Os seis mergulhos da baleia

Cachalote é a primeira graphic novel escrita por Daniel Galera, em parceria com o desenhista Rafael Coutinho. Leia a resenha e a entrevista com o autor.

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Capa de Cachalote. Arte: Elisa V. Randow.

Jovem, vendedor de uma loja de ferramentas, baixo, simpático e adepto do bondage – ele gosta de amarrar suas parceiras. Até que se apaixona. Ela parece frágil – tanto quanto vidro, diria. Pede para ser amarrada. Ele teme quebrá-la. Ela insiste. Ele cede. As marcas aparecem nos pulsos, mas nunca são o suficiente. O vidro não racha. Ela fica irritada. Ele quebra.

“Mergulhar de cabeça” deve ser fácil para um cachalote. Cientificamente falando, trata-se de um cetáceo – animal marinho e mamífero -, subordem odontoceti – baleia com dentes, portanto. A cabeça quadrada do cachalote corresponde a quase um terço do seu singelo corpo de 18 metros, o que lhe garante o título de maior carnívoro do planeta. Não satisfeita, a baleia também atinge o mergulho de maior profundidade entre todos os mamíferos, podendo chegar até 2000 metros.

Na literatura, o arquétipo clássico do cachalote aparece na figura de Moby Dick, romance escrito por Herman Melville em 1851. Sua imagem é agressiva: ele é o monstro da historia, o vilão que destrói embarcações e aterroriza pescadores. A imponência do cachalote é prerrogativa básica para sua representação, mas Daniel Galera e Rafael Coutinho trouxeram em 2010 uma versão muito mais delicada e poética do animal, o que pouco ou nada lembra o clássico Moby Dick. Não significa, é claro, uma história florida: na verdade, a capa de Cachalote, a graphic novel de Galera e Coutinho, estampa um “só para adultos!” bem chamativo.

Cachalote é formado por prólogo, epílogo e cinco narrativas “maiores”. Todas são independentes – o resumo de uma delas abre esse texto; as outras você pode ler nos destaques da matéria. O argumento e a fase inicial do roteiro foram planejados pelos dois autores – Galera, posteriormente, assumiu a continuidade das histórias. Este foi seu primeiro trabalho em quadrinhos. O autor, que nasceu em São Paulo, mas mora em Porto Alegre, vinha de uma trajetória que incluía uma coletânea de contos (Dentes guardados, sua estreia, em 2001) e três romances (Até o dia em que o cão morreu, 2003; Mãos de cavalo, 2006; Cordilheira, 2008). Posteriormente, Daniel ainda lançaria Barba ensopada de sangue (2012), seu romance de maior expressão.

Escritor, deprimido, em busca de inspiração. A filha é a única ligação com a ex-esposa. Encontram-se com frequência por conta da menina. Mantém uma relação afetuosa. Ela já está em outra. Fala sobre o novo parceiro. Comenta seus planos. Pede antidepressivos.

No entanto, foi em Cachalote, de 2010, que o escritor abriu espaço para a experimentação narrativa em uma graphic novel. Além disso, o trabalho, que demorou cerca de dois anos, é fruto da parceria com Rafael Coutinho, desenhista de longa data e atual editor do Nébula – iniciativa que une jornalismo e quadrinhos. Inclusive, é Laerte, pai de Coutinho e ícone das charges e cartuns nacionais, que assina a trilha sonora do teaser de lançamento de Cachalote. A animação mostra o prólogo da narrativa.

O livro divide-se em três partes: cada uma conta um pedaço de todas as cinco histórias ‘maiores’ (excluindo-se o conto à parte do prólogo/epílogo). A partir de então, elas se desenvolvem entre si, intercaladas. As múltiplas narrativas podem lembrar o roteiro de alguns filmes, como Magnólia (1999), ou a Trilogia da Morte – Amores Brutos (2000), 21 Gramas (2003) e Babel (2006). No entanto, as histórias de Cachalote não se cruzam: elas são paralelas, sem nenhuma ligação evidente, ao menos entre os personagens. Obviamente, há um fio condutor que une as tramas e cuja resposta pode estar no título.

Pode estar, porque os contos são assumidamente abertos, caminhando ora entre uma relação de linguagem poética e desenho surreal, ora entre espaço urbano e sequências cinematográficas. É justamente nos momentos fantasiosos da narrativa de Galera, casando com a sensibilidade de Coutinho, que reside o ponto alto do livro – o traço dos “ossos de vidro” quebrados da mulher fetichista é um exemplo.

Velho, ranzinza, escultor de si mesmo. Vive trabalhando nas suas obras. Surge o convite para filmar. Não tem papel. Não tem roteiro. Ele interpreta ele. Um filme sobre sua vida. Um filme de um filme. Há somente um escultor, e há somente um protagonista.

O roteiro por vezes surrealista pode inclusive irritar o leitor sedento por explicações. Elas não existem. Cachalote é daquelas obras que acabam abruptamente, num corte seco que contraria a delicadeza da narrativa. O paradoxo bem humorado permeia não apenas a forma, mas o conteúdo do livro. Dois dos melhores personagens que exemplificam suas contradições são o adepto do bondage, assustado com a parceira que pede que ele vá cada vez mais longe no seu fetiche sexual; e a ex-esposa do escritor depressivo, aparentemente feliz, mas que se revela ainda mais triste e emocionalmente perturbada do que seu antigo marido.

Se tentarmos esboçar uma ligação entre as histórias, talvez a mais clara e óbvia seja a metáfora da baleia cachalote, o animal marinho que possui o mergulho mais profundo de todos. Nesse sentido, a trama dos personagens gira em torno de uma busca dentro de si, de resolver um conflito que os desespera e leva ao limite do mergulho – até onde é possível ir, afinal? Não é nada mais do que a próprio sentido de viver: repleto de contradições, ora poéticas, ora injustas; paradoxos sem desfecho, abertos ao fluxo dos acontecimentos. E, afinal de contas, a vida segue.

Astro chinês em crise. O colega comete suicídio. Nenhum roteiro que ele participou foi tão imprevisível e decadente quanto esse.

Em uma breve conversa por e-mail, Daniel Galera, um dos autores, reflete sobre as interpretações que leu sobre Cachalote, a construção da trama e a repercussão de sua primeira graphic novel, quase cinco anos após o lançamento – uma das influências pode, inclusive, aparecer no seu próximo romance. Acompanhe a seguir:

 Passados quase cinco anos do lançamento de Cachalote, como você enxerga, hoje, a obra e a sua importância no histórico dos seus trabalhos?

Daniel Galera (DG): Em termos de importância, Cachalote tem o mesmo peso que meus romances. Foi um livro bem aceito tanto entre os leitores que me conheciam anteriormente pelos contos e romances, mas que teve uma recepção excepcional entre os leitores de quadrinhos, que entenderam nossa proposta de fazer um romance gráfico de linguagem contemporânea e densidade literária. Cachalote foi também meu primeiro livro que lidou com narradores e histórias paralelas, um modelo de história até então inédito pra mim, e que vou usar de novo no meu próximo romance, ainda sem previsão de lançamento.

 Na época do lançamento, você manifestou interesse em trabalhar novamente com quadrinhos – acha que isso ainda pode acontecer no futuro?

DG: Nos dois anos após o lançamento do livro, me envolvi com o universo dos quadrinhos, me aprofundando na leitura e comparecendo a dezenas de eventos de quadrinistas. Mas esse período passou e agora estou de novo mais focado na literatura em prosa. Não descarto a ideia de escrever outra HQ com o Rafael Coutinho algum dia, nós dois temos interesse em fazer isso, mas até agora nossos outros projetos pessoais nos impediram de concretizar a ideia.

 Em algum momento, durante o desenvolvimento do roteiro, você pensou em cruzar as histórias? Ou a ideia era que as narrativas sempre fossem independentes?

DG: Desde o princípio do processo de criação do livro, eu e o Rafael decidimos que trabalharíamos com várias histórias paralelas que se cruzariam de forma muito sutil, mais nos níveis simbólico e temático do que no enredo. Essa concepção surgiu antes mesmo de encontrarmos as histórias e personagens propriamente ditos, e se manteve até a conclusão do roteiro. O cruzamento das histórias era quase um clichê naquela época, coisa esgotada em numerosos romances, HQs e filmes mainstream. Nossa ideia era tentar obter algo mais estranho e difícil de interpretar, uma série de histórias vagamente relacionadas que apontariam para algo maior, indistinto, mas que permeasse o livro todo.

Machista, preconceituoso, playboy: o tipo de ser humano que faz piada com garçons. A revirada acontece quando seu tio o expulsa de casa. Ele viaja até Paris. Reencontra um amigo de infância. Relembra a insignificância de sua vida. Vaga sozinho. E encontra cachalote.

Era importante que cada história também tivesse força em si própria, como em um livro de contos. Tentamos, enfim, trabalhar seguindo nossa intuição, fora das convenções de gêneros. Acho que pelo menos em parte atingimos esse objetivo, pois a reação da maioria dos leitores foi positiva e entusiasmada, mesmo quando eles alegavam no fundo não saberem muito bem do quê Cachalote realmente trata. Nem eu e o Rafa temos uma versão oficial, fechadinha, a respeito do significado de todas as histórias e vinhetas do livro. Mas temos segurança de que ele transmite uma sensação e uma visão sobre a vida contemporânea que instigante e contém algum tipo de verdade.

 Os contos de Cachalote são bem abertos e podem gerar inúmeras leituras, seja pela sutileza do roteiro ou pelo seu caráter um tanto surrealista, poético. Das interpretações que você ouviu ao longo desses quase cinco anos, alguma te surpreendeu?

DG: Pra ser sincero, não lembro bem de todas as interpretações que os leitores me comunicaram nesses anos após o lançamento o livro. Foram muitas, e várias eram interessantes. Lembro de um post de blog que uma garota chamada Aline publicou pouco tempo após o lançamento, e que me pareceu em sintonia com nossas intenções.  Achei bacana como ela escolhe aceitar os elementos fantasiosos da trama como verdadeiros, sem se preocupar tanto em questionar o que é real/possível e o que não é, como acontece nos filmes do David Lynch e em muitas obras do cinema asiático – duas referências fortes pra gente na hora de compor o livro.

Outra que destaco foi a leitura feita pelo Gustavo Mini em seu blog Conector. Mini leu Cachalote como uma ode contra a distância que nos separa na vida contemporânea, com um olhar muito atento aos espaços de vários tipos que figuram nas narrativas do livro — o espaço entre as pessoas, o espaço aberto dos desenhos, o espaço geográfico, linguístico etc. Achei uma perspectiva bem interessante. 

Antes ela estava grávida. Mergulhava assim mesmo, na piscina de casa. Cachalote. Na praia, o filho já nasceu. Ela cuida dele. Ele quer ir ao mar. Encontrar cachalote, mergulhar em si.

Os seis mergulhos da baleia, pelo viés de Dairan Paul.

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