SÍNDROME DE SALA DE REDAÇÃO

[ESTANTE] O que muitos jornalistas esquecem é que, numa sala de redação, existe toda uma estrutura de poder e uma rotina maçante como em qualquer outro emprego.

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–”Porque, na prática, é muito diferente!”

Não existe frase preferida para os estudantes de jornalismo e aos jornalistas que escolhem o caminho da preguiça intelectual quando afrontados por críticas à mídia. As constantes referências ao mercado como parâmetro para qualquer discussão, primeiramente, enraivecem e dão vontade de continuar debatendo. Depois de um tempo, percebemos que não há possibilidade de conversa com alguém que está berrando o mantra ‘na prática’ enquanto tapa as orelhas e faz de conta que é cego.

Quem fez ou faz jornalismo e não teve um colega, ou vários, cujo objetivo máximo de vida fosse se tornar famoso que mude de carreira! Sempre há os aspirantes a jornalistas que decidiram pelo curso porque não queriam ler muito no curso de Direito, porque foram iluminados por uma caixa de achocolatado ou porque, tão simplesmente, acreditam estarem pré-destinados ao sucesso e à fama da televisão e a risíveis aparições na coluna social com poses patéticas de ‘gente séria’.

O que muitos desses aspirantes a celebridades esquecem é que, por trás do imaginário da vida de um jornalista existe, sim, uma sala de redação, com toda sua estrutura de poder e sua rotina maçante – como qualquer outro emprego. O irônico é que esse fato seja convenientemente esquecido pelas mesmas pessoas que passaram a faculdade inteira urrando contra a suposta inutilidade da teoria como resultado da sua própria incapacidade de aceitar a validade da maioria das críticas.

Aí entra The Newsroom, série estadunidense que deve ser assistida por todos interessados em jornalismo e, pelo enredo potente, também por todos que só gostam de um bom drama. Mas essa série é especialmente destinada para quem acha que o Santo Mercado é o filtro de qualquer opinião, principalmente quando se fala da mídia.

A série estreou no ano passado no canal HBO e já entrou na sua segunda temporada. No elenco, estão dois grandes nomes, que encabeçam a série: Jeff Daniels e Emily Mortimer. Daniels faz o papel do âncora do fictício News Night, da também fictícia emissora ACN (Atlantis Cable News). Depois que sua personagem, Will McAvoy, destrói uma típica redneck quando esta lhe pergunta, durante um debate, ‘por que a América [sic] é o melhor país do mundo’, a emissora decide renovar o programa e contrata para o cargo de produtora executiva a personagem de Mortimer, MacKenzie McHale.

O programa dá uma guinada qualitativa e, de histórias de interesse ‘humano’, descritas pela dona da emissora na série como histórias que envolvem o uso de celular e as características dos novos produtos Apple, News Night começa a diariamente apresentar os eventos mundiais de forma crítica. Lá se vai a maioria dos mitos fundadores do jornalismo: News Night não é nem tenta ser imparcial nem neutra, mesmo que o discurso da produtora McHale por vezes beire o senso-comum sobre a área.

O mais interessante da série é que ela se utiliza de notícias e transmissões reais da época em que se passam as histórias. Grande parte da série circunda a cruzada pessoal de McAvoy contra o Tea Party e suas tremendas contradições. Não é incomum vermos a série usar trechos transmitidos pela megalomaníaca rede de extrema-direita Fox News, por exemplo.

The Newsroom mostra que não existe sala de redação livre de críticas e que, na verdade, todas as críticas feitas a ela se mostram inevitavelmente cabíveis. As personagens estão sempre carregando seus celulares, conectadas às atualizações que lhes chegam a todo momento; não têm hora para dormir e, seguidamente, levam trabalho para casa. Além disso, têm que lidar com a pressão da opinião pública e, em especial, com os donos das emissoras, que ficam de olho nas cifras da audiência – e só. Uma série de episódios da primeira temporada ilustra bem o exemplo quando a dona da ACN, interpretada por Jane Fonda, manda a divisão de notícias aliviar as críticas ao Tea Party porque ela tem negócios com políticos envolvidos no grupo.

Atenção especial deve ser dada, no entanto, à Sloan Sabbith, interpretada por Olivia Munn. Sabbith é doutora em Economia e faz o noticiário financeiro da emissora e seu papel era previsto para pequenas participações, mas a incrível atuação de Munn lhe rendeu a entrada no enredo principal da série. 

SÍNDROME DE SALA DE REDAÇÃO, pelo viés de Gianlluca Simi

gianllucasimi@gmail.com

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