SEBASTIÃO SALGADO E A RODA VIVA DA TEORIA E DA PRÁTICA

ESTANTE Uma entrevista que renova os valores da dialética: teorias são partes tão fundamentais quanto a prática

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Foto: Sebastião Salgado/ Amazonas Images

No início da faculdade de jornalismo rareavam as aulas práticas e sobravam teorias da comunicação e do jornalismo para jovens que, inexperientes e ávidos, desprezavam tratados teóricos e elevavam às alturas as possibilidades do jornalismo prático.

Passado alguns anos, a maioria de nós ainda não se encaixou na profissão que escolheu. O jornalismo é uma profissão ingrata e desgastante. Talvez por isso as memórias daqueles primeiros semestres voltam ao falar de Sebastião Salgado.

Fotojornalista brasileiro entre os mais reconhecidos do mundo, ao lado de tantos outros como Capa e Cartier-Bresson, Salgado é o mestre da contraluz e do enquadramento fotográfico – questões tão marteladas pelo professor de fotojornalismo, nosso único momento da prática naqueles dois primeiros semestres de fotografias toscas e desleixadas.

Foi na faculdade que a maioria de nós conheceu o trabalho de Sebastião Salgado. E foi na faculdade que achei, entre fotocópias doadas por alunos e egressos, uma entrevista extensa com Salgado, concedida ao jornalista Humberto Werneck e publicada na revista Playboy.

Naquelas páginas se entendia um pouco mais de Sebastião Salgado, que falava de sua obra – e do que pensava do mundo – de maneira aberta e vivaz, com conhecimento de causa de quem já deu a volta ao mundo retratando as várias facetas da humanidade para deixar claro que humanidade e desigualdade são um encontro tão terrível que o vazio pode consumir as cabeças mais fortes. Não por acaso Salgado cogitou seriamente deixar a fotografia alguns anos depois. As mazelas eram demais para um fotógrafo e suas lentes.

Foto: Sebastião Salgado/Amazonas Images

Tempo passado entre aquela entrevista e o ano de 2013, Sebastião Salgado dá outra grande e bela entrevista para o programa Roda Viva da TV Cultura, um dos poucos grandes patrimônios do jornalismo atual. Lançando mais uma exposição em São Paulo, e em meio às vendas de seu novo trabalho, “Gênesis”, Sebastião Salgado fala de variados assuntos e surpreende várias vezes.

Ao falar dos indígenas, faz uma dura crítica aos ruralistas e seu forte lobby no país, enfatizando, em TV aberta, aquilo que já vem sendo muito discutido nos espaços virtuais com menos alcance (como a revista o Viés): os indígenas e suas terras são cultura viva que deve ser devidamente respeitada, onde quer que esteja.

O fotógrafo falou ainda, para surpresa de seus entrevistadores, do seu otimismo com a questão ambiental do planeta, ilustrado por uma experiência que teve na fazenda onde se recolheu por algum tempo entre seus projetos. Lá ele viu com os próprios olhos a natureza renascendo em terras antes inférteis, o que o fez concluir: a natureza perdurará e sobreviverá, quem pode acabar mesmo é o ser humano.

Percepções políticas entremeadas por diversas histórias de uma rica trajetória como profissional e como ser humano, numa entrevista que renova os valores da dialética: política, comunicação e suas teorias são partes tão fundamentais quanto a prática cotidiana.
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SEBASTIÃO SALGADO E A RODA VIVA DA TEORIA E DA PRÁTICA, pelo viés de João Victor Moura

joaovictormoura@revistaovies.com

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