
Miguel Ángel Asturias
Bem como escreveu o redator Gianlluca Simi na resenha sobre o filme Katyn, apresentado na Estante do Viés, expondo que no filme polonês “não há sangue para todos os lados, como de costume em filmes de guerra, pois este não é um filme de guerra, mas uma película que nos põe a questionar”, um livro que também se passa em um ambiente de guerra mas que não jorra sangue para todos os lados pois trata literariamente das imundices da bestialidade da guerra é “Week-end na Guatemala”.
O livro de 250 páginas escrito pelo vencedor do Nobel de Literatura de 1967, Miguel Ángel Asturias, que já havia recebido o prêmio Lenin da Paz de 1966, é uma busca íntima de personagens que não creem naquilo que enxergam durante a invasão da Guatemala, em 1954. No Brasil, a última edição publicada faz parte do acervo da editora Expressão Popular, editada em 2002 a partir da tradução original de Antonieta Dias de Morais, de 1968.
Cada história pode ser lida à parte, mas só ao final do livro é que o leitor percebe quão unidas estão narrativas tão impressionantes, tão dramáticas, mesmo sem escorrer sangue demasiado. São homens e mulheres que se questionam porque um país tão pequeno, tão “imperceptível” perante o tamanho dos Estados Unidos, é rechaçado por bombas e tiros de uma hora para outra enquanto tentava estabelecer um governo popular. “Como assim estamos em guerra?”, pergunta-se um militar estadunidense. “Eu não podia crer que meu país estava em guerra contra uma nação tão inofensiva”, desabafa.

Os dois grandes perigos imperialistas do livro resumem-se ao governo estadunidense e à força indireta de uma empresa com interesses sórdidos. O financiamento da American Fruit Company, a La Frutera, faz o jogo obsceno, pois não querendo intervir abertamente, promove um recrutamento em massa em vários países latino-americanos de soldados pertencentes à escória social da época, formando um exército grotesco de mercenários afrontando contra o pequeno vizinho e irmão latino.
Week-end na Guatemala é um estouro de sentimentos e pensamentos, uma liga de aborrecimentos, de dor sentida na alma, visível, mas intocável. São bombas de um lado e unhas do outro. A bestialidade dos combatentes “heróis” do Tio Sam contra camponeses com as enxadas nas mãos. É um rio desmedido contra um fio de sangue que corre para o mar.
WEEK-END NA GUATEMALA, pelo viés de Bibiano Girard
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