20 DE SETEMBRO: “AQUI, A REVOLTA NÃO SAIU DO CONTROLE DAS ELITES”

Uma entrevista sobre a construção da identidade gaúcha com o professor da UFSM Luís Augusto Farinatti

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Foto: Nathália Costa/revista o Viés

Professor Luís Augusto Farinatti em entrevista à revista o Viés

Luís Augusto Farinatti é historiador e professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Possui Doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestrado História do Brasil pela PUCRS e graduações em História e em Direito pela UFSM. Na tarde do dia 19 de setembro, o professor concedeu uma entrevista à revista o Viés para falar sobre identidade gaúcha, tradicionalismo e contradições históricas acerca da revolta farrapa, ocorrida no estado entre 1835 e 1845.

Atuando principalmente nas linhas de história agrária, hierarquias sociais, história da família, fronteira e construção do estado no Brasil, Farinatti inicialmente faz um apanhado da história do Rio Grande do Sul do século XIX para atualizar o debate sobre a construção de identidades regionais gaúchas a partir de movimentos tradicionalistas. No desenrolar, Farinatti mantém a noção sobre a dualidade da construção de um passado para um povo. Fala sobre a concepção mítica do gaúcho, representada pelas normas do Movimento Tradicionalista, mas principalmente mostra como a História propõe outras visões sobre os sul-rio-grandenses do passado.

Como historiador, traz à atualidade o contexto dos dois últimos séculos para retratar a fomentação da identidade e do folclore, que chega a conceber um movimento, o Movimento Tradicionalista Gaúcho, exclusivo. Na entrevista, o professor apresenta não apenas um rosto, mas exatamente os variados tipos sociais que formaram a identidade regional, tanto a partir do sentido de pertencimento quanto do orgulho às vezes extrapolado e xenófobo. Leia abaixo a entrevista na íntegra.

 revista o Viés: Para iniciar, gostaríamos de discutir esse questionamento que se faz sobre a terminologia que denomina o movimento ocorrido no Rio Grande do Sul entre 1835 e 1845. 

LF: O termo “revolução” foi utilizado dentro da nomenclatura da época, porque naqueles tempos qualquer retirada violenta do poder, qualquer troca de poder por meio da violência era chamado de revolução.  Com outras teorias, sociológicas, marxistas, acaba considerando-se revolução apenas aquele processo de mudança onde ocorre uma mudança estrutural, realmente uma mudança social profunda. Isso, obviamente, não foi.

 Poderíamos chamar então de revolta?

LF: Sim, era uma revolta. Claro, o termo revolução ficou muito grande. Dá mais importância, parece, chamar de revolução. Mas as pessoas da época chamavam de revolução porque o termo não tinha esse tamanho. Hoje é uma grife chamar de revolução.

 Quem organizou, financiou e insurgiu com a revolta? Era uma batalha da elite, de estancieiros?

LF: Temos aí um ponto importante. Escuta-se de um lado, de uma vertente ufanista, que vai dizer que o povo rio-grandense se revoltou contra a tirania do império. Não ocorreu. Até é engraçado isso. Um conhecido, vindo de outro estado, questionou: o que vocês comemoram aqui? Respondi que era uma revolta contra o império. Ele respondeu: poxa, mas e os gaúchos que lutaram contra os revoltosos, os descendentes deles não ficam incomodados? De fato, metade do Rio Grande do Sul lutou contra a revolta. Porém, por uma construção ideológica feita quarenta anos depois, já no período da República, da Primeira República, constrói-se a ideia de que foi a revolta do gaúcho, ou dos gaúchos, dos rio-grandenses contra o império. Isso não foi.

Porém, há uma outra versão revisicionista, que surge nas décadas de 1970 e 1980, que vai dizer que foi uma revolta da elite rio-grandense, sobretudo da classe dos estancieiros da Campanha, contra o Império. Sobretudo por causa do imposto do charque etc. Também não é exatamente isso. O que ocorre é uma revolta liderada por uma parcela da elite rio-grandense, quer dizer, nem toda a elite rio-grandense, nem todo o estancieiro e nem toda a população da Campanha, a região geográfica, foi farroupilha. Então há seguidores de diversificados setores sociais. Temos padres ligados à maçonaria, uma característica diferente, maçonaria e padres não se relacionam muito bem, mas aqui eles conseguiram se unir. Temos italianos românticos que vêm para cá, como o Rosseti, um dos mais importantes. O Garibaldi ficou mais conhecido. Rosseti era redator dos textos da imprensa farroupilha, e há então toda uma tropa que é de pequenos produtores, agregados, peões, escravos, ex-escravos. Mas na verdade, isso havia de ambos os lados envolvidos. Sociologicamente, os lados envolvidos são parecidos.

Ainda que alguns charqueadores e comerciantes do litoral tenham relativamente ficado ao lado do Império, de resto, o corte social é muito parecido. É uma guerra mais faccional do que ideológica. Ela começa quando um grupo político assume o poder na presidência da Província e retira o Bento Gonçalves do controle da fronteira de Jaguarão e o Bento Manoel do comando da fronteira de Alegrete, e o primeiro pedido do 20 de setembro é para que se retire aquele presidente da Província, e o Comandante Geral das Armas para que os dois Bentos voltem aos comandos. Nem era, a princípio, uma revolta com projeto político muito estabelecido, ainda que alguns grupos ali dentro estabelecidos, tivessem alguns projetos.

 Havia uma ideia original separatista desde o início?

LF: O movimento de 20 de setembro, que foi o movimento para tirar o presidente da Província e para pedir ao Império que nomeie outro. Tinha uma parte que provavelmente tinha esse projeto. Era um movimento muito heterogêneo. Alguns tinham esse projeto, tinham contato com ideias do Plata, ideias platinas de república, outros, ideias platinas de federação, confederação, e havia outros, os setembristas, como o Bento Manuel, que só queriam trocar o presidente da província – por isso se entende porque um ano depois o Bento Manuel troca de lado. Segundo ele, nem trocou de lado, foi a revolta que partiu para outro lado que ele nunca pensou.

 Como se obteve a disseminação dessa figura de um gaúcho mítico, bravo e separatista?

É bastante difícil de responder. Isso é o que mais explica o fato de a Guerra Farroupilha ter se tornado um mito de origem do Rio Grande do Sul. Mito não no sentido da mentira, mas de uma narrativa essencial, primordial, que dá sentido a tudo, uma narrativa que nós recorremos sem muita profundidade histórica, mas como algo que nos explique. E então o protagonista dessa narrativa mítica seria o gaúcho, que também seria uma personagem dotada de poderes míticos muito fortes. Há dez anos estudo História Agrária e Social da fronteira do Rio Grande do Sul, e ainda tenho muita dificuldade de entender essa figura do gaúcho.

Ele está baseado nos subalternos da região da pecuária. Mas pesquisas recentes têm mostrados que os subalternos da região da pecuária é um grupo muito mais diversificado do que aquele de homens, vagos, sem família. Essa mesma polêmica existe na Argentina. Como diz num livro o historiador argentino Juan Carlos Garavaglia, “unos cuantos varones de ambulantes nacidos no se sabe donde y cómo“. Por que não tem família…surge de onde? Da guanxuma? Então de fato existiam grupos, no início do século XIX, existiam grupos de homens de pouca fixação espacial, que faziam contrabando, podiam saquear, eventualmente ser empregados como peões. Mas os que se empregavam como peões nas estâncias não eram só esses. Eram também um grande número de pequenos e médios produtores que ninguém enxerga. Todo mundo enxerga o latifúndio e o peão despossuído. Existia uma camada média livre, de escravos libertos, de índios, de brancos pobres, dessa gente misturada. As cidades são só capelinhas. Na verdade, essa gente é agregada às estâncias, pequenos proprietários, gente que eventualmente vai se assalariar como peão.

Desse caldo pode ter sido construída essa figura do gaúcho, mas ele tem muito pouco, ou quase nada, desse gaúcho que amaria a violência, que é bravo, destemido. Isso é uma romantização. Há um estudo muito importante do José Iran Ribeiro, Professor Doutor da Universidade Federal de Santa Maria, que estuda os recrutamentos e mostra a imensa importância da deserção, e o fato de que nem farroupilha, nem imperiais podiam punir os desertores de forma muito severa, e até aceitavam de volta porque se fosse punir todos os desertores… Ou seja, aquela ideia de que “guerra é divertimento de macho”, no Rio Grande do Sul, é falaciosa. Na verdade as pessoas não gostavam da guerra. Ninguém gosta de deixar seus afazeres, deixar seus pequenos interesses, que fossem trinta reses, a lavourinha de mandioca, trigo ou milho, e ter que ir lutar.

Estudei no meu doutorado a década de 1840. É uma década dificílima para pecuária. Imagine que a pecuária não tinham cercanias. Precisava-se de mão-de-obra. Dava uma seca, o gado ia atrás do pasto, o que era um problema. Com a guerra recruta-se muito desses peões, é um problema. Claro que teve quem lucrou com a guerra, há quem tenha saído mais rico de quando entrou, principalmente vendendo cavalo para as duas forças, era uma guerra de cavalaria, precisava-se de muitos cavalos. Essa romantização do gaúcho tem pouco a ver com o processo histórico.

 É bastante difundido que a movimentação farroupilha teria uma concepção de liberdade a um povo que estava sendo oprimido pelo Império. Há alguma relação?

LF: Não. Nessa época há uma gramática política muito forte, que embasou a Revolução Francesa, que vem do Iluminismo, e que por via de consequência embasa todos os processos de independência da América. A revolta farroupilha precisa ser entendida dentro do processo de independência do Brasil. Não é algo que ocorre depois da Independência. Dá para ver a Independência do Brasil desde 1817, com a Insurreição Pernambucana, até 1848, com a Praieira. Começa e termina em Pernambuco. São uma série de revoltas que geram uma série de debates sobre “que país é este que vai se construir?”, “será que eu quero entrar, de que jeito quero entrar?”, “que projetos de soberania estão aí?” e aquele grande agravante: aqui é uma fronteira. Essa região do Rio Grande do Sul é disputada por diversificados projetos de soberania. Teve Artiguista [seguidores de José Artigas, líder político e militar uruguaio], depois o projeto da República Oriental do Uruguai, a Confederação Argentina, República Rio-Grandense e Império brasileiro, todo mundo tentando impor a esse território que partilhe de um projeto de soberania. É nessa visão que precisamos ver. As pessoas não sabiam o que ia acontecer. Não tem a nossa visão. Essa é a diferença da História e da construção mítica: a mítica parte do presente e às vezes é anacrônica, enquanto a História tem que recuperar esses atores sociais que não têm essa antevisão [a partir do pós]. Eles estavam lá escolhendo, negociando, jogando para ver o que vai dar.

Há um vocabulário liberal, que vai usar nas proclamações e tudo, usar da “tirania” para dizer que é um governo ilegítimo e que por isso há um direito natural de revolta contra ele, e então o povo teria se revoltado. Isso está de fato nas proclamações, mas isso não representa, não tem diretamente a ver com “o povo rio-grandense se sentindo oprimido e tal”.

 Das insurgências que ocorriam concomitantemente em diversas regiões do país, algumas apresentavam um projeto mais progressista, enquanto outras podem ser analisadas como uma tentativa de manutenção do poder com a elite. Onde a revolta farrapa se inclui?

LF: Como historiador, me retenho a usar termos como progressistas, por exemplo. Mas existiram, obviamente, batalhas onde havia maior participação popular, maior protagonismo popular do que os farroupilhas, por exemplo. Ocorre que na Cabanada [rebelião ocorrida entre 1832 e 1835 em Pernambuco, Alagoas e Pará] e na Balaiada [revolta popular ocorrida no Maranhão entre 1838 e 1840], contemporâneas à Farroupilha, têm um início parecido com o daqui. Uma elite de grupos econômicos favorecidos, grandes proprietários de terras, profissionais letrados, e junto a eles uma massa diversificada de subalternos: escravos, ex-escravos, pequenos posseiros, gente de extrato social mais desfavorecido.

Entretanto, tanto na Cabanada quanto na Balaiada, esses grupos subalternos tomam a direção do movimento no meio do movimento. Aí há ataque mais radical, ataques a propriedades, e de outro lado uma repressão terrível. A repressão vem para destruir. O que acontece na Cabanagem é um genocídio. Quando o Luís Alves de Lima e Silva, que ainda não era o barão de Caxias, vai para o Maranhão, ele sabe que vai acabar com a Balaiada para dar um exemplo. Quando ele vem para o Rio Grande do Sul, já Barão de Caxias, em 1843, vem para fazer uma paz negociada com vantagem para o Império, por que aqui a revolta nunca saiu do controle das elites.

E essas elites são necessárias [ao Império], pois recrutam homens, têm forças próprias, e eles sabem que na questão platina contra Oribe [Manuel, segundo presidente da república do Uruguai] e do Rosas [Juan Manuel, ditador argentino], essas pessoas serão necessárias. Líderes militares farroupilhas serão necessários. Então o próprio tratamento dado pelo Império à revolta, nos últimos anos, já se mostra diferente.

Óleo sobre tela de José Wasth Rodrigues.

Óleo sobre tela de José Wasth Rodrigues.

 Em que determinada época o Rio Grande do Sul cria então uma concepção de estado, com fronteiras e sentimento de pertencimento?

LF: Nesse período, muitas pessoas já têm um pouco dessa visão em decorrência da Guerra Cisplatina [1825-1828]. Mas isso vai ser construído ideologicamente de maneira bem forte na Primeira República, com o Positivismo no Rio Grande do Sul. Com os governos do Júlio de Castilhos e depois do Borges de Medeiros, governos do Partido Republicano Rio-Grandense, e do próprio movimento republicano, que vai tentar diferenciar o estado diante do Brasil, e vai reivindicar na revolta Farroupilha a tradição republicana rio-grandense, que seria algo natural, do coração dos gaúchos com a república igual liberdade.

Vejamos que a República é muito jovem nesse momento, está tentando se afirmar. O perigo da volta da monarquia é constante, gerou Canudos, gerou Revolta da Chibata, então há uma busca de afirmação de naturalização do republicanismo no Rio Grande do Sul, e vai-se buscar isso tudo onde? Na revolta Farroupilha. Isso faz parte do que a Velha República faz de forma muito forte. Getúlio Vargas vai contra isso. Enquanto governador do Rio Grande desde 1928, Vargas passa a ter um projeto nacional e se torna presidente da república, a ideia é construir um Brasil unificado, tanto que ele queima as bandeiras dos estados. O regionalismo passa a ser mal visto. Havia um projeto nacionalista. Posso dizer que essa ideia do brasileiro como o carioca, do samba, é a partir do Vargas. Houve uma briga com um de seus grandes aliados, Flores da Cunha, que era Presidente do Rio Grande do Sul, que acaba rompendo com a tentativa do Vargas em centralizar politicamente e ideologicamente homogeneizar.

 Essa construção da imagem gaúcha ocorre sob leis ditatoriais de governos como o de Julio de Castilhos, por exemplo. Podemos dizer que a formação dessa identidade dá-se em período conturbado, de pressão das elites ligadas ao governo do estado?

LF: Sim. Outro fato interessante, que vem a seguir, que é o surgimento do Movimento Tradicionalista Gaúcho, um pouco como reação a esse movimento varguista de homogeneização e de calar as especificidades. Junto com o fato de haver uma união de jovens intelectuais egressos de famílias do campo, que estão em Porto Alegre e constroem uma ideia romantizada, no sentido romântico da volta à origem, ao campo como o lugar da essência pura, onde o homem não teria sido deturpado pela cidade, há uma coisa de um ruralismo romântico, algo rousseauniano de o homem genuíno.

Não esse homem cosmopolita que se perdeu pela cidade. É só escutar a música tradicionalista, está cheio disso: “lá o mundo era mais puro”, “volta pra lá”…Poderia até parecer que ele era inculto, então essa cultura [da urbe] torna ele mau, ele é bom por natureza.

 Como era a Porto Alegre na qual chegaram os jovens que vieram depois a fundar o MTG?

LF: Era uma cidade que eles precisaram reagir contra. Era uma cidade ainda muito provinciana, mas essa ideia de culto não existia. Essa ideia de culto estava ligada ao movimento folclórico brasileiro dessa época, em muitas regiões estava se fazendo isso. A ideia de resgate de tradições populares que estariam se perdendo com o avanço da modernidade, o que é muito interessante. A questão é que eles engessaram isso e tentaram transformar num conto. Na verdade eles descobriram algumas práticas populares antigas, algumas que não se praticavam mais, onde faltava eles desenharam, criaram, e o problema é que ritualizaram e engessaram isso.

O que é um ritual? É tornar atual algo que ficou no passado, é uma prática para evocar o passado e trazer ele para o presente. Acaba e ele vai embora. A ideia deles é basicamente fundamentada nisso, de cultuar a tradição. Só que o passado deles é muito diferente do passado dos historiadores. Por favor, não acho que Movimento Tradicionalista tem que acabar, não vejo como visões ilegítimas, são diversas as formas de produção de sentido sobre o passado. Os jornalistas fazem, os historiadores fazem, a filmografia faz, a literatura faz, alguns do Movimento Tradicionalista fazem. Nenhum é mais legítimo que o outro e nenhum deve acabar, e nenhuma deve revogar a voz do outro. Me preocupa um pouco, porém, quando o estado do Rio Grande do Sul e o sistema de ensino da educação básica compra essa versão como oficial e quer sobrepor às outras.

Qual é a função da História? A partir do seu método, das regras da sua área, que para mim parece produzir respostas mais próximas da verdade, a História vem propor uma visão à sociedade. Não impor, mas propor, apontar criticamente o que não considera correto, trazer a complexidade e apontar como são construídas essas narrativas, que na verdade não explicam nada do século XIX e do século XVIII, mas explicam muito sobre o século XX. Essas narrativas míticas ajudam muito mais a reconhecer o homem que as criou, que é um homem urbano do século XX, do que o homem rural do século XIX. Para isso, a história é melhor.

O interessante é que para as narrativas míticas funcionarem, elas precisam que as pessoas que a ritualizam acreditem que elas são reais, ao contrário não funciona. Elas precisam acreditar que estão festivando o passado puro, guerreiro, romântico, e registrar isso. Então a História incomoda um pouco isso, quando ela aponta “olha, não foi bem assim”. O papel do historiador é propor essas visões e dizer como que chegou àquele caminho e como os outros chegaram, e deixar que as pessoas decidam.

Temos dez anos em estudos relacionados aos habitantes do Pampa da época Farroupilha, e eles mostram que a população, de modo geral, era variada. Havia pequeno produtor, médio… e também esse homem vago, andarilho. Também. Mas a pergunta que fica é “por que então esse se transformou num símbolo?” Há até bons autores que falam que o gaúcho vago, esse ambulante, era um tipo essencial da fronteira. Não, ele era uma pequena fração. Mas por que obteve sucesso?  Aí entra uma opinião própria, é um ensaio meu, é bom para pensar, como diria Levi-Strauss. Ele [o tipo gaúcho] se presta para a perpetuação de uma visão que nós, de todos nós, que o Movimento Tradicionalista formaliza, de um sentimento, de uma imagem que nós gostamos de fazer de nós mesmos. E qual é essa imagem? Faz sucesso na fronteira, faz sucesso nas cidades, faz sucesso nas colônias imigrantes. É a ideia de que o gaúcho é diferente dos outros brasileiros.

Criam-se dois estereótipos. Um é o do gaúcho. O outro, do brasileiro. Brasileiro que engloba todas as pessoas do Mampituba ao Oiapoque, que é uma diversidade enorme que é aplastada numa uniformidade do que seria o brasileiro. Então a imagem que a gente faz preconceituosamente dos brasileiros é de que ele seria mestiço, dengoso, malemolente, pouco afeito ao trabalho, malandro. Então o gaúcho seria a imagem convexa disso: branco, mais europeu, honesto, trabalhador, corajoso, valente, viril. Este gaúcho se presta muito bem para encarnar essa figura pouco brasileira. Para mim, esse gaúcho seria uma construção contrária ao brasileiro. É um conjunto. Ao mesmo tempo que eu construo a minha positividade eu construo a negatividade no outro.

[LEIA A PARTE 2 AQUI]

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  • Vitor Biasoli

    Muito bom, professor. Destaco na sua longa conversa o reconhecimento ao trabalho que o MTG realiza, isto é, o modo como os tradicionalistas lidam com o passado. Não operam da mesma forma que os historiadores, mas, nem por isso, trabalham de modo equivocado ou algo assim. Operam a partir da narrativa mítica, num procedimento muito diverso daquele que dos historiadores. Muito importante que alguém do mundo acadêmico venha à público dizer isso com toda a clareza. Entendo que dentro do MTG já existem novos quadros que reconhecem isso perfeitamente.