VOCÊ NÃO FALA SOBRE O CLUBE DA LUTA

ESTANTE: A liberação machuca. A liberação tem um preço. Pelo viés de Nathália Costa

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Vocês lembram daquela cena maravilhosa quando o sujeito fecha o punho e começa a bater nele mesmo?  A liberação machuca. A liberação tem um preço.

Slavoj Žižek é filósofo e psicanalista esloveno, um dos principais teóricos de esquerda na atualidade. Do cerne do pacifismo de uma cadeira giratória, o filósofo comenta uma de suas maiores paixões: o cinema. Dentro desse contexto, explana aos presentes sobre o fetichismo da violência e os riscos do extremismo desmedido. Porém, não se trata de uma palestra sobre o fundamentalismo religioso, os gulags soviéticos, o dito terrorismo ou as ditaduras de Estado. O que Žižek comenta com propriedade é sobre uma face ignorada da violência: a face que desbrava, muito mais do que machuca, ou a face que mesmo sem levantar um punho é capaz de violentar o sistema. Nesse mesmo caminho, é para Žižek, tão mais violento que Hitler, o próprio Gandhi. A prática da desobediência civil desestrutura as bases da sociedade opressora. É uma resposta. É uma violência sem sangue.

Porém, a cena que o próprio filósofo esloveno comenta logo acima, não diz respeito à violência desobediente de Gandhi. É um trecho muito famoso do filme Clube da Luta (Fight Club, 1999, dirigido por David Fincher). O personagem e narrador central da trama, interpretado por Edward Norton, está em uma desmedida luta consigo mesmo. Através de socos e arremessos, o personagem obriga a si mesmo a experimentar o ápice de sua própria violência.

cena do filme Clube da Luta (1999).

O Clube da Luta não é só o fetichismo da violência no cinema. Não expressa apenas um grupo, criado e desenvolvido no submundo das lutas, procurando por sangue e fratura exposta. O grupo criado e mitificado em torno dos personagens de Brad Pitt e Ed Norton procura a própria libertação. As limitações do corpo superadas, a violência digerida, mais do que a masculinidade – a supremacia do próprio homem, como soberano perante sua dor, sua mente e seu corpo.

Instruídos a partir de regras (sendo que a primeira – e a segunda delas – é você não fala sobre o Clube da Luta!), os personagens vão partindo de tudo o que na vida lhes parecia ordeiro e esquematizado. Iniciando pelo personagem principal, interpretado por Norton, um homem comum norte-americano, cansado de um apartamento super mobiliado, catálogos de compra, horas extras de trabalho e poucos recursos de sentimento, decide provocar em si mesmo algum tipo de emoção e motivação pela vida. Começa a frequentar os chamados grupos de apoio e terapia – alcoólicos anônimos, portadores de câncer na próstata, leucemia. Descobre em meio aos integrantes uma certa catarse ou um meio um pouco incomum de ver sentido na vida ou de procurar sentir emoções diante dela.

É aí que Tyler (Brad Pitt) entra bruscamente na história. E as consequências da relação estabelecida entre os dois começa a puxar o personagem de Norton para uma espécie de coletividade violenta e autodestrutiva. Os dois então fundam o primeiro Clube da Luta, sucedido por outros mais que vão pipocando pelo país afora.  A organização começa a criar caras de terrorista, e o combate passa a ser não mais com o companheiro no chão, em meio a pés e gritos de êxtase e fúria: mas com próprio sistema. Contra o próprio sistema. É assim que o Clube da Luta passa a representar não somente aqueles que querem se libertar de si próprios através do embate, mas também um sistema em colapso, fatalmente revertido através de estratégias de terror, vandalismo, força e destruição.

brad pitt e edward norton.

Alguns filósofos anarquistas defendiam que a destruição gera a construção. Em algumas instâncias, a podridão social enraizada acaba sujeita apenas à destruição em massa. Sem diálogo. Sem conversações. No choque. O personagem, narrador comum, homem comum, torna-se aquilo que em sua mente representa a libertação e a autoconfiança. Mas, como disse o próprio Žižek, toda a libertação tem um preço. O que os personagens descobrem em suas investidas é que não é possível desejar o novo sem destruir o velho. O velho eu, a velha sociedade, a velha fraqueza.

VOCÊ NÃO FALA SOBRE O CLUBE DA LUTA, pelo viés de Nathália Costa.

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  • Henrique Cignachi

    muito boa sua leitura do filme, parabéns camarada!

  • Demetrio

    Bom ver esse tipo de material aqui n’o Viés. Zizek é um dos autores mais interessantes da esquerda contemporânea. Gosto muito, particularmente, das suas teorizações sobre cultura e subjetividade. Vale a pena ler!

    um abração.

  • http://fabriciokc.wordpress.com fabricio kc

    Excelente texto! Breve e certeiro: não se pode tirar dele uma palavra – nem é necessário colocar nenhuma mais.

    Toca em dimensões complexas: sentido de transformação íntima no encontro (e conflito) com a realidade objetiva – transfigurada no sistema.

    Muito bom ler!

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