OS ANDARILHOS DE CAO GUIMARÃES

Quantas vezes na vida imaginamos e pensamos no caminho que percorremos? Que caminho, para onde, por que caminhar? Além de viver, inventamos tarefas e objetivos. Estes, para sempre termos uma meta que nos faça não parar, sentar e apenas diluir o silêncio na mente. Aquelas, para manter o homem em combate diário que o ajude […]

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Quantas vezes na vida imaginamos e pensamos no caminho que percorremos? Que caminho, para onde, por que caminhar? Além de viver, inventamos tarefas e objetivos. Estes, para sempre termos uma meta que nos faça não parar, sentar e apenas diluir o silêncio na mente. Aquelas, para manter o homem em combate diário que o ajude a ver o tempo findar.  Vivemos perdidos e sufocados, sem evocar o chatíssimo tópico de vida contemporânea do século XXI. Não, não nos perguntamos sobre a vida eletrônica, trabalhosa, maquinada, arquitetada, construída. Perguntamos-nos muitas vezes sobre o inconformismo em pensar que poderíamos apenas sentar e esperar os dias passarem. O fim não é o mesmo para todos? Por que nossas células resistem por tantos anos se viver poderia ser apenas estar e desaparecer? Sente-se, acomode-se, ajuste o volume de seu televisor, computador ou aparelho da surdez. Procure uma madrugada calma, solitária; ou receba apenas aquele amigo que você tem certeza manter a moderação e a ponderação durante um filme de uma hora e vinte e dois minutos. Assista a estranheza, veja a realidade.

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Cao Guimarães levou às telas personagens que encantam e criam probabilidades adventícias em quem os discerne. Prostitutas, mendigos, bêbados ou andarilhos despertam no interesse subjetivo, na ânsia por respostas, o contato ao desconhecido intraterrestre que parece estrangeiro do intelecto teatral das sociedades. Bêbados, catadores, loucos, falantes, moradores públicos, maltrapilhos. Um convite mundano ao ignorado patamar da não-sociedade, do não-cotidiano. Em “Andarilho”, Cao Guimarães conseguiu captar algo entre a angústia e a serenidade, o verdadeiro e o falso que ninguém consegue provar. Além de cenas, “Andarilho” resgata sentimentos e sensações. No filme, além de homens, céu e estradas, personagens cúmplices dessa categoria humana dos “não-sociedade”, o silêncio devastador da solidão, da enganação e daquilo que, às vezes, parece aproximar-se do ser humano mais puro, mais próximo de sua animalidade. Palavras que questionam a vida e o tempo. Perguntas que ninguém pode responder. Quem está acima, se existe espírito, qual a força das santidades, a possível existência de algo além-físico, o homem que manda no próprio homem e nas outras espécies; dezenas de perguntas sem resposta e afirmações possíveis de ser realidade. Quem somos e porque aceitamos ser assim?

Um andarilho que deita atormentado sob uma mesa de sinuca. Um inseto que caminha sem culpa e sem destino, apenas sobrevivendo. Barulho de colher contra panela e dois pés que, de tão curiosa gravação, faz o telespectador esquecer serem de sua mesma espécie.

Diálogos como:

“É, cada um tem um ponto de vista.”

“E o álcool?”

“O álcool é cachaça.”

“Mas não é espírito?”

Por motivos terrenos e questionamentos que todo ser humano tem em algum momento da vida, “Andarilho” é um filme que toca e que merece ser visto. Fotografia admirável, cenas embaladas por uma trilha deprimida onde o diálogo torna-se desnecessário. Um encontro pelas estradas deste país pelo viés de andarilhos.

Filme: Andarilho Ano de estreia: o mesmo de “A pele” Direção: o mesmo de “A alma do osso”

ANDARILHO, pelo viés de Bibiano Girard

bibianogirard@revistaovies.com

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