PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN

Um filme sobre o ponto de vista da família de um assassino. Pelo viés de Liana Coll

A+ A-

Eva jovem em festa tradicional na Espanha: a cena inicial do filme. Imagem: divulgação.

ALERTA PARA SPOILER! ESSE TEXTO CONTÉM TRECHOS DESCRITIVOS DO FILME

“PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN”

Uma jovem entre os tomates da tradicional festa espanhola: assim começa o filme Precisamos falar sobre Kevin,  filme adaptado de livro com o mesmo nome pela diretora escocesa Lynne Ramsay. Eva Katchadourian, interpretada por Tilda Swinton, aparece novamente um pouco depois dessa cena inicial, mas já mulher, com seus aproximados 40 anos. Sozinha, recebe palavras e atitudes hostis de outras mulheres e tenta reconstruir sua vida procurando emprego.

A ponte entre a primeira cena, da jovem alegre e aventureira, para a segunda, da mulher fragilizada e desconcertada, é desenrolada ao longo do filme. Uma gravidez indesejada e um casamento cortam o espírito viajante de Eva e a introduzem a uma vida calma de mãe para a qual não estava preparada. Quando nasce Kevin, o primeiro filho, Eva não consegue dar a atenção e os cuidados necessários à criança. Uma das cenas marcantes, inclusive, mostra a mãe passeando com o filho, que chora, pela rua. Desesperada com o choro de Kevin, para ao lado de homens que trabalham com britadeiras, tentando encobrir os ruídos do menino.

Depois de fase Kevin bebê, o ator Rock Duer interpreta Kevin com seus aproximados 4 anos. O menino não falava e não respondia aos estímulos da mãe – esta, agora esforçada na tentativa de melhorar sua relação com o filho. Era apegado ao pai e usava desse laço para que a mãe sentisse ciúmes e culpa por seu comportamento.

Kevin adolescente não dá menos preocupações. Ezra Miller interpreta o garoto, igualmente mimado e dissimulado. Kevin trata a irmã, nascida alguns anos antes, com frieza e ridiculariza as tentativas da mãe de aproximar-se dele.

As cenas, tanto de Kevin adolescente quanto de Kevin criança, se passam geralmente na casa da família, mostrando um cotidiano turbulento, no qual mãe e filho aparecem sempre em tensão. A mãe tenta conquistar o filho, o pai o trata como se a tensão com a mãe não existisse e o filho joga com a emoção de ambos.


Um dos momentos em que Kevin debocha da tentativa da mãe de aproximar-se dele. Imagem: divulgação.

A cena ápice do filme, a partir da qual se entende o porquê de Eva estar sozinha no presente, mostra jovens feridos ou mortos sendo socorridos na escola de Kevin e Kevin saindo preso. As cenas finais do filme são do garoto, dois anos após a prisão, recebendo visita da mãe, que ainda tenta entender os porquês do ato do filho e precisa lidar com a solidão.

Durante o filme, cenas com tons avermelhados destacam-se, compondo uma bela, e ao mesmo tempo sádica, fotografia. São os tomates da festa na Espanha, a tinta vermelha jogada no carro e na casa de Eva em sinal de protesto pela atitude do filho, as latas de extrato de tomate na frente na prateleira em que Eva tenta de esconder de uma mãe de estudante ferido na escola, as luzes dos carros da polícia, entre outras.

O espectador, conduzido a passado e presente ao longo de todo o filme, é levado a pensar se a educação dos pais molda a personalidade do filho, se a rejeição inicial da mãe justificaria o caráter de Kevin ou mesmo se Kevin cometeria tal ato mesmo se houvesse recebido todos os cuidados e carinhos que normalmente uma criança recebe. A falta de cenas sobre a convivência de Kevin com outras pessoas impede de compreender se o jovem sofria em relacionamentos de todo tipo. A inserção de alguns trechos de um suposto vídeo de Kevin justificando o massacre, no qual ele fala que a televisão e a sociedade é alimentada por esse tipo de casos escandalosos, entretanto, dá a entender que nem só a mãe era o centro de sua revolta.

Precisamos falar sobre Kevin é sem dúvidas um filme forte, que deve ficar na cabeça por dias após assistí-lo. É uma trama sobre o ponto de vista da família de um assassino e consegue passar a angústia, a culpa, o sofrimento e os questionamentos que ela passa ao lidar com a situação.

PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN, pelo viés de Liana Coll.


Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone
  • http://www.naopague.com Diego Carvalho

    Olá amigo,
    Quase sempre estou visitando seu site mas nunca deixei um comentário.

    Parabéns, sucesso.

    vlw abraço.

  • Marta

    Vi o filme mas não entendi nada, li isto aqui e estou matutando um pouco, não sou de não entender filmes, mas não achei esse ruim, só achei muito confuso, vou assistir outra vez. Obrigado por este post !!!

  • Mariele

    Acho que seria interessante incluir um alerta de ‘spoilers’ neste texto, já que se trata de uma descrição bastante completa do filme.

  • revistaovies

    Mariele, bem lembrado. Já adicionamos ao início da resenha a informação. Abraços!