A NATURALIZAÇÃO DOS PERSONAGENS

ESTANTE: Se o mote artístico é o de encaminhar o apreciador por caminhos obscuros para esclarecer, Abajur Lilás parece contrária. Pelo viés de Caren Rhoden

A+ A-

"O varal". Foto: Bibiano Girard

A peça O Abajur Lilás foi apresentada pela vigésima-quinta vez nessa última sexta-feira, 6 de maio. Isso seria apenas um número caso não houvesse uma nítida mudança na forma de os personagens se portarem no palco. Muitos espectadores novatos, depois dos risos provocados principalmente por Giro, Célia e Leninha, comentavam a força das cenas e o impacto da realidade representada.

No momento do debate, os atores, técnicos e o diretor da peça falaram aquilo que deixa curiosa grande parte dos que assistem e ainda, para aqueles que já viram muitas vezes, impressiona: de que é feito e como foi o processo de montagem dessa peça . Se o mote artístico é o de encaminhar o apreciador por caminhos obscuros para esclarecer, Abajur Lilás parece contrária, na claridade do cotidiano deixa uma sensação pesada, negra. Onde está o grande trabalho aí?

Entre os atores, um ou outro pôde basear-se em personagens reais, da esquina ou de suas casas. Outros juntaram pitacos e na discussão dos ensaios edificaram os trejeitos, os risos e o próprio cenário que se modificou (o varal ampliado) após a sugestão de um crítico. O grande risco da interpretação de prostitutas, cafetões e/ou leões-de-chácara é cair em um estereótipo que, como tal, é limitado.

Falando àqueles que lá estiveram pela primeira ou décima vez, digo que pudemos presenciar o trabalho transformado depois do tempo de repetição e apropriação dos personagens pelos atores. Dentro de suas energias, de seu palco vazio interno, cresce um outro ser, humano e, por isso, complexo, limitado àquilo que não alcança, não pode, mas nunca limitado a uma faceta; acontece a naturalização do personagens.

Isso se dá e pode ser percebido quando o texto flui de maneira a sair, como algo que esteve internalizado, que passou pela cabeça e veio à tona, não como algo que esteve em um papel, pronto e depois foi decorado. A absorção facilita o improviso que a peça permite e propõe, dá veracidade aos movimentos e às explosões, à violência que não é levada muito a sério no início, mas que indica e prepara o espectador para o choque final. A época dessa peça a justifica, no entanto não a encerra.

Longe de algo sarado na sociedade, comprovado pelas profissionais do sexo de Santa Maria, que viram a peça em outro momento, a brutalidade chega a ser maior nos fatos. A frente do palco instaura-se um silêncio maciço quando, fora dos desvios – o álcool, o fumo, maconha ou tabaco, a criança – a canção de fim de noite é entoada de um modo grave a prenunciar o início daquilo que parece não ter fim, a tortura.

É dado o tal caminho obscuro para o espectador, no entanto sem a claridade, a qual Dilma e Leninha também gostariam e não encontram, quem assiste não se vê, habitualmente, mas se choca. Sabido, porém oculto. A cada vez é mais intensa a troca, o jogo. Nessa apresentação, vimos as características de uma naturalização e, para quem assiste, ainda que tão rude casa, é bom e sinal de maturidade de O Abajur Lilás, que os personagens sintam-se em casa.

A NATURALIZAÇÃO DOS PERSONAGENS, pelo viés de Caren Rhoden

 

Não perca: Durante o “1º MOSAICO TEATRO POR QUE NÃO?”, Caren Rhoden apresentará uma crítica da última peça apresentada durante o evento, e no dia seguinte, você pode ler sobre a próxima peça.

 

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone