Tarja branca: o regaste à criança interna é revolucionário

“A liberdade é perigosa, o sonho é perigoso, a reinvenção daquilo que a gente vive é sempre uma desestabilização do status quo”. (Maria Amélia Pereira). Resenha do documentário Tarja Branca.

A+ A-
tarja_branca

Imagem: Reprodução

A liberdade é perigosa, o sonho é perigoso, a reinvenção daquilo que a gente vive é sempre uma desestabilização do status quo. (Maria Amélia Pereira, pedagoga)

O documentário Tarja Branca – A revolução que faltava, dirigido por Cacau Rhoden, é uma ode à brincadeira. Resgatar a criança interna de cada um de nós é o objetivo, em meio a uma organização de sociedade em que o lúdico é visto como um desvio à ordem. O filme, de 2014, é ilustrado com entrevistas a profissionais diversos, como pedagogxs, escritorxs, artistas, psicólogxs e pesquisadorxs, e com as tradicionais culturas de rua, como as Brincadeiras e as Congadas, de Minas Gerais e Espírito Santo. Com certeza os tão conhecidos jogos de rua, como o peão, a pandorga e a roda também estão presentes.

A fotografia intensa registrada por bonitas e angustiantes paisagens com as quais convivemos cotidianamente expressam bem a mensagem principal. Em nome da “civilização”, somos obrigados a estar pelo menos oito horas diárias em ocupações que, não raro, desgostamos. Enfrentamos lotações e assédios em meios públicos, a velocidade e a correria urbanas exaustam qualquer cidadão que precisa se encarcerar nessas condições para sobreviver às exigências do consumo. Qual é a válvula de escape? – O brincar.

Entre os depoimentos fica explícita a condição lúdica presente nos seres humanos. Desde ritmos de ciranda às caretas e palhaçadas, a brincadeira sempre esteve intrínseca a nossa espécie. A crítica é de como os ritmos atuais não permitem que sejamos espontânexs, irreverentes e criativxs para lidar, inclusive, com situações rotineiras.

Brincar é uma coisa do homem, do ser humano, é uma expressão. ela vem de diferentes formas nas diferentes etapas da vida, mas ela tá presente sempre (frase extraída do documentário).

A narrativa do filme se desenvolve a partir da pluralidade de olhares e interpretações sobre as importâncias da vida e de como vêm sendo deturpadas. A liberdade não é alcançada, tampouco o gozo de estar contente com o que se faz. As pressões exercidas pelo atual modelo de sociedade moldam as crianças desde cedo – o tempo livre, do recreio, é desconsiderado dentro das inúmeras atividades necessárias para preencher a semana. A criança precisa estar sempre ocupada. E assim nos tornamos pessoas adultas angustiadas, inseguras e sem nitidez sobre o que buscar para a própria realização.

A criança vive completamente dentro do mundo inconsciente, vai tendo consciência das coisas paulatinamente. Vai trazendo esse mundo para o consciente através da brincadeira (frase extraída do documentário).

Um dos pontos mais interessantes, ressaltados pelo psicanalista Ricardo Goldenberg, é a quantidade absurda de estudos voltados para a compreensão da depressão. Os estudos sobre a felicidade, por outro lado, são quase inexistentes. “A alegria não está na moda, o que está na moda é o pânico, a depressão, a medicalização da vida humana”, diz. E assim se define o mundo doentio que habitamos.

Imagem: Reprodução

Imagem: Reprodução

Nessas expressões, o documentário mostra também a mudança cultural que reflete em nossa educação hoje. Se na Roma antiga o ócio era a principal atividade dos romanos livres, atualmente o negócio é a chave do sucesso. Ou seja, a negação do ócio, pela etimologia. Junto a isso, há o destaque às religiões e atividades de matriz afro e indígena, em que o corpo das pessoas pratica a dança, as palmas, a identidade individual e coletiva dentro do tempo presente. Não há a espera por um inferno ou paraíso, como o catolicismo prega.

Daí a importância de manter vivas as culturas populares, que oralmente conseguem transportar tempo e espaço através das festas e brincadeiras de rua. Xs brincantes ou folgazões, como são chamadas, aclamam, fazem gestos e adoram a beleza de suas fantasias: vivem uma segunda infância, de acordo com a coreógrafa Andrea Jabor.

Eu estou pela revolução que falta, que é esta revolução da criança. É isso que vai nos tirar deste mal-estar, dessa tristeza generalizada que a gente vê nas pessoas, essa falta de alegria que a gente está vivendo (Lydia Hortelio).

Para finalizar, uma das frases ditas por Marcelino Freire, escritor, define o resumo do documentário: “Acho que vai muito de você encontrar-se a si mesmo. E dentro desse encontro mais pessoal, mais legítimo e profundo, que você enfrente uma sociedade que quer o tempo inteiro que você trabalhe”. Assim, fica a reflexão de que a revolução da criança e da brincadeira são necessárias para resgatarmos uma vida mais plena e profunda. 

O título do filme é explicado por um ramo da medicina ditado por Hélio Leites, ex-bancário e atual artesão. Deixamos para vocês descobrirem que remédio e brinquedo são estes. 

 

*Parte da resenha foi originalmente publicada no jornal Voz Docente, publicação da ADUFPel-Ssind.

Tarja branca: o regaste à criança interna é revolucionário, pelo viés de Liana Coll e Marina Martinuzzi.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Print this pageEmail this to someone