O PALHAÇO DE OURO DE SELTON

Respeitável público das salas de cinema: conheçam Pangaré e Puro Sangue. Filme “O palhaço”, de Selton Mello, pelo viés de Bibiano Girard.

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Cena do filme "O Palhaço", de Selton Mello. Divulgação.

Circular como um picadeiro. Assim se mostra “O palhaço” para o público. Um filme que além de enriquecer os olhos com uma fotografia exuberante do sul de Minas Gerais, que além de mostrar uma cenografia e figurinos ricos, não deixa escapar o sentimento real da história: a paixão por viver, vivendo como se ama.

Ainda rimos com truões encantados dos acanhados circos que rondam nossas pequenas cidades carregando tudo o que tem em um caminhão, uma Kombi e uma camioneta. Ainda rimos pois a piada do palhaço é ingênua, é pueril e infantil. Nossa infantilidade permanece viva naqueles que se permitem, e ao assistir às velhas piadas de picadeiro, agora na tela do cinema, experimentamos a mesma emoção de sentar em uma cadeira surrada ou na arquibancada de madeira velha. “O Palhaço” faz rir, sim senhor. Mas nem sempre é ladrão de mulher. O palhaço ri, cai, apita, solta puns coloridos. E isso ainda nos faz rir. Selton Mello conseguiu um companheiro que de grandeza artística é intocável, mas que na dificuldade de encenar um velho alegre por manter seu circo vivo, mesmo que as circunstâncias nos camarins não sejam as mesmas da vida colorida do nariz vermelho, faz a sala de cinema silenciar: Paulo José é abissal e carrega a personagem sob tintas do rosto como poucos. Paulo José encanta apenas de olhar para nós e, sem dizer nenhum texto, mostrar o que representa uma lágrima.

Um filme de cenas pouco faladas. Muitas são as obras primas da sétima arte que sabem o poder do silêncio. E “O Palhaço” alcançou este grau. E mais arriscado ainda é lançar as cordas da lona sobre uma comédia triste. Nem todos logram façanhas como estas. Temos que reconhecer, ou reverenciar, nosso cinema em lance de ouro, sobretudo se focarmos as luzes sobre Selton Mello. O ator e diretor acertou em buscar no estilo artístico vaudevilleano, de misturar shows baratos com atores, cantores, palhaços, concertistas e figuras tomadas como “diferentes” do corriqueiro, para mostrar uma película de grandeza estética e com uma narrativa singular. Triste que faz rir e chorar ao mesmo tempo. Dicotômico trabalhado a fundo. Viver sob a apatia de querer saber o que há lá, mais lá, longe, onde parece que tudo vai ser diferente em nossas vidas. Ao perceber-se, a alma está sempre próxima do todo ao qual se relaciona.

Banner do filme. Divulgação

Com um elenco “novo” para as telas, exceto, é claro, os dois atores já citados (e outras figuras admiráveis do humor brasileiro que fazem pequenas exibições), o filme gira sob cores abafadas, um amarelo melancólico, uma falta de luz magnífica nos seus pormenores. E o elenco faz juz ao tamanho da beleza. Os indumentos da coxia, as lamparinas, as tintas, o vácuo de emoções de seres humanos atrás das cortinas que some em frente à platéia como aparição. Um palhaço que quer rir mas não consegue. Um pai que ri mesmo inquieto. Uma trupe de seres confusos em meio às desarmonias e às penosas situações da vida de andante. Nunca parar ou parar e deparar-se encarcerado naquilo que somos por que somos? “O Palhaço”, mesmo com um final que muitos espectadores esperam e não acontece, o filme dirigido por Mello, tendo Paulo José como um dos protagonistas, com pitadas de Delicatessen, Charles Chaplin e Federico Fellini, este último citado pelo diretor como “uma lembrança na maneira de gravar” é digno dos melhores prêmios. Não deixe de assistir.

Filme: O Palhaço Ano: o mesmo de Elvis & Madonna  Direção: o mesmo de “Feliz Natal” Elenco: Paulo José, de “Saneamento Básico – o filme“, Selton Mello, de “O cheiro do ralo“, Jackson Antunes, de “A festa da menina morta”  e mais.

O PALHAÇO DE OURO DE SELTON, pelo viés de Bibiano Girard

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