A JORNALISTA E O MINISTRO: UM DEBATE ÉTICO?

ESTANTE: As declarações de Nelson Jobim à repórter de piauí e o livro “O jornalista e o assassino”, de Janet Malcolm. Pelo viés de João Victor Moura.

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“O encontro jornalístico parece ter sobre o indivíduo o mesmo efeito regressivo que a psicanálise. O indivíduo torna-se uma espécie de filho do escritor, considerando-o como uma mãe permissiva, que tudo aceita e tudo perdoa, e esperando que o livro seja escrito por ela. Evidentemente, o livro é escrito pelo pai severo, que percebe tudo e não perdoa nada”

Janet Malcolm, jornalista estadunidense de origem tcheca, descreve assim a relação existente entre um jornalista e seu personagem no livro “O jornalista e o assassino”.

O livro descreve o caso MacDonald x McGiniss. MacDonald é um médico, que cumpre sentença por ter assassinado sua mulher e suas duas filhas. McGiniss é o jornalista que promoteu contar uma versão íntegra da história de MacDonald.

Durante os preparativos do julgamento, que culminou na sentença contra MacDonald por assassinato, McGiniss se aproximou do, então, acusado. Queria escrever um livro sobre o caso e prometia contar também a versão de MacDonald da história. Muito tempo se passou sem que McGiniss deixasse claro que não acreditava na versão do acusado.

A relação que os dois personagens, o jornalista e o assassino, haviam criado dava a entender que o livro seria brando com MacDonald. No entanto, no livro, o médico era retratado como um psicopata frio que não havia se arrependido de seus atos. Ao ver a versão criada pelo jornalista, MacDonald decidiu processá-lo por crime contra a honra, que daria origem ao caso MacDonald x McGiniss e ao livro de Janet Malcolm.

Vimos, na última semana, um caso que fez lembrar a frase escrita por Malcolm. Um perfil do então Ministro da Defesa Nelson Jobim, escrito pela jornalista Consuelo Dieguez para a revista piauí, dava fim aos mais de quatro anos dele a frente do cargo.

A frase que decretou a saída do ex-ministro foi dita durante um almoço em que discutia a liberação de documentos sigilosos do Estado: “É muita trapalhada, a Ideli é muito fraquinha e Gleisi nem sequer conhece Brasília”, referindo-se às ministras das Relações Institucionais e da Casa Civil.

Em outro trecho de “O jornalista e o assassino” Janet Malcolm compara a relação entre aquilo que o personagem, MacDonald, disse ao jornalista sob o tal “efeito regressivo da psicanálaise” e que depois foi usado contra ele por McGiniss em seu livro e as cartas trocadas entre jornalista e personagem durante a formulação do livro, usadas contra o jornalista durante o julgamento do caso MacDonald x McGiniss. McGiniss trocara diversas cartas com MacDonald, nelas dizia estar ao seu lado, sem perceber que aquele material atestava sua culpa, assim como um gravador atesta as frases de um entrevistado.

“A narrativa devastadora que Bostwick [advogado de acusação] teceu a partir da incauta tagarelice epistolar de McGiniss foi como a narrativa que o jornalista tece a partir da conversa descuidada do entrevistado. Assim como este deblatera sem parar, sem dar mostras de estar consciente da presença do bloco de anotações ou do gravador que está guardando as palavras com as quais ele será empalado mais tarde, McGiniss, aparentemente, não se deu conta das consequencias de deixar atrás de si um registro escrito da sua intimade com MacDonald… E, precisamente do mesmo modo que o entrevistado, depois que o livro é publicado, tenta desesperadamente desdizer as coisas que gostaria de não ter dito ao jornalista, McGiniss, no julgamento, tentou repudiar suas cartas a MacDonald”.

Da mesma forma descrita no livro, Jobim diria, mais tarde, que não havia falado naquele tom sobre as ministras e que tudo não passava de “parte de um jogo de intrigas”. Jobim tentava negar suas “tagarelices”, mas sua situação já era insustentável. O ex-ministro já vinha abusando dos microfones nos últimos meses, fato que é, inclusive, citado na derradeira matéria de piauí, que se encerra com quase uma sentença de Jobim: “A única razão que me faz ficar no ministério é porque me dá prazer. Se deixar de ser prazeroso eu saio”. E saiu, fazendo o maior barulho possível e deixando uma pergunta: dessa vez foi o jornalista que usou seu personagem, ou o personagem que usou o jornalista?

A JORNALISTA E O MINISTRO: UM DEBATE ÉTICO?, pelo viés de João Victor Moura

joaovictormoura@reivstaovies.com

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