DIPLOMACIA SUJA

A diplomacia é vista como uma posição de destaque dentro do cenário internacional. O ápice dessa carreira é o cargo de embaixador, em que um diplomata se torna a representação física do seu país de origem em terras estrangeiras. O encantamento é tanto que, só no Brasil, por exemplo, 8.869 pessoas se canditaram às 108 […]

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A diplomacia é vista como uma posição de destaque dentro do cenário internacional. O ápice dessa carreira é o cargo de embaixador, em que um diplomata se torna a representação física do seu país de origem em terras estrangeiras. O encantamento é tanto que, só no Brasil, por exemplo, 8.869 pessoas se canditaram às 108 vagas do serviço diplomático brasileiro em 2010, coordenado pelo Instituto Rio Branco, em Brasília. O livro Diplomacia Suja, do britânico Craig Murray, recém lançado no Brasil, é a primeira edição em língua estrangeira da obra que relata os três anos em que o autor foi embaixador do Reino Unido no Uzbequistão.

 

Craig Murray (primeira foto abaixo) nasceu na cidade de West Runton, no nordeste da Inglaterra. Estudou História Moderna na Universidade de Dundee, na Escócia e entrou no Her Majesty’s Diplomatic Service (Serviço Diplomático da Sua Majestade) aos 26 anos, em 1984. Desde então, ocupou postos na Nigéria, na Polônia, no Chipre, em Togo, em Gana, na Libéria e em Serra Leoa. No entanto, foram os três anos no Uzbequistão que jogaram os holofotes a Murray.

Ele fez duras críticas ao presidente uzbeque Islom Karimov (primeira foto acima), no poder há 20 anos, e ao seu regime ditatorial. Murray foi o primeiro embaixador no Uzbequistão a viajar pelo país a fim de conhecê-lo e, assim, teve a oportunidade de se inteirar à realidade uzbeque, tendo tido contato com grandes personalidades do país, como músicos, escritores e ativistas políticos, quase todos vítimas de algum atentado do governo de Karimov. Lá, é comum as autoridades matarem parentes de ativistas políticos como aviso ou simplesmente condenarem ativistas à morte por crimes que não cometeram. Dessa forma, oficialmente, não são execuções políticas.

Murray enviava constantemente relatórios ao Foreign and Commonwealth Office (equivalente britânico do Ministério de Relações Exteriores brasileiro), descrevendo a situação no Uzbequistão e condenando o apoio do Reino Unido à aliança entre os EUA e o Uzbequistão na “guerra contra o terror”. No livro, Murray relata vários momentos em que as autoridades estadunidenses davam discursos vazios e hipócritas sobre como o Uzbequistão estava progredindo na abertura econômica e nos direitos humanos. Ao mesmo tempo em que agradeciam o apoio do presidente Karimov na invasão iminete ao Iraque, os EUA financiavam a ditadura que ainda hoje corroi o povo uzbeque.

São corriqueiros, no livro, os relatos de invenções estatísticas para impressionar representantes de organizações internacionais, como as do BERD (Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento), a fim de que estas financiem obras no país. No Uzbequistão, mantém-se o sistema soviético, em que todos os negócios são controlados pelo governo. Isso, neste caso, não implica estatização, só um controle elitista por aqueles ligados ao governo. Para parecer que estão se abrindo a privatizações, o governo de Karimov inventa empreitadas em parceria com multinacioanais. Os negócios nunca deixam de ser projetos e Karimov, seus aliados e algumas das multinacionais acabam ficando com o dinheiro do financiamento.

Durante todo o livro, é impossível não se irritar com certas figuras como Islom Karimov, Tony Blair e George Bush. Enquanto eles fazem o que querem com nações inteiras e com o dinheiro do trabalho do povo, no Uzbequistão, oposicionistas são torturados e mortos por afogamento em água fervente; nas plantações de algodão – motor econômico uzbeque -, estudantes e professores universitários, médicos, enfermeiros e pacientes são obrigados a trabalhar na colheita da planta, sem ganhar nada e a ver o lucro ir todo para as mãos do governo.

Murray, porém, não mostra tudo isso com olhos heroicos. Relata também seus casos extra-conjugais e seus porres diplomáticos. Longe de ser santo, Craig Murray viu com seus próprios olhos o que o pacato cidadão ocidental sabe, mas finge não ver. E bem por isso, Murray foi retirado do posto pelo governo britânico em 2004.
O autor ainda publicou outros dois livros: Murder in Samarkand (Assassinato em Samarcanda) e The Catholic Orangemen of Togo and Other Conflicts I Have Know (algo como Os laranjeiros católicos de Togo e outros conflitos que eu conheci) – ambos ainda sem versões brasileiras.

“Tomei o avião de volta para Tashkent [capital do Uzbequistão], deprimido e preocupado. As reuniões em Londres tiveram um impacto profundo. Eu servia meu país havia vinte anos, com orgulho, na crença de que ser britânico acarretava certas linhas de conduta fundamentalmente decentes. Rejeitar a tortura, por exemplo. Descobri que estava enganado e o governo britânico nunca defendera esses valores básicos, ou deixara de defendê-los. Senti uma profunda desilusão. O objetivo de toda a minha vida profissional parecia ter evaporado”.

(por Craig Murray, em Diplomacia Suja, páginas 233 e 234)

Título: Diplomacia Suja
Autor: Criag Murray
Tradutor: Berilo Vargas
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 58,00

DIPLOMACIA SUJA, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@revistaovies.com

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