EXÓTICOS E INCIVILIZADOS

Um filme de ficção se vale de uma narrativa programada e de atores que – perdoem-me os cênicos – se passam pelas personagens, que são criadas. Um documentário, ao contrário, propõe-se a reportar a realidade – nem sempre o é tão fiel, mas é a proposta. Muito antes dos exagerados e conhecidos documentários de Michael […]

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Um filme de ficção se vale de uma narrativa programada e de atores que – perdoem-me os cênicos – se passam pelas personagens, que são criadas. Um documentário, ao contrário, propõe-se a reportar a realidade – nem sempre o é tão fiel, mas é a proposta.

Muito antes dos exagerados e conhecidos documentários de Michael Moore ou do melopropagandístico A Verdade Incoveniente, do ex-candidato à presidência dos EUA Al Gore, o primeiro documentário, per dire, a ser produzido foi uma mistura de fato com “faz-de-conta”.

Em 1895, os irmãos Auguste e Louis Lumière patentearem o cinematógrafo (invenção de Léon Buly), aperfeiçoado na moderna câmera de vídeo. Desde então, tentativas de documentário foram feitas ao se gravar as ruas e as pessoas das metrópoles, mas sem pretensões cinematográficas contemporâneas – eram só uma foto corrida dos bailes e das senhoras da societé parisienne.

O cineasta estadunidense Robert Flaherty fez várias expedições aos territórios do norte do Canadá e, por anos, conviveu com os esquimós. Em 1913, foi-lhe proposto gravar um filme sobre eles. Anos gravando e Flaherty, ao voltar ao estúdio para a edição, deixou as cinzas de seu cigarro caírem sobre as películas encharcadas de nitrato – substância inflamável. Todo o primeiro filme se queimou.

Em 1920, Flaherty se propôs a novamente acompanhar os esquimós, mas nenhum estúdio dos EUA aceitou a proposta. Acabou sendo patrocinado por uma empresa de roupas de pele da França, a Revillon Frères. Um ano depois, ficou pronto aquele que é considerado marco – o primeiro documentário da história do cinema: Nanook, o Esquimó.

Nanook (Wikipédia)

O filme estreiou em 1922 e foi um sucesso de “audiência” (mesmo sendo um filme e mudo). Flaherty acompanhou a família de Nanook, que, em fato, chamava-se Allakaria, na região do Ártico do Québec, no Canadá.

O engraçado, senão falho, no filme, é que muito dele é figuração. À época, os esquimós canadenses já caçavam com armas de fogo, por exemplo, mas Flaherty fez questão de “encorajá-los” a caçar com arpão. Mesmo a esposa de Nanook, Nyla, não era sua esposa de verdade.

Nanook (Google Images)
Nyla (Wikipédia)

Nanook é uma etnografia cinematográfica que deu início à produção de documentários que exploram o desconhecido e enquadram as pessoas de lá como exóticas. Um olhar europeizado sobre os incivilizados. Por essas razões de figuração e manipulação da “realidade”, os advogados do cinéma verité rechacariam Nanook of the North (título original). Flaherty continou a produzir documentários no mesmo estilo. Jamais teve o mesmo sucesso. Em viras e voltas, vale a pena assistir a Nanook, o Esquimó.

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Nanook, o Esquimó, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com

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