SOBRE SONHOS QUE SE ESVAEM

Cinzas do Norte é o terceiro romance do manauense Milton Hatoum, escritor já consagrado no panorama atual da literatura brasileira. Pelo viés de Liana Coll

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Imagem: reprodução.

Cinzas do Norte é o terceiro romance do manauense Milton Hatoum, escritor que, apesar das poucas obras, já é consagrado como um dos melhores escritores atuais da literatura brasileira. No livro, Hatoum tece a trama de seus personagens tendo a região amazônica como espaço e o período da ditadura militar, estendendo o enredo até o período posterior ao regime ditatorial, como tempo. Apesar de ter os anos de chumbo como pano de fundo de quase todo o enredo, não estamos frente a um romance político. Algumas críticas sutis são realizadas, no entanto, o desenrolar de Cinzas do Norte dá-se pelo universo particular dos personagens. Diálogos, descrições e alternância de vozes, escritas em uma linguagem simples e objetiva, compõem a fluência do romance.

Assim como em Dois Irmãos, Milton Hatoum explora personalidades opostas entre as personagens principais. Mundo, o protagonista, filho de um rico empresário, contesta a ordem e as amarras que o pai impõe para sua carreira de artista e para sua liberdade em expor sua personalidade e visões de mundo. Aí, talvez, podemos falar que no personagem há uma contestação, ainda que sutil, da ordem militar, já que o pai representa um influente, porém em decadência, nome local, que se utiliza das relações com as autoridades militares para manter os negócios prósperos e controlar a vida e as relações do garoto com outros artistas, considerados por ele como “desviantes”. Lavo, o narrador, é um menino órfão e grande amigo de Mundo. Vive com uma tia costureira e um tio boêmio. A tia é uma costureira que trabalha para comer e come para trabalhar. Relegada a uma vida quase sem sonhos, é um constraste ao irmão, que mais passa em bares e na rua do que em casa. Lavo, ao contrário de Mundo, é aluno exemplar na escola e objetiva tornar-se um grande advogado. Com um espírito observador, o narrador parece distanciar-se dos fatos ao contar a história. São poucas, porém marcantes, as passagens no livro em que expõe suas opiniões, sentimentos e anseios.

Na história, não podemos esperar outra coisa se não as interligações de parentesco entre as duas famílias, reveladas e insinuadas nas últimas páginas do livro pelo autor. Apesar de não serem exatamente surpresas, Hatoum parece relegá-las ao fim para causar no leitor as reflexões que toda trama sobre relações bem construída pode ocasionar.

No livro,  também se encontra passagens pelas cidades do Rio de Janeiro e de Londres. Nesta, Mundo vai tentar viver dos desenhos e obras que compõe, sonhando com a independência financeira – e moral – do pai. No Rio, a trama tem o principal desfecho alcançado. O título,  Cinzas do Norte, conforme sugere, declara a desconstrução dos sonhos e anseios sofrida pelos personagens. Todos, ao longo do romance, parecem carregar uma masmorra que casa com o clima da cidade onde vivem. Uma umidade, um torpor, vidas que se arrastam e que, por mais que caminhem, tendem a não deslanchar como se imaginava.

SOBRE SONHOS QUE SE ESVAEM, pelo viés de Liana Coll

lianacoll@revistaovies.com

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