TARAS

Dizem por aí que uma das coisas que leva um ator a ser um ator é a rapidez com que ele se entendia consigo mesmo, a necessidade de ser muitas pessoas numa só. Bom, se isso for verdade, é uma escolha, por mais mandatória que seja psicologicamente. Enquanto isso, alguns não têm opção: são, de […]

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Dizem por aí que uma das coisas que leva um ator a ser um ator é a rapidez com que ele se entendia consigo mesmo, a necessidade de ser muitas pessoas numa só. Bom, se isso for verdade, é uma escolha, por mais mandatória que seja psicologicamente. Enquanto isso, alguns não têm opção: são, de fato, várias pessoas a dividir o mesmo corpo. A isso, chama-se de transtorno dissociativo de identidade, ou vulgarmente, transtorno de personalidade múltipla. Conheçamos Tara!

Tara Gregson é casada, pinta paineis, tem uma casal de filhos, uma boa casa e um bom carro. Até aí, tudo absurdamente normal para a linha estadunidense. Mas, vez entanto, Tara não é ela mesma: pode ser a “serelepe” T, a perfeita Alice ou o marrento Buck. Tara tem, dentro dela, quatro pessoas e uma delas vem à tona sempre que ela – a “original” – tem algum desgaste emocional. Os alteregos de Tara, a que ela se refere só por the alters (algo como “os outros”), são um escape que ela encontrou inconscientemente para fugir de um trauma durante os tempos dantes – que ninguém sabe ao certo quando.

T é uma menina de 16 anos, ninfomaníaca e dum estilo “pirulitesco”. Alice foi transportada dos puros [sic] anos cinquenta, de onde ela trouxe receitas de bolos batidos a mão, orações antes de dormir e uma razão de que cada coito deve gerar um cristão. Buck, segundo Caren Rhoden, parece ser inspirado em Charles Bukowski: galopeia na sua Harley Davidson, bebe litros de cerveja no bar, fuma Marlboro vermelho com a mesma obstinação com que procura brigas. A pender ao final, surge ainda um quarto alter: Gimme – uma besta, que exterioriza todas os ímpetos animalescos de Tara.

United States of Tara, chamado As Taras de Tara em Portugal – nome acreditado por mim – é protagonizado pela australiana Toni Collette (de Pequena Miss Sunshine) e dirigido por Steven Spielberg (de várias coisas científicas, ficciosas e hollywoodianas). Não é uma série que deva durar mais do que três temporadas, mas é hipnótica pelas suas odes ao, até então, anormal: um marido aparentemente trivial ao modelo ocidental, uma filha um tanto ninfomaníaca e um filho homossexual. As outras “bizarrices” da família se tornam o quê mais banal perto de Tara, que pode estar T, pode estar Alice, Buck ou Gimme.

A série estreou no Brasil no dia oito de fevereiro, mais de um ano depois da estreia nos Estados Unidos e no Canadá, por exemplo. É exibida pela FOX aqui no país, mas em versão dublada, o que destroi o roteiro da também criadora da série Diablo Cody, a ex-stripper que virou jornalista e, em 2008, ganhou o Oscar por melhor roteiro original por Juno. Sedento pelos doze episódios que já foram ao ar e fazem a primeira temporada, usei os benefícios da rede e baixei todos eles, sem ter, portanto, que assistir aos esganos vocais e às maluquices tônicas da dublagem.

Vale apena assistir a As Taras de Tara e, por três horas depois de cada episódio, crer piamente que tu também tens múltiplas personalidades. Vê-se lá realmente as há!

TARAS, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com

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