CÁ ENTRE NÓIZ: AS RIMAS DA FLAVINHA

Uma resenha sobre o EP de estreia da MC santa-mariense Flavinha Manda Rima, Cá Entre Nóiz, disponível para download em primeira mão na revista o Viés.

A+ A-

Houve um tempo em que o espaço relegado às mulheres no rap, em geral, limitava-se ao de objeto reificado – ao lado dos carros e das joias que os segmentos do Hip Hop assimilados pelo mercado e já embebidos por seus valores orgulhosamente ostentam – ou à participação secundária nos sons cantando refrões. Flavinha não se furta de cantá-los, mas sua relação com o rap é de outra natureza: ela manda rimas, com propriedade e firmeza capazes de afugentar o mais machista dos MC’s.

Cá Entre Nóiz, primeiro EP da MC santa-mariense Flavinha Manda Rima, foi gravado em Porto Alegre, no Estúdio Câmara de Gás, e lançado em abril de 2012. Todas as cinco faixas que compõem o EP são gravações inéditas, embora algumas delas já fossem conhecidas pelo público dos eventos realizados nos bairros de Santa Maria pelo Coletivo de Resistência Artística Periférica (CO-RAP), do qual a MC – que também integra a Frente Nacional de Mulheres do Hip Hop – faz parte.

Se, em âmbito nacional, Flavinha Manda Rima é da geração de mulheres MC’s que lutou e ainda luta para que o “segundo sexo” deixe de sê-lo – inclusive – dentro do Hip Hop, localmente o registro de seu EP é também um marco importante para a cena do rap, pela qualidade, pelo nível e pela elaboração apresentados. Apesar de breve, Cá Entre Nóiz tem um repertório variado, que reflete a experiência da MC que é professora, mãe, filha de santo e, claro, mulher: da religiosidade afro-brasileira à reflexão sobre a experiência materna, Flavinha consegue passar até pelo gênero dos “sons de pista” sem escorregar em lugares comuns.

A primeira das cinco faixas do EP, O Rei da Rua, não é, como poderia parecer pelo título, uma reverência à fanfarronice de algum malandro: é, em verdade, uma homenagem ao orixá Bará Agelu e ao povo de santo que resiste com sua cultura no Rio Grande do Sul, apesar de todo o preconceito que ainda vigora. Sem medo da alcunha de macumbeira, a MC adepta do Batuque (religião afro-brasileira do sul do país) flui em atmosfera tensa, ao som de um loop de piano e da ambientação de cantos ritualísticos do culto afro, para homenagear na primeira faixa, simbolicamente, o primeiro e mais humano dos orixás. Com uma letra cheia de espiritualidade e rica em referências à tradição do Batuque, a MC reverencia o orixá que rege a sua passagem e, não por acaso, é tido como a entidade do movimento, do entreveiro e da juventude.

O repertório segue e, em tempos em que falar de revolução é, para muitos, discorrer sobre um assunto ultrapassado, a segunda faixa do EP, “Revolução”, insiste em recolocar o tema na ordem do dia. Em mais um boom-bap de clima intenso, a reflexão sobre situações corriqueiras à vida na periferia profere um chamado à auto-consciência e culmina na afirmação: “Tu só precisa, mano, de uma revolução”. Em seguida, “Era Isso…” traz uma perspectiva original para um gênero caro ao Hip Hop, por ter sido apropriado de maneira recorrente pela indústria cultural e responsável por ranquear artistas de sucesso como ações em bolsas de valores. Buscando um caminho diverso, sobre um instrumental de Tupac Shakur, o legado da Costa Oeste dos EUA acaba transformado em um som “de pista” que, com espaço para a sedução e a subjetividade, mas sem passividade ou submissão, questiona e reconstrói os valores da “noite”.

Na penúltima faixa do EP, “Eu e meu rebento”, a homenagem de Flavinha ao filho Davi é embalada por uma base cheia de suingue. Os versos retratam a bonita relação de cumplicidade com o filho, as fantasias do mundo de “piá” e a transformação que a experiência de ser mãe trouxe à vida da MC, sem esvaziar nem suprimir a sua singularidade: prova disso é que a maternidade só fortaleceu a vocação de rimadora e a homenagem vem na forma de um rap, inquestionável.

A paz pode ser um ideal de espírito, tal qual a liberdade pode ser uma condição dos indivíduos, mas não só: são também horizontes de transformação social que não dependem da aceitação resignada, e sim da resistência na coletividade. É este o tema da faixa “Liberdade e Resistência”, com participação do Front Liberdade e Rima, que finaliza o EP proclamando que a liberdade não se concede, se constrói.

O som de Flavinha Manda Rima é certamente um alento para todos aqueles que se reconhecem no falar característico das periferias da região central do Rio Grande do Sul. É mais uma das peças a mostrar que existe criatividade e elaboração no rap e que, inclusive, isso não é uma exceção; a ocasião de uma rimadora no controle do microfone também não é mais uma exceção, embora a luta por espaço e respeito ainda siga indispensável. Cá Entre Nóiz, mesmo breve e modesto, é um registro relevante para todos e todas que, conforme ensina a tradição do Hip Hop, festejam pelo direito de lutar e lutam pelo direito de festejar, sem esquecer, é claro, da importância de dançar na revolução que se constrói dia após dia.

Clique aquipara baixar o EP Cá Entre Nóiz, de Flavinha Manda Rima, e tirar suas próprias conclusões.

CÁ ENTRE NÓIZ: AS RIMAS DA FLAVINHA, pelo viés de Tiago Miotto

tiagomiotto@revistaovies.com

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone
  • Flávia Sortica Giacomini

    é uma honra ter meu trampo resenhado por essa importante revista, da qual sou fã…
    muito axé a todos