JANELA DA ALMA

Quem tem olhos, veja! Em Janela da Alma, José Saramago, escritor que venceu o Nobel de Literatura após publicar Ensaio sobre a Cegueira, diz a seguinte frase: “Para conhecer as coisas, há de dar-lhes a volta toda”. É isto que João Jardim e Walter Carvalho fazem: dão uma volta completa num tema que parecia hermético, […]

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Quem tem olhos, veja!

Em Janela da Alma, José Saramago, escritor que venceu o Nobel de Literatura após publicar Ensaio sobre a Cegueira, diz a seguinte frase: “Para conhecer as coisas, há de dar-lhes a volta toda”.

É isto que João Jardim e Walter Carvalho fazem: dão uma volta completa num tema que parecia hermético, a visão humana, e conseguem criar um documentário humano, filosófico e poético.

Machado de Assis disse que os olhos são a janela da alma. É olhando dentro dos nossos olhos que as pessoas realmente nos conhecem e é a partir deles que criamos nossa percepção do mundo. Logo, o que vemos e como vemos se reflete diretamente no que somos.

Janela da Alma traz dezenas de depoimentos de pessoas que, através de seus modos peculiares de ver (ou não) nos mostram perspectivas que, com nossas visões perfeitas jamais procuraríamos. Entre as pessoas que contam suas experiências para as câmeras estão: o cineasta Wim Wenders, que aprendeu com a armação de seus óculos a ver o mundo sempre enquadrado; o neurologista e escritor Oliver Sacks, que escreveu vários livros sobre seus pacientes com problemas de visão; o músico estrábico Hermeto Paschoal, que se aproveitava disso para olhar para várias moças ao mesmo tempo; Evgen Bavcar, um fotógrafo francês que tira belíssimas fotos mesmo sendo cego; o escritor João Ubaldo Ribeiro, que não gosta de tirar os óculos na hora de transar; Arnaldo Godoy, primeiro vereador cego de Belo Horizonte, que parece conhecer sua cidade melhor do que aqueles que a vêem todos os dias; a cineasta Marjut Rimmnen, que transformou a dor que sofreu na infância, devido a uma deformidade nos olhos, em arte; entre outros

Em outro trecho Saramago levanta a questão que o motivou a escrever seu livro de maior sucesso: “E se nós fôssemos todos cegos?”, ao que ele mesmo responde: “Mas nós estamos realmente todos cegos! Cegos da razão, cegos da sensibilidade…”.

Por ser tão sensível, Janela da Alma talvez nos devolva um pouco da visão que o escritor português dizia termos perdido. Esse filme é para ser visto com ou sem óculos, com ou sem lentes, com e talvez até mesmo sem visão. É um filme para ser visto com a Alma, e basta.

Filme: Janela da Alma Ano: 2002 Direção: João Jardim e Walter Carvalho Produção: Flávio Tambellini Elenco: José Saramago, Wim Wenders, João Ubaldo Ribeiro, Hermeto Paschoal, Oliver Sacks, etc

JANELA DA ALMA, pelo viés de Felipe Severo

felipesevero@revistaovies.com

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