um equívoco. Nós temos que ver a coisa de forma mais geral, para poder ter então um embasamento para fazer o nosso ativismo, a nossa luta política.

LEIA A SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA AQUI

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  • http://ser-mama.blogbyt.es/ Gena Burris

    0:55 BRIC não é um grupo de países que se associaram, é mais uma espécie de classificação. Alguns grandes bancos americanos fizeram uma classificação em que eles tentaram descrever o crescimento mundial das próximas décadas e perceberam que os países desenvolvidos reduziriam seu ritmo de crescimento. Na prática, quatro países hoje considerados subdesenvolvidos ou emergentes sustentariam o crescimento mundial. Eles são: Brasil, Russia, índia e China – BRIC, que significa tijolo em inglês e dá uma ideia de sustentação, a sustentação da economia internacional.