Mauros e Marcelos

“mesmo sem querer e entender direito, eu acabei me chamando uma coisa chamado exilado. Eu acho que exilado quer dizer: ter um pai tão atrasado, mas tão atrasado, que nunca mais volta pra casa”

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O ponto de vista de uma criança sempre permite distanciamento do universo dos adultos. É uma proximidade marginal, de quem ainda não concebe a complexidade das relações em que está inserido. A infância permite sofrer e esquecer em momentos sequentes, numa inquietação provavelmente mais esperançosa do que a de alguém que cultiva histórias com finais tristes. Dessa forma, vários filmes conseguem ser cativantes. Podemos pensar em Machuca, Valentín, Leolo ou ainda na história de Paisagem na neblina. Mas, em um caso brasileiro, me chamou a atenção o filme O ano em que meus pais saíram de férias. Chamou a atenção, principalmente, por nunca ter esperado muito dele, ainda que seu diretor seja um dos responsáveis pelo trabalho mais bem feito para crianças (fala uma espectadora), o Castelo Rá-Tim-Bum.

O ano em que meus pais sairam de férias/fonte: divulgaçãoPara mim, O ano em que meus pais saíram de férias entra na lista desses filmes sobre a infância que começam por nos dar vontade de rir e acabam por nos deixar em lágrimas. A frase final do filme é o retrato completo da realidade da criança misturada com uma época conturbada: “mesmo sem querer e entender direito, eu acabei me chamando uma coisa chamado exilado. Eu acho que exilado quer dizer: ter um pai tão atrasado, mas tão atrasado, que nunca mais volta pra casa”. Tentando pensar em tudo aquilo que me transportou para o sofrimento delicadamente comunicado, lembro-me da espera quando ninguém chega, do esquecimento de estar esperando, da súbita alegria, quase iluminada,  quando da chegada do esperado. Isso está muito bem retratado.

O filme fala em um ano específico, 1970, quando, em maio, teve início a Copa do Mundo no Brasil. Aumentando a qualidade do filme, nada é dito gratuitamente, não há exageros, mas, sim, um retrato do dia-a-dia da época. Fazendo a linha da história estão o menino, o futebol de botão, o pai. Para completar, sempre através do futebol, ficam contadas as pessoas que habitam o bairro Bom Retiro, em São Paulo: os judeus, os italianos, os gregos, os africanos. Uma comunidade, um comunista, uma mulher charmosa — que era a paixão da turma de garotos da rua —, um goleiro e namorado da mulher charmosa, então a figura que viria a encher o sonho de Mauro aos doze anos: ser negro e goleiro.

Como motivo, encontra-se a história brasileira, que tem, no dia 1º de abril, um de seus pontos culminantes. Os pais de Marcos eram militantes de esquerda. Um dia, então, levam o filho para ficar com o avô paterno, no Bom Retiro, dizendo que iriam viajar. No entanto, poucos minutos após a ligação do pai para o avô, o avô morre. O menino, como é deixado às pressas, fica sob os cuidados de um judeu despreparado para a companhia de alguém. Os boatos já são de que o menino é filho de comunistas. Assim, como um plano de fundo, fica registrado que algo estava acontecendo enquanto a maioria da população seguia seu cotidiano ‘normalmente’. Todos absorvidos pelo trabalho e, em seguida, pelas emoções das disputas de futebol.

Os cavalos dos militares, a presença da precaução no momento de falar de subversivos, a violência da repressão a militantes, o interrogatório de pessoal próximo a quem estava agindo ilegalmente. Fica tudo registrado na vida pacata de um bairro paulistano, através da consciência de uma criança que espera ansiosamente o retorno dos pais que o deixaram sem previsão de retorno. A incompreensão, expressa em cada personagem de uma forma, também demonstra um momento político que devastou qualquer noção de humanidade, transformando em caça àqueles que defendiam posições ideológicas contrárias ao regime. E àqueles que, de alguma forma, estavam embutidos no sistema, negando os direitos básicos, através da redução do investimento em educação e em saúde.

Há, no ano de 1970, alguma semelhança com a realidade de hoje. Não falarei aqui que o governo Dilma é uma ditadura; isso é uma bobagem. Mas, sim, de uma similaridade quando tratamos da atmosfera que o futebol pode causar em um país como o nosso. Na época, Pelé entrava em campo, ganhava a final contra o México. O mesmo rei que tenta acalmar as manifestações. Mas os manifestantes de hoje exclamam: Não vai ter Copa! Eles, nós, não deixamos passar incêndios misteriosos no entorno de estádios de futebol. O nome reclamado ainda é Liberdade.

As lutas anti-autoritárias também se articulam de maneiras distintas, sendo que, no passado, eram prisões permitidas e aglomerações proibidas, hoje o ataque se dá com uma grande quantidade de gás lacrimogêneo, balas de borracha e prisões nonsense. Por exemplo, para entender como pensa atualmente o amigável poder, no lugar de te estuprarem, eles apenas vão te cegar de um olho. Em vez de te amarrarem no pau-de-arara, vão te dar umas boas porradas em algum lugar fechado. No lugar de cortarem o bico dos seios, te deixam um furo na perna. Quer dizer, isso mostra que os vinagreiros ainda podem gritar por um pouco mais de tempo.

A questão simples e incompreendida é que histórias dolorosas como a de O ano em que meus pais saíram de férias não deveriam cair no gosto da repetição. Ingenuidade acreditar, pois Amarildos e Cláudias também não voltam mais para casa. No entanto, penso eu, esses meninos, Mauros e Marcelos (Marcelo Rubens Paiva, filho de Rubens Paiva, desaparecido na ditadura militar), crescem e têm algo a declarar. Reclamar cada parte destruída por algum mecanismo opressor da nossa sociedade. Ser calado à força cria sentimentos destrutivos que só uma revolução pode transformar em amor. E disseminar mais amor, mais respeito e mais solidariedade também significa, antes de lutar contra aqueles que acham que podem dominar, lutar pela construção de um mundo novo onde a podridão não tenha paz. 

MAUROS E MARCELOS, pelo viés de Caren Rhoden.

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