O LIVRO DO RISO E DO ESQUECIMENTO

Sete histórias sobre personagens que, em meio a conflitos distintos, constituem um panorama de reflexões sobre a República Tcheca pós invasão russa de 1968. Pelo viés de Liana Coll.

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Edição: Companhia das Letras. Imagem: Reprodução.

Milan Kundera,  em ” O Livro do Riso e do Esquecimento”, reúne uma série de contos independentes sobre personagens que, em meio a conflitos distintos, constituem um panorama de reflexões sobre a República Tcheca pós invasão russa de 1968. Todos as histórias conduzem um olhar sobre o esquecimento (em vários âmbitos) pelo qual a sociedade tcheca estava passando e que era obrigada a passar. Esquecer o passado, esquecer o “velho” regime, esquecer os ideais, esquecer a juventude, esquecer amigos e parentes desaparecidos. A sociedade vivia uma transição difícil de ser compreendida e digerida.

Entre as sete histórias, permeadas de erotismo e metáforas com tons fantásticos, destaco a trajetória de Tamina, uma mulher que luta para não apagar da memória a fisionomia do marido morto e que tem como meta de vida fazer apenas isso: trabalhar a mente para evitar o esquecimento. Tamina é, de certa forma, a personagem principal do conjunto do livro, por ser a única que aparece em duas partes. Também destaco a história em que Milan Kundera, em tom autobiográfico, fala sobre os últimos dias de vida do pai. Os diálogos entre pai e filho, o esforço do narrador para compreender o pai, que se via esquecendo palavras e penando para formar frases, e as crianças do lado de fora da janela do quarto cantando músicas de saudação ao novo regime formam um belo conto (ou relato, se formos tomar os sinais de autobiografia como base). Cada história é desenrolada de forma diferente da outra e, nelas, Kundera introduz um mar de metáforas relacionadas às condutas de vida.

Na história sobre um jovem filósofo que sentia-se inferior à namorada, há a introdução de uma palavra que, para o autor, é intraduzível: litost. Litost, segundo Milan, é aquela sensação de inferioridade em relação a outra pessoa. Esse sentimento faz com que tenhamos vontade de agredir esse ser que é superior em algum aspecto. Assim, agredindo-o, nos sentimos recompensados e fazemos com que o outro também se sinta miserável. “Litost funciona como um motor de dois tempos. Ao tormento se segue o desejo de vingança. O objetivo da vingança é conseguir que o parceiro se mostre igualmente miserável. O homem não sabe nadar, mas a mulher que levou o tapa chora. Eles podem, portanto, se sentir iguais e perseverar em seu amor”, explica no livro.

Além dessa expressão que fala sobre a “baixeza” dos seres, há uma metáfora no mesmo sentido, na história de Tamina, quando a moça vê avestruzes que abrem a boca mas que não emitem nenhum som. Ela fica desconcertada, pensando que eles trariam um aviso, mas nada. Na verdade, parece que há uma relação entre avestruzes e seres humanos. Ambos abrem e fecham a boca, numa convulsão por falar, mas simplesmente não tem nada a dizer – ou não o podem fazer.

E assim, entre metáforas e subjetividade; explicitação de situações e pensamentos carnais; entre o riso dos demônios e dos anjos (essa é outra metáfora) e entre os esquecimentos inevitáveis ou forçados, as sete partes constituem uma obra daquelas que terminamos de ler e o pensamento ainda viaja mais algumas horas ou dias para terminar as reflexões e conclusões (se é que há alguma) sobre o dito.

Kundera,  nascido na antiga Tchecoslováquia, é conhecido amplamente devido à obra “A Insustentável Leveza do Ser”, romance que, assim como outros livros do autor, têm como pano de fundo a República Tcheca na época em que os russos instauravam o regime comunista no país vizinho. Um regime de contradições na prática, que decepcionou não pela ideologia em si, mas por ter sido subvertido na implantação e na imposição a outros países. Milan tece uma crítica mais ampla sobre quaisquer regimes que tentem organizar e englobar sociedades e pensamentos diversificados – sejam eles regimes políticos ou de condutas de vida. O totalitarismo também permeia o pensamento e esse é um dos principais objetos de discussão de Milan Kundera.

O LIVRO DO RISO E DO ESQUECIMENTO, pelo viés de Liana Coll.

lianacoll@revistaovies.com

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  • http://ressentimento.wordpress.com Victor

    Que imensa satisfação ver mais alguém falando de Kundera além de mim nessa cidade – embora eu o tenha feito tão compulsivamente há alguns anos que cheguei ao ponto de nomear um blog justamente com essa palavra tcheca intraduzível à qual você se referiu. ( http://ressentimento.wordpress.com/ que, a despeito do endereço, chama-se “Litost” )

    Quando li esse livro, ele tornou-se quase imediatamente meu preferido – do Kundera e de todos, já que não sou tão leitor de literatura quanto de Milan Kundera. Nele vi pela primeira vez aquilo que Kundera chama de “unidade temática” de um romance, em seu próprio A Arte do Romance. Pois a despeito das histórias não se interligarem temporal e especialmente de forma convencional, a unidade do romance sobre o riso e o esquecimento é garantida precisamente pelos temas, e não pela ‘story’.

    Fora isso, minha lida acadêmica com os textos de Nietzsche e Sartre fez com que eu reconhecesse nesse conceito de ‘litost’ uma idéia com alcance e profundidade maiores (ou pelo menos potencial para descrever uma experiência ainda mais fundamental) que os de “ressentimento” e “má-fé” dos autores citados.

    Belíssimo texto. É um prazer ver o Kundera bem tratado por aí. Posso esperar mais Kundera aqui no Viés, ou já estou pedindo demais?

    Abraços!