AQUELE QUE DIZ

É visível que tudo que está interpretado com força, vem de uma pergunta feita com muita força.

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Aquele que diz, por Francieli Rebelatto

“Aquele que diz” é um monólogo montado por Deivid Gomes a partir de “Aquele que diz sim/Aquele que diz não” de Bertolt Brecht, dramaturgo alemão. No monólogo, é a história de um menino que, junto de outros soldados convocados, deseja ir em busca da cura para uma epidemia que já chegara à sua mãe; o professor general, primeiramente, renega o menino, em seguida – quando lemos o pensamento do professor projetado ao fundo do palco: Um bala disparada por um menino mata tanto quanto a disparada por um homem,  muda de ideia. O menino abandona a mãe e vai. No caminho e no confrontamento sente-se frágil e, diante do impasse e da tradição de seu povo, pode morrer na desistência da luta ou lutar para sobreviver e levar a cura para sua mãe. Honra e sentido.

No debate, um dos mais produtivos do Mosaico enquanto tema, questionou-se a valia de uma discussão que parecia anacrônica, já que os escritos originais de Brecht são dos anos 30. Temos uma guerra explícita, declarada? Quem pode se identificar com a representação de algo passado? Aí está onde entra o espectador, muito solicitado por Deivid durante a peça para que a pergunta repercuta: quem consegue escolher? A guerra não está declarada nas ruas de nosso país. As armas de fogo se transformaram em nosso tempo e é dessa noção que se vale o fundamento da pergunta; ainda sem considerar os países onde a guerra acontece fisicamente, ao modo familiar de guerra.

O medo e o conservadorismo de nossas instituições, essas datadas para antes do século XX, são dois pontos para se pensar. Em um espaço que Brecht dá, o ator se questiona também e como partida. É visível que tudo que está interpretado com força, vem de uma pergunta feita com muita força. Por momentos, a exasperação da cena é tanta, que como espectadora senti-me desconfortável, pois sim, esse é o intuito. Entre sarros sérios no limite da agressividade, cenas irônicas e boas, como a que o ator dá o texto tal um padre benzendo.

As personagens menino, professor general e soldados são fortes, com características bem delineadas. Por serem abstratas hoje, como já foi dito, talvez não cheguem com a mesma veemência com que são interpretadas, fragilizam-se pelo conto metafórico que parecem, ainda que auxiliadas pelo uso de imagens atuais em uma tela branca. No final, Deivid canta uma música de sua autoria e, saindo das personagens, valendo-se de sua própria dúvida, mostra, com a coragem de toda a sua intenção, que quer ouvir, que também não está assegurado pelas formas tradicionais. Ele está imerso no monólogo do início ao fim e completamente.

AQUELE QUE DIZ, pelo viés de Caren Rhoden

carenrhoden@revistaovies.com
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