UM PRESIDENTE DE ROUPAS ÍNTIMAS

ESTANTE: São documentários como esse que desvendam às classes avessas a governos populares o porquê da notoriedade de homens como Evo. Pelo viés de Bibiano Girard.

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Capa do filme "Cocalero", de Alejandro Lanes

Um salto na água e zás: afundam os cabelos negros em um rio que corre forte na província de El Chapare. De cuecas e camiseta verde ostentando o número dez nas costas, está Evo Morales à beira do rio o qual se banhou na infância. Juntos, estão seu motorista oficial, Javier Escaleras, seu assessor de imprensa, Marcelo Zurita, e outras pessoas que acompanhavam aquilo que nem se pode chamar de comitiva. Lembra mais um passeio entre amigos.

-Olhe, Marcelo, não deixe que se afogue! Sem presidente nós vamos cair! – diz uma voz feminina entre risos. E o banho pré-presidencial alarga um sorriso.

Esta é uma das cenas do documentário COCALERO, de Alejandro Landes, o qual vem nos apresentar a figura de Evo Morales, o primeiro indígena eleito presidente da Bolívia. O documentário é uma sucessão de cenas inusitadas. Neste meio urbano moderno de posturas esmeradas de chefes de Estados ou candidatos a tal posto, Evo conversa bucolicamente com a peluquera Edmerinda Sinka sobre quantas pessoas foram ao seu comício na última tarde enquanto esta corta seu cabelo brilhoso. “Esta manhã meus companheiros disseram que havia mais de 140.000 pessoas reunidas. Pelo menos eu creio que havia umas 80.000”, diz o cliente em meio a sorrisos. “Sim, chegava até a Avenida Montes. Não podíamos nem passar”, diz a cabeleireira. Este é o clima do documentário. Quem imaginou um candidato a Presidente transitar a pé pelas ruas da capital entre a população transeunte para alcançar seu próprio comício?

O instigante do filme fica com as cenas em que os próprios eleitores de Evo raciocinam e discorrem as maneiras de se vencer uma eleição. A película mostra também a aversão aflorada dos povos bolivianos contra os yankes, os Estados Unidos, que querem destruir a principal forma de sobrevida do local: a plantação de coca. “Nós não fazemos droga da folha da coca. Quem faz são eles, os Estados Unidos. Eles nos pedem. Mas a droga é coisa deles. Olha a Coca-Cola. Se pedíssemos para parar a produção da Coca-Cola, que é internacionalmente conhecida, eles não iam gostar, não é?”, diz modestamente um senhor recém adepto à política para eleger Evo.  

O documentário COCALERO tem aproximados 97 minutos que parecem durar menos da metade. O diretor e a produção conseguem entrelaçar histórias e acontecimentos para que cada lacuna seja preenchida. Acabamos conhecendo as mulheres candidatas ao Senado, penteando seus longos cabelos sob casinhas de madeira no meio da mata e com o discurso organizado e convicto. Conhecemos igualmente a porta-voz da candidatura de Evo, Adriana Gil, uma bela moça que exibe na tela sua certificação de que só um governo popular, comandado por um indígena que entende as principais reivindicações de seu povo, poderia salvar a Bolívia do avanço nocivo dos estadunidenses.

COCALERO, mesmo com final previsível gravado em cenas inesperadas, como o questionamento de uma senhora sobre qual roupa Evo usará após eleito, entra para a lista de filmes realizados na América Latina sobre a vida, as eleições, a popularidade e a política dos estadistas que já ingressaram na história do continente e do mundo após serem eleitos para tentarem reverter a década condenada do neoliberalismo: 1990. São documentários como esse que desvendam às classes avessas a governos populares o porquê da notoriedade de homens como Evo. É assistir para compreender.  

UM PRESIDENTE DE ROUPAS ÍNTIMAS, pelo viés de Bibiano Girard

bibianogirard@revistaovies.com

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