“Acordei para o mundo no dia 27”

Uma entrevista com Mary Torres Ribeiro e Carina Mignon, integrantes do movimento “Santa Maria do luto à luta”

A+ A-

Da esquerda para a direita, Mary Torres Ribeiro e Carina Mignon. Foto: Bibiano Girard

 

No dia 27 de janeiro a cidade de Santa Maria enfrentou seu dia mais cruel. Em um incêndio ocorrido na boate Kiss, 242 pessoas morreram. A grande maioria por asfixia, consequência da fumaça exalada pelo sistema irregular de acústica, que usava uma espuma imprópria. Do luto de pais e familiares, o sentimento de justiça ganhou força. Após os primeiros momentos de tensão e tristeza, um grupo de familiares e pessoas próximas resolveu se unir para ir além do luto. E foram à luta, criando o movimento “Santa Maria do Luto à Luta”. O movimento, no entanto, como ressalvam as entrevistadas Carina Mignon e Mary Torres Ribeiro, ultrapassou a questão restrita do caso Kiss para assumir o discurso de liberdade e igualdade social que agora emanam. Lutam por justiça na morte de seus familiares, mas propagam o poder de transformação social como a única saída para evitar que a união da omissão dos poderes com a ganância do capital assassinem outros filhos, primos, irmãos. Acompanhe a seguir a entrevista realizada por Bibiano Girard e Marina Martinuzzi.

revista o Viés: Após a tragédia, foi criada a Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria. O movimento “Santa Maria do Luto à Luta” surge a partir da associação? Como vocês se encontraram?

Mary: Não, o movimento surgiu por ele mesmo. Não somos nem associadas. Depois do que aconteceu dia 27, só o que passava pela nossa cabeça era a questão de justiça. Estávamos passando ainda pelo momento de transtorno. No primeiro mês, resolvemos fazer uma caminhada de silêncio. Havia ainda a situação de ficar rezando, quieto, batendo palmas. Foi que minha irmã levantou um dia e disse: “pessoal, deu de ficarmos só rezando. Vamos para rua! Agora é do luto à luta!”.

A partir daí fomos muito criticados. Por quê? Antes era tudo muito bonito: soltar balão, bater palma, vestir branco. Mas aquele momento era de luto, de dor, e precisávamos expor. Resolvemos ir às ruas de preto.

Carina: E não aceitei a morte da minha filha. Agora está caindo a ficha. Não aceito que um lugar sem saída de emergência estivesse aberto. Como que fecharam as portas para que pagassem a comanda? Como que os bombeiros mandaram pessoas entrar para salvar outras se eles mesmos conheciam a fumaça que saia? Eu parei e pensei: “não, tem coisa errada aí. Eu não vou ficar quieta, ficar rezando…” Eu não estou conformada com a morte da minha filha. Tem coisa errada e eu vou descobrir o que tem de errado. Quem tiver que pagar o preço, que pague.

Porque fecharam uma boate [DCE] e não fecharam a outra? Por que uns poucos podem permanecer com o estabelecimento aberto cheio de irregularidades? Parece que deram um preço para minha filha, um valor, e isso é inaceitável. A Kiss é a prova do que o poder público, misturado com o setor privado, pode fazer.

: Após os primeiros atos onde vocês se conheceram, como o grupo foi criando seu contorno?

Carina: Começamos a ir à Câmara de Vereadores, que foi quando nos conhecemos mesmo, quando o vereador Werner Rempel, de oposição, propôs uma CPI, que numa manobra governista, acabou sendo protocolada depois do pedido de instauração da CPI governista, protocolada pelo [agora ex] procurador jurídico do Legislativo.

Passado o tempo, tudo o que a gente falou foi-se comprovando: havia interesse em não permitir uma CPI de oposição e de criar uma da situação. O Robson Zinn, além de procurador, é presidente do PMDB local, partido do prefeito. Depois das escutas [áudios liberados pela polícia onde três vereadores da CPI são citados durante uma conversa entre a presidente da Comissão, Maria de Lourdes Castro (PMDB) e o vereador Dr. Tavores (DEM). No áudio, Maria de Lourdes propõe que a CPI “não dê em nada”], comprovou-se o que dizíamos: era tudo maracutaia interesseira.

Não vou ficar rezando, vou lutar pelo justo. Só ocorreu tudo porque as autoridades deixaram. Os donos da boate faziam o que queriam. Mudavam, fechavam aqui e ali por conta própria. Essa é minha revolta, tudo poderia ter sido evitado.

Mary: Foi um assassinato em massa. Posso dizer: “eu acordei para o mundo no dia 27 de janeiro. Saí da zona de conforto por uma infelicidade”. Ao longo do tempo fomos criando um corpo. O tio Flávio [Silva, pai de vítima] nem falava desde o ocorrido. Mas veio com tudo quando entrou para o movimento, vestiu a camiseta e foi pra rua. Interessante é perceber que isso abriu outras portas. Não é mais só a questão da Kiss, mas agora temos a situação da passagem do transporte coletivo, a questão da periferia sucateada, sem calçamento, sem médico. Na Vila Tomazeti falta até o Programa Estrutura da Família (PEF), não tem nem médico.

: Houve também uma apropriação de vocês a criticarem o sucateamento dos lugares públicos de convivência. Faz parte de uma visão crítica de privatização da vida social?

Carina: Sim, é lutar por uma cidade melhor para quem sobreviveu. Inicialmente fomos negligenciados. Faltou do poder público tomar atitudes que deveriam ter tomado para evitar a tragédia, e continuam negligenciando com a falta do posto de saúde, do lugar para o jovem. Perdi minha filha, mas outras mães sofrem sem creche, sem poder trabalhar.

Mary: Minha prima deixou um texto escrito em maio do ano passado dizendo ser favorável à greve [dos docentes da UFSM]. No texto, ela diz que só haveria mudança social se houvesse mobilização popular. Isso ficou na minha cabeça. Percebi então que Santa Maria era o reflexo de toda a sujeira na qual a gente vive. Eu não acho justo lutar por justiça contra a negligência no caso da minha prima sem lutar para que se mude o que eu ainda posso mudar.

Carina: Tem uma galera que gosta de andar de bike, a cidade não oferece nada. Outros querem andar de skate, a cidade não tem [pista]. Como que não existe isso numa cidade que é universitária? É cidade cultura, mas não há acesso para o jovem, que mais precisa de cultura. Aí você o limita a ir para um lugar fechado e acontece o que aconteceu.

: Sobre a inoperância de Cezar Schirmer após o ocorrido, como vocês avaliam o poder executivo da cidade tanto quanto ao caso da boate quanto as inúmeras pautas da cidade?

Carina: Se acontece algo dentro da minha casa, a responsável sou eu. Não vou expor meus familiares ao perigo. Vou querer o que é mais seguro. Teria que ter sido assim a postura do prefeito. A prefeitura diz que o Schirmer não tem que saber tudo o que acontece na cidade. Tem! Neste caso tem. Ele tem secretários, tem assessores. A postura dele deveria ter sido de assumir e procurar os erros. Esta seria a postura de uma pessoa de fibra.

Mary: O pessoal que mora na periferia, enfim, que não tem condições, todos os dias sofre o que sofremos no dia 27. Sofro preconceitos? Sim, mas ainda assim eu sou branca, de classe média. Quantas mães perdem os filhos por serem negros? Por serem skatistas? Tem gente que bate, que mata por isso todos os dias, e o pessoal sente isso todos os dias. O que mais me apavora é não ter parado antes para perceber isso.

: Isso faz parte da posição que vocês tomaram de integrar a luta da periferia?

Carina: Sim. Somos excluídos da mesma forma, mas em situações diferentes. Minha filha estudava filosofia e queria ser professora, falava sobre os direitos das pessoas, e agora eu me vi nesta situação, de procurar meus direitos. Minha filha queria trabalhar com presidiárias, falar sobre cidadania. Vou me conformar em ficar em casa rezando? Não, quero levar para a rua o pensamento dela. Por não acreditar em Deus, acredito no ser humano, no que é preciso realizar por nós mesmos.

: Como vocês avaliam a criminalização do ato realizado em frente ao gabinete do prefeito enquanto a sensação de impunidade só aumenta com a retirada de processos por parte da justiça ou a liberação dos últimos quatro réus?

Carina: O importante, para nós, é lutar pelo fim, pela justiça. O não nós já recebemos. Não importa nada um pequeno ato onde pintamos a calçada com o número de mortos quando os verdadeiros culpados estão lá dentro sem se preocupar.

Conseguimos fazer o procurador-jurídico sair, conseguimos uma primeira limpeza. E vamos bater: queremos agora a cassação dos três vereadores envolvidos na escuta, depois vamos pedir a cassação do prefeito envolvido. A sujeira do último ato é só lavar. Mas e a minha vida? Tem como? Minha filha foi roubada de mim. E o sangue de outros jovens que todos os dias morrem na periferia, como esquecer?

: A partir de quando e porque o movimento se apropriou de outras pautas, como transporte coletivo, a questão da creche da Cipriano [loteamento localizado na Zona Oeste da cidade]?

Carina: É muito mais significativo estar lá e não no ato ecumênico realizado no centro. É muito mais benéfico às pessoas lutarmos pelo preço da passagem, todos nós pagamos, todos precisamos do ônibus para trabalhar. Do que adianta ficar rezando se não traz nada de palpável para as pessoas? É mais relevante trancar BR [ato realizado no sábado, 27 de junho, na Zona Oeste] e pedir mudanças. O dia 27 tem que virar um dia de luta.

: Quando aconteceu a tragédia ficou evidente a situação insensata da abordagem midiática. Agora a cobertura mudou e pouco se fala que o movimento faz parte de protestos. Qual é a forma de relacionamento de vocês com a imprensa?

Carina: É mais fácil vender um jornal quando se quer mostrar a tristeza. Toda a imprensa tirava foto das mães chorando sobre os caixões. Ninguém teve piedade alguma conosco, mostravam quando estávamos arrebentados. Mas e quando ocupamos a Câmara, o que aconteceu? Não foi tão divulgado. Não mostraram o Robson Zinn saindo, sendo exonerado. A grande vitória nossa não teve repercussão. Por quê? Por que não vendia tristeza. Na época veio o William Bonner fazer jornal, ficou bonito mostrar as pessoas morrendo. Vendeu jornal para eles? Muito. E agora, onde estão durante nossos atos políticos que podem realmente mudar alguma coisa, fazer transformação? Ora, a resposta é simples: é melhor manter aquela massa inerte, moldada sob aquilo que eles querem mostrar.

Foto: Marina Martinuzzi

 “ACORDEI PARA O MUNDO NO DIA 27”, pelo viés de Bibiano Girard e Marina Martinuzzi

 Entrevista originalmente publicada na versão impressa do JornalismoB

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone
  • paulo carvalho

    Guerreiras, antes de mais nada. Mas também muito amor pelos filhos e filhas. Sinto que representam meu filho também. Ele também tinha muito amor pelos mais humildes, amor aos animais e a natureza.Respeito e honesto. São assim todos os jovens e cada historia é uma historia de amor ao próximo. Estamos tão longe (São Paulo) e tão perto de pessoas tão importantes como voces que lutam por aquilo que seus filhos gostariam.
    . Somos todos Santa Maria !