O VIGOR DAS COISAS ETÉREAS

O cheiro da moça chega com um canto e a partir daí todos começam a conhecer os trejeitos de cada personagem. Seu Nacib, futuro marido, o padrinho do casamento e futuro amante de Gabriela, as principais delas. A inocência de uma criança junto da sensualidade fazem a personagem atraente como a vida intensa deve ser […]

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Gabriela, cravo e canela, por Francieli Rebelatto

O cheiro da moça chega com um canto e a partir daí todos começam a conhecer os trejeitos de cada personagem. Seu Nacib, futuro marido, o padrinho do casamento e futuro amante de Gabriela, as principais delas. A inocência de uma criança junto da sensualidade fazem a personagem atraente como a vida intensa deve ser e é. Nacib, certo da poeira dos retirantes, assombra-se com a beleza banhada da jovem.

A atriz Juliet Castaldello, em seu monólogo, montou a situação para deslumbrar o espectador. Entre as ótimas escolhas estéticas, a luz, ora amarelada, ora avermelhada, em outros momentos centralizada em uma personagem, faz no chão do palco sombras certas, junto do emaranhado através da teia de tecido ao fundo. O calor moreno de Gabriela está aí, o sabor e o cheiro da comida preparada.

Provavelmente, a quem estava sentado, a música do espetáculo tenha sido o grande ponto. Os músicos Fernando Graciola, Fernando Menino, Gabriel Optiz e Evelíny Pedroso executavam a trilha sonora ao vivo, o que sempre traz veracidade a uma cena. A aflição, o encantamento, o perigo, a dúvida, a melancolia, são provocados pelo som de instrumentos como berimbau e caixa de objetos barulhentos.

Do conjunto, porém a parte, vale falar, admiradamente, da voz de Evelíny. Com o visual próprio complementando a cena, a cantora tem a doçura do que é espiritual. Prostrada ao fundo, com sua cabeleira negra, de vestido branco, a voz tremula vindo para fora da boca, instavelmente. No limiar tão seguro de voz, estava a vida, mais uma vez. Não é um exagero, pois se Gabriela é dançante e linda, por dentro dela, quando deixou a cidade, as coisas não estavam tão seguras assim. Próprio daquilo que segue, daquilo que é, o vigor se enraíza nas coisas mais etéreas.

Juliet e Evelíny fizeram o espetáculo para bons leitores de e com os seus sentidos – ou seja, para todos nós. Quanto às técnicas de interpretação, ficam em um plano corpóreo, no caminho do aperfeiçoamento da variação de uma personagem para outra e daí para o narrador da história. Para tê-los completamente, há o tempo de sabê-los complexos.

Ficam aqui os nomes que merecem aparecer sob apalusos: Juliet Castaldello, que concebeu e atua, Vinícius Canto Blanco, pela iluminação, os músicos já citados, Evelíny novamente, pela simples e certeira cenografia, além de todos que executam a peça. 

O VIGOR DAS COISAS ETÉREAS, pelo viés de Caren Rhoden

carenrhoden@revistaovies.com

 

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